Mapa de questões · 1º dia
Questão 34 — ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia
A linhagem dos primeiros críticos ambientais brasileiros não praticou o elogio laudatório da beleza e
da grandeza do meio natural brasileiro. O meio natural foi elogiado por sua riqueza e potencial econômico, sendo sua destruição interpretada como um signo de atraso, ignorância e falta de cuidado.
PÁDUA, J. A. Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil
escravista (1786-1888). Rio de Janeiro: Zahar, 2002 (adaptado).
Descrevendo a posição dos críticos ambientais brasileiros dos séculos XVIII e XIX, o autor demonstra que, via de regra, eles viam o meio natural como
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Pensamento político e historiografia ambiental do Brasil colonial/imperial (séculos XVIII-XIX)
- ⚡ Nível: Médio — o texto entrega a resposta, mas exige distinguir com precisão uma visão utilitária de natureza de outras leituras próximas (religiosa, fundiária, geográfica) que as alternativas tentam confundir com o conteúdo original.
- 🎯 Tema/Habilidade: Formação do pensamento ambiental brasileiro pré-romântico; competência de leitura crítica de fonte historiográfica e reconhecimento de diferentes concepções de natureza ao longo da história do Brasil.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo José Augusto Pádua, como os primeiros críticos ambientais brasileiros (XVIII-XIX) enxergavam o meio natural?"
- Palavras-chave decisivas: riqueza e potencial econômico, destruição como atraso e ignorância, não é elogio à beleza
- Armadilha típica: projetar sobre o texto uma sensibilidade ambiental "moderna" ou romântica, como se esses críticos amassem a natureza por sua beleza, por motivos religiosos, ou como se a enxergassem como obstáculo à civilização. O texto nega explicitamente a leitura estética e não menciona religião, terra como mercadoria ou geografia como barreira.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a crítica ambiental colonial/imperial era de natureza econômica e civilizatória — a natureza valia como recurso produtivo indispensável ao progresso do país, e desperdiçá-la era sinal de atraso nacional.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ilustração luso-brasileira: movimento intelectual do final do século XVIII e início do XIX, influenciado pelo Iluminismo europeu e pela fisiocracia, que via a exploração racional da natureza como caminho para o "progresso" e a "civilização" do território colonial.
- Crítica ambiental pré-romântica: diferente do romantismo europeu do século XIX — que exaltava a natureza por seu valor estético e sublime —, a crítica ambiental brasileira desse período nascia de uma preocupação prática: o desperdício de recursos (matas, solos, madeiras) prejudicava a economia e o futuro da nação.
- José Bonifácio de Andrada e Silva: figura central da obra de Pádua, criticava práticas como a agricultura itinerante e as queimadas, associando a devastação florestal ao atraso técnico e à "ignorância" dos métodos produtivos empregados na colônia/império.
- Natureza como capital nacional: nessa lógica, o meio natural era percebido como patrimônio produtivo do país — algo a ser gerido com racionalidade para viabilizar o desenvolvimento, e não como cenário a ser contemplado ou preservado por si só.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não praticou o elogio laudatório da beleza e da grandeza do meio natural brasileiro" → descarta de imediato qualquer leitura estética, contemplativa ou de exaltação romântica da paisagem.
- Evidência 2: "O meio natural foi elogiado por sua riqueza e potencial econômico" → a natureza é valorizada como recurso, como base material para a produção e o desenvolvimento do país.
- Evidência 3: "sua destruição interpretada como um signo de atraso, ignorância e falta de cuidado" → desperdiçar essa riqueza equivalia a um fracasso civilizacional; cuidar dela, portanto, era condição para o avanço da nação.
- Síntese: as três evidências convergem para uma única ideia: o meio natural era percebido como instrumento necessário ao progresso nacional — sua boa gestão media o grau de "civilização" do país, e sua destruição irracional denunciava atraso. Essa é exatamente a lógica da alternativa que trata a natureza como "ferramenta essencial para o avanço da nação".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o núcleo conceitual do texto-base
O texto de Pádua estabelece uma oposição clara: de um lado, o que os críticos ambientais brasileiros não fizeram (elogiar a natureza por sua beleza e grandeza, como faria um poeta romântico); de outro, o que eles de fato fizeram (elogiá-la por sua riqueza e potencial econômico). Essa oposição é a chave da questão: a resposta correta precisa expressar uma relação instrumental e econômica entre o ser humano e a natureza, jamais uma relação estética, religiosa ou puramente geográfica.
Subpasso 4.2 — Testar a lógica de "ferramenta para o avanço da nação" contra o texto
Se a riqueza natural é elogiada por seu "potencial econômico" e sua destruição é lida como "atraso, ignorância e falta de cuidado", conclui-se que o bom uso da natureza era visto como pré-condição para o progresso do país. Em outras palavras: a natureza funcionava, no imaginário desses críticos, como uma ferramenta — um meio de produção — essencial para que a nação avançasse rumo à civilização e ao desenvolvimento. Não se trata de posse ou especulação sobre a terra, nem de uma dádiva sagrada, nem de um obstáculo: é um recurso a ser bem administrado.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao confrontar essa síntese com as cinco alternativas, apenas uma reproduz fielmente essa lógica de instrumentalidade econômica a serviço do progresso nacional, sem introduzir elementos estranhos ao texto (religião, mercado de terras, topografia urbana ou clima hostil). Essa alternativa é a A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) ferramenta essencial para o avanço da nação.
✅ Correta: sintetiza exatamente a lógica do texto — a natureza vista como recurso produtivo (riqueza e potencial econômico) cuja boa administração era condição para o progresso do país, e cujo desperdício denunciava atraso.
B) dádiva divina para o desenvolvimento industrial.
❌ Incorreta: o texto não menciona nenhuma justificativa religiosa ou providencial ("dádiva divina") para o valor da natureza. Além disso, "desenvolvimento industrial" é anacrônico para o contexto descrito (1786-1888): o Brasil desse período era uma economia agrária e extrativista, escravista, não industrial.
C) paisagem privilegiada para a valorização fundiária.
❌ Incorreta: o texto fala em riqueza e potencial econômico da natureza como um todo (recursos, solos, florestas), não em valorização de terras como propriedade ou mercadoria imobiliária. "Valorização fundiária" desloca o foco da produção para a especulação, ideia ausente no excerto.
D) limitação topográfica para a promoção da urbanização.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. Os críticos ambientais elogiavam a riqueza da natureza, não a apontavam como uma limitação ou obstáculo físico ao crescimento das cidades. A questão da urbanização sequer é mencionada.
E) obstáculo climático para o estabelecimento da civilização.
❌ Incorreta: também inverte a lógica do texto. A natureza não era vista como um empecilho a ser vencido para que a civilização se estabelecesse, mas como uma riqueza a ser bem aproveitada; a "falta de civilização" estava na destruição irracional dos recursos, não na existência de um meio natural hostil.
🏆 Gabarito: A — o texto mostra que os críticos ambientais brasileiros valorizavam a natureza por sua riqueza e potencial econômico, tratando-a como recurso indispensável ao progresso do país; por isso ela é descrita, com precisão, como "ferramenta essencial para o avanço da nação".
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A traduz a relação econômica e instrumental entre os críticos ambientais e a natureza, sem acrescentar elementos (religião, mercado de terras, topografia, clima) que o texto simplesmente não contém.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer textos historiográficos que desmontam visões anacrônicas do passado — aqui, a tentação é enxergar retroativamente uma sensibilidade "ecológica" romântica onde, na verdade, havia um cálculo econômico típico do pensamento ilustrado dos séculos XVIII-XIX.
- Generalização: em questões de interpretação histórica, a resposta certa quase sempre é a que reformula com fidelidade as ideias explícitas do texto-base, sem introduzir causas, atores ou motivações que não estão nele — desconfie de alternativas "plausíveis" mas ausentes do excerto.
- Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa que fale em "divino"/religioso (B) ou em "obstáculo"/"limitação" (D, E), pois o texto é claríssimo ao afirmar que a natureza foi elogiada, nunca tratada como empecilho; entre A e C, fique com a que fala em produção/economia nacional, não em terra como mercadoria.
- Conexões: o tema dialoga com a história do pensamento econômico colonial (fisiocracia, Ilustração luso-brasileira, José Bonifácio) e com discussões atuais sobre desenvolvimento sustentável, nas quais se debate até hoje se a natureza deve ser vista como recurso a explorar ou como patrimônio a preservar por valor intrínseco.
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