Mapa de questões · 1º dia
Questão 23 — ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Fragmento B91: Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio, nem substância mortal alcançar duas vezes a mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança, dispersa e de novo reúne.
HERÁCLITO. Fragmentos (Sobre a natureza). São Paulo: Abril Cultural, 1996 (adaptado).
TEXTO II
Fragmento B8: São muitos os sinais de que o ser é ingênito e indestrutível, pois é compacto, inabalável e sem fim; não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, uno, contínuo. Como poderia o que é perecer? Como poderia gerar-se?
PARMÊNIDES. Da natureza. São Paulo: Loyola, 2002 (adaptado).
Os fragmentos do pensamento pré-socrático expõem uma oposição que se insere no campo das
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Pré-Socrática (Escola de Éfeso e Escola Eleata)
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o tipo de problema filosófico (ontológico) por trás de dois fragmentos densos, e não apenas identificar "quem disse o quê".
- 🎯 Tema/Habilidade: Oposição entre a filosofia do devir (Heráclito) e a filosofia do ser (Parmênides) como fundadores da ontologia grega; competência de leitura e análise de textos filosóficos clássicos.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Os dois textos discordam entre si — sobre o que exatamente eles estão discordando, em termos filosóficos?"
- Palavras-chave decisivas: "não se pode banhar duas vezes no mesmo rio" (mudança constante), "ingênito e indestrutível... uno, contínuo" (permanência absoluta), "campo das" (pede a categoria do debate, não um resumo do conteúdo)
- Armadilha típica: o candidato reconhece a oposição entre "mudança" e "permanência", mas erra a categoria filosófica — confunde o debate sobre a natureza do ser (ontologia) com temas vizinhos como método científico (alternativa A), mito (B), retórica (D) ou percepção sensorial (E).
- O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que Heráclito e Parmênides discutem, cada um a seu modo, o que é o ser e como ele existe no tempo — ou seja, um problema de ontologia, ramo da filosofia que investiga a natureza última da realidade e do ente enquanto ente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Filosofia pré-socrática (physis): conjunto de pensadores anteriores a Sócrates que abandonaram explicações mitológicas e buscaram, pela razão, o princípio (arché) e a natureza fundamental (physis) de todas as coisas.
- Ontologia: ramo da filosofia — cujo termo grego é on (ser) + logos (estudo) — dedicado a investigar o que significa "ser", quais são as características essenciais da realidade e se ela é una ou múltipla, permanente ou mutável.
- Heráclito de Éfeso (devir): defende que a realidade é fluxo contínuo (panta rhei, "tudo flui"); a identidade das coisas se mantém não apesar da mudança, mas por meio dela — a unidade é dinâmica, tecida por opostos em tensão (o "logos" que rege a mudança).
- Parmênides de Eleia (ser imóvel): defende que o ser é uno, eterno, imóvel, indivisível e indestrutível; o não-ser é logicamente impensável, logo não existe geração nem corrupção — a mudança percebida pelos sentidos é ilusória, apenas a razão (não os sentidos) alcança a verdade sobre o ser.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio... pela intensidade e rapidez da mudança, dispersa e de novo reúne" → Heráclito afirma que o ser está em permanente transformação: a realidade é processo, não estado fixo.
- Evidência 2: "o ser é ingênito e indestrutível... não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, uno, contínuo" → Parmênides nega qualquer mudança: o ser sempre foi, é e será exatamente o mesmo, sem passado nem futuro, porque gerar ou destruir implicaria admitir o não-ser.
- Síntese: Os dois fragmentos não tratam de física, de mito ou de retórica — tratam diretamente da pergunta "o que é o ser e ele muda ou permanece?". Essa é a pergunta fundadora da ontologia, e é exatamente o ponto em que Heráclito e Parmênides se opõem de forma radical e inaugural na história da filosofia.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o objeto comum dos dois textos
Embora Heráclito e Parmênides cheguem a conclusões opostas, ambos falam sobre a mesma coisa: o ser (aquilo que existe, a realidade última das coisas). Heráclito descreve o ser como fluxo (o rio, a mudança incessante); Parmênides descreve o ser como imutabilidade absoluta (o "todo homogêneo, uno, contínuo"). Logo, o assunto comum não é ético, nem político, nem estético — é a natureza do ser.
Subpasso 4.2 — Classificar esse tipo de investigação
Quando a filosofia pergunta "o que é o ser?", "o ser muda ou permanece?", "há um ser único ou múltiplos entes?", ela está fazendo ontologia — o estudo do ser enquanto ser, independentemente de suas manifestações particulares. Esse é precisamente o núcleo da disputa entre a Escola de Éfeso (Heráclito, devir) e a Escola Eleata (Parmênides, imutabilidade), consideradas as duas grandes respostas rivais da filosofia pré-socrática ao problema ontológico.
Subpasso 4.3 — Verificação
Voltando às alternativas com o critério "campo das discussões": a resposta precisa nomear a categoria filosófica do debate, não repetir seu conteúdo. "Discussões de base ontológica" é a única alternativa que nomeia corretamente esse campo — as demais descrevem outros campos da filosofia (epistemologia/método, mito, retórica, teoria do conhecimento sensível) que não correspondem ao que os fragmentos discutem.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) investigações do pensamento sistemático.
❌ Incorreta: "pensamento sistemático" remete de forma vaga ao método racional em geral (algo que caracteriza toda a filosofia pré-socrática, incluindo os dois autores), mas não nomeia o objeto específico da disputa — o que está em jogo não é como eles pensam, e sim o que eles concluem sobre a natureza do ser.
B) preocupações do período mitológico.
❌ Incorreta: contraria o próprio sentido da filosofia pré-socrática, que nasce justamente como ruptura com as explicações mitológicas (mythos) em favor da razão (logos). Heráclito e Parmênides usam argumentação lógica, não narrativas de deuses — não há qualquer traço mitológico nos fragmentos.
C) discussões de base ontológica.
✅ Correta: ontologia é o estudo do ser enquanto ser. Heráclito defende o ser como devir (mudança permanente) e Parmênides defende o ser como imutável e uno; a oposição entre os fragmentos é exatamente uma disputa sobre a natureza fundamental do ser — o problema ontológico por excelência da filosofia pré-socrática.
D) habilidades da retórica sofística.
❌ Incorreta: retórica é a arte de persuadir por meio do discurso, associada aos sofistas (geração posterior, contemporânea de Sócrates). Heráclito e Parmênides são anteriores aos sofistas e não estão preocupados em convencer uma audiência em debates públicos, e sim em descrever racionalmente a estrutura da realidade.
E) verdades do mundo sensível.
❌ Incorreta: inverte o próprio argumento de Parmênides, que desqualifica os sentidos como fonte de verdade (para ele, os sentidos enganam ao sugerir mudança onde só há permanência); o debate não é sobre o que os sentidos captam, mas sobre o que a razão pode afirmar sobre o ser.
🏆 Gabarito: C — os fragmentos de Heráclito e Parmênides expõem, cada um à sua maneira, uma tese sobre a natureza do ser (mudança versus permanência), o que caracteriza uma discussão de base ontológica, fundadora da filosofia ocidental.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a única alternativa que nomeia corretamente o campo filosófico do debate — a natureza do ser — é a letra C; todas as outras descrevem campos que os textos não abordam (método, mito, retórica, sensibilidade).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente apresenta fragmentos originais de filósofos pré-socráticos (Tales, Heráclito, Parmênides, Pitágoras) pedindo que o aluno identifique o tipo de problema filosófico (ontológico, cosmológico, epistemológico) por trás da linguagem antiga e às vezes hermética dos textos.
- Generalização: sempre que um texto filosófico discutir "o que existe", "se algo muda ou permanece", "se a realidade é una ou múltipla", classifique-o como ontologia — mesmo que a palavra nunca apareça explicitamente no enunciado.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que mencionem mito (os pré-socráticos rompem com o mito) e retórica sofística (é anacrônica para Heráclito e Parmênides); depois, verifique se a alternativa nomeia a categoria do debate (ontologia) e não apenas uma característica genérica do pensamento racional.
- Conexões: compare com o dualismo platônico (mundo sensível × mundo das ideias), que retoma a tensão entre mudança e permanência em outro nível, e com a Escola Eleata como um todo (Parmênides, Zenão) versus a Escola de Éfeso (Heráclito) — clássico contraste cobrado em provas de filosofia antiga.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.