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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 6ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia

Ser ou não ser — eis a questão.
Morrer — dormir — Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa a reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.

SHAKESPEARE, W. Hamlet. Porto Alegre: L&PM, 2007.

Este solilóquio pode ser considerado um precursor do existencialismo ao enfatizar a tensão entre

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Existencialismo (fundamentos e precursores) + Literatura → leitura de texto dramático clássico
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular um texto literário do século XVII com um conceito filosófico do século XX, algo que só se resolve com repertório sobre existencialismo
  • 🎯 Tema/Habilidade: Precursores do existencialismo e a tensão entre razão, consciência e angústia diante da finitude — competência de leitura interdisciplinar entre filosofia e literatura
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Identifique qual tensão filosófica presente no solilóquio de Hamlet antecipa temas centrais do existencialismo."
  • Palavras-chave decisivas: precursor do existencialismo, tensão, solilóquio
  • Armadilha típica: confundir o drama pessoal do personagem (a "tragicidade") com o conceito filosófico que a questão pede — a banca não quer uma leitura literária genérica, quer a categoria filosófica que o texto anuncia.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de reconhecer, no texto de Shakespeare, os elementos que décadas depois seriam sistematizados pelo existencialismo — sobretudo a ideia de que o ser humano é o único ser que reflete sobre sua própria existência e, por isso, sofre com ela.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Existencialismo: corrente filosófica do século XX (Kierkegaard, Sartre, Heidegger, Camus) que coloca a existência concreta do indivíduo — e não uma essência abstrata prévia — no centro da reflexão filosófica. Um dos seus pilares é que o ser humano tem consciência de si mesmo e de sua finitude, e essa consciência gera angústia.
  • Angústia existencial: para os existencialistas, não é um mero sentimento passageiro, mas a percepção radical de que o indivíduo é livre, finito e responsável por suas escolhas diante da morte e do desconhecido — daí o desconforto ("obstáculo") diante do que vem depois de morrer.
  • Consciência de si (autoconsciência reflexiva): capacidade humana de se voltar sobre a própria existência e questioná-la — é justamente o que Hamlet faz ao parar para pensar sobre morrer, dormir e sonhar, em vez de agir de imediato.
  • Solilóquio como recurso dramático: fala que o personagem dirige a si mesmo (não a outro personagem), usada por Shakespeare para expor o processo mental e a deliberação interior — recurso literário que antecipa a introspecção filosófica moderna.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Ser ou não ser — eis a questão" → Hamlet não está diante de um dilema de ação qualquer, mas da própria existência: continuar existindo ou não. Essa é a matriz da pergunta existencialista por excelência: o que significa existir?
  • Evidência 2: "Os sonhos que hão de vir no sono da morte [...] Nos obrigam a hesitar" → o personagem tem consciência de que não sabe o que vem depois da morte, e essa incerteza — percebida racionalmente — trava sua ação. É a consciência reflexiva gerando angústia, não o destino ou uma força externa.
  • Evidência 3: "essa é a reflexão que dá à desventura uma vida tão longa" → o sofrimento humano ("desventura") se prolonga exatamente porque há reflexão, porque há consciência de si. Suprima a consciência e o sofrimento desapareceria — é isso que aproxima o texto do existencialismo.
  • Síntese: as três evidências convergem para o mesmo eixo: um sujeito que, ao tomar consciência da própria finitude, mergulha em angústia e hesitação. Esse é precisamente o par conceitual "consciência de si" + "angústia humana" cobrado na alternativa correta.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito e o objeto da reflexão de Hamlet

O solilóquio não narra uma ação, narra um pensamento. Hamlet interrompe qualquer movimento externo para se voltar sobre si mesmo e perguntar: vale a pena continuar existindo diante do sofrimento ("ser ou não ser")? Esse gesto — parar a ação para refletir sobre a própria existência — é o núcleo do que a filosofia existencialista chamará, séculos depois, de consciência de si: o ser humano não apenas existe, ele sabe que existe e questiona essa existência.

Subpasso 4.2 — Localizar a angústia como efeito dessa consciência

Hamlet não teme a morte por si só (dormir, parar de sofrer, seria até um alívio: "Morrer — dormir"). O que o paralisa é a incerteza sobre o que vem depois ("Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!"). Essa incerteza é insolúvel pela razão — ninguém pode "saber" o que há após a morte —, e é exatamente essa impossibilidade de resposta racional diante de uma questão existencial fundamental que gera a angústia. O texto afirma isso de forma explícita: é "a reflexão" (isto é, a consciência) que "dá à desventura uma vida tão longa" — quanto mais se pensa, mais se sofre.

Subpasso 4.3 — Verificação: conectar ao conceito de existencialismo

O existencialismo, mais tarde formulado por autores como Kierkegaard e Sartre, parte exatamente dessa constatação: o ser humano é o único ser lançado no mundo que tem consciência de sua própria finitude e liberdade, e é dessa consciência que nasce a angústia (a "náusea" sartriana, o "temor e tremor" kierkegaardiano). Hamlet, escrito no início do século XVII, antecipa dramaticamente essa estrutura de pensamento — daí ser corretamente chamado de "precursor do existencialismo". A tensão central, portanto, é entre consciência de si (o ato de refletir sobre a própria existência) e angústia humana (o sofrimento gerado por essa reflexão diante do desconhecido). Isso corresponde exatamente à alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) consciência de si e angústia humana.

✅ Correta: é exatamente a tensão retratada no solilóquio — Hamlet reflete sobre a própria existência (consciência de si) e essa reflexão produz hesitação e sofrimento diante do desconhecido (angústia). Esse par é o núcleo conceitual do existencialismo, o que justifica chamar o texto de precursor da corrente.

B) inevitabilidade do destino e incerteza moral.

❌ Incorreta: o solilóquio não trata de destino (força externa e inescapável que determina o curso dos eventos), mas de uma decisão interior e de uma reflexão racional do próprio Hamlet. Também não há um dilema propriamente "moral" (certo x errado) em jogo — o que está em jogo é existencial (existir ou não existir), categoria distinta de moral.

C) tragicidade da personagem e ordem do mundo.

❌ Incorreta: "tragicidade" descreve um efeito estético do gênero dramático (a tragédia como forma literária), não um conceito filosófico associado ao existencialismo. Além disso, o texto não discute "ordem do mundo" — ao contrário, expõe justamente a ausência de certezas sobre o que rege a existência após a morte.

D) racionalidade argumentativa e loucura iminente.

❌ Incorreta: embora Hamlet raciocine, o solilóquio não é uma "loucura iminente" — é uma deliberação lúcida e racional sobre a existência. Atribuir loucura ao personagem nesse trecho inverte o sentido do texto, que mostra exatamente o oposto: um pensamento ordenado e reflexivo.

E) dependência paterna e impossibilidade de ação.

❌ Incorreta: a "impossibilidade de ação" até dialoga perifericamente com a hesitação de Hamlet, mas "dependência paterna" é um elemento da trama da peça (a vingança pelo pai assassinado) que não aparece neste trecho específico e não tem relação com o existencialismo — é um desvio para o enredo, não para o conceito filosófico pedido.

🏆 Gabarito: A — o solilóquio antecipa o existencialismo justamente por mostrar um indivíduo que toma consciência de sua própria existência e finitude e, por isso, mergulha em angústia diante do desconhecido — a tensão entre consciência de si e angústia humana.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: nenhuma outra alternativa nomeia corretamente o par conceitual filosófico (consciência x angústia) que caracteriza o existencialismo; todas as demais confundem esse conceito com elementos do enredo (destino, moral, tragédia, loucura, relação paterna).
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente usa textos literários ou históricos como "porta de entrada" para conceitos filosóficos — pede-se não a interpretação literária pura, mas a identificação da corrente ou do conceito filosófico ao qual o texto se conecta.
  • Generalização: quando uma questão de Filosofia usa um texto literário e pergunta sobre uma corrente de pensamento, busque no texto o comportamento ou a reflexão do personagem que corresponde ao conceito central dessa corrente — não se prenda aos detalhes do enredo.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que mencionem elementos do enredo específico da obra (destino, moral religiosa, loucura, relações familiares) quando a pergunta for sobre uma corrente filosófica — o gabarito quase sempre estará na alternativa que usa vocabulário filosófico abstrato e coerente com o conceito citado no comando (aqui, "existencialismo").
  • Conexões: compare com questões sobre a "angústia" em Kierkegaard e o conceito de "ser-para-a-morte" em Heidegger, além do tema da liberdade e responsabilidade em Sartre — todos dialogam diretamente com essa mesma tensão entre consciência e angústia.

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