Mapa de questões · 1º dia
Questão 10 — ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia
O que ocorreu na Bahia de 1798, ao contrário das outras situações de contestação política na América portuguesa, é que o projeto que lhe era subjacente não tocou somente na condição, ou no instrumento, da integração subordinada das colônias no império luso. Dessa feita, ao contrário do que se deu nas Minas Gerais (1789), a sedição avançou sobre a sua decorrência.
JANCSÓ, I.; PIMENTA, J. P. Peças de um mosaico. In: MOTA, C. G. (Org.). Viagem incompleta:
a experiência brasileira (1500-2000). São Paulo: Senac, 2000.
A diferença entre as sedições abordadas no texto encontrava-se na pretensão de
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Colônia (movimentos separatistas: Inconfidência Mineira × Conjuração Baiana)
- ⚡ Nível: Difícil — o texto usa linguagem acadêmica cifrada ("condição", "instrumento", "decorrência") e exige comparar dois movimentos
- 🎯 Tema/Habilidade: Diferenças sociais e programáticas entre as sedições coloniais — competência de comparar processos históricos e identificar seus projetos de sociedade
- 🏆 Gabarito: B — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que a Conjuração Baiana (1798) propunha e a Inconfidência Mineira (1789) não propunha?"
- Palavras-chave decisivas: ao contrário do que se deu nas Minas Gerais, não tocou somente, avançou sobre a sua decorrência
- Armadilha típica: marcar "anular o domínio metropolitano" (C). É a resposta intuitiva — mas essa era pauta comum aos dois movimentos. A questão pede a diferença, não a semelhança.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato reconhece a Conjuração Baiana como movimento de base popular e mestiça, com pauta social (abolição da escravidão), enquanto a Inconfidência Mineira foi movimento de elite proprietária, restrito à pauta política e fiscal.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Inconfidência Mineira (1789): conspiração de elite — grandes mineradores, fazendeiros, letrados, padres e militares (Tiradentes era alferes). Motivada pela crise da mineração e pela ameaça da derrama (cobrança forçada do quinto atrasado). Queria a independência de Minas, mas mantinha a escravidão, base de sua própria riqueza.
- Conjuração Baiana / Revolta dos Alfaiates (1798): movimento de base popular, com forte participação de negros e mulatos, alfaiates, soldados de baixa patente e artesãos — muitos escravizados ou libertos. Além de propor a república e o fim do domínio português, defendia igualdade racial e o fim da escravidão.
- "Condição/instrumento" × "decorrência" (o vocabulário do texto): a integração subordinada da colônia ao império se dava pelo pacto colonial (a condição/instrumento). Sua decorrência era a ordem social que ele produziu internamente — uma sociedade escravista, hierarquizada por cor. A Bahia atacou também essa decorrência.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o projeto que lhe era subjacente não tocou somente na condição, ou no instrumento, da integração subordinada das colônias no império luso" → o "somente" é a chave da questão. A Bahia fez tudo o que Minas fez (atacar o vínculo colonial) — e fez algo a mais.
- Evidência 2: "ao contrário do que se deu nas Minas Gerais (1789), a sedição avançou sobre a sua decorrência" → o "algo a mais" é a decorrência do sistema colonial. E qual é a consequência social mais profunda do colonialismo português no Brasil? A escravidão africana e a hierarquia racial que ela sustenta.
- Síntese: ambos os movimentos atacaram o vínculo colonial. Só o baiano atacou também a estrutura social interna gerada por ele. A diferença está na pauta abolicionista.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Traduzir o texto acadêmico
O trecho de Jancsó e Pimenta é propositalmente abstrato. Vamos traduzi-lo termo a termo:
| Termo do texto | Tradução |
|---|---|
| "integração subordinada das colônias no império luso" | o pacto colonial: a colônia existe para servir à metrópole |
| "condição / instrumento" dessa integração | o domínio político-econômico português (monopólio, impostos, governo) |
| "decorrência" desse arranjo | a ordem social que ele produziu: sociedade escravista e racialmente hierarquizada |
| "não tocou somente… avançou sobre" | Minas atacou só o primeiro; a Bahia atacou o primeiro e o segundo |
Subpasso 4.2 — Comparar o perfil social dos dois movimentos
Aqui está o motivo material da diferença, e ele é decisivo:
- Minas Gerais (1789) — quem conspirava? Proprietários de minas, fazendeiros, contratadores, letrados. Eram donos de pessoas escravizadas. Abolir a escravidão significaria destruir a própria base econômica. Por isso o projeto mineiro parou na independência política e no fim das cobranças abusivas.
- Bahia (1798) — quem conspirava? Alfaiates, soldados rasos, artesãos, escravizados e libertos, majoritariamente negros e mulatos. Eram as vítimas da ordem escravista. Para eles, romper com Portugal sem acabar com a escravidão e a discriminação racial não resolveria nada.
A composição social explica a diferença de programa: movimento de senhores para na pauta política; movimento de escravizados avança até a pauta social.
Subpasso 4.3 — Verificação
O que a Bahia propôs e Minas não propôs foi o fim da escravidão africana, junto da igualdade entre as "cores". Isso corresponde exatamente à alternativa B. Note que "anular o domínio metropolitano" (C) é justamente a pauta compartilhada — é o que o texto chama de "condição/instrumento", que ambos atacaram. Marcar C é responder a uma pergunta que não foi feita.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) eliminar a hierarquia militar.
❌ Incorreta: embora houvesse soldados de baixa patente entre os conjurados baianos, o programa do movimento não visava extinguir a hierarquia militar. Os panfletos revolucionários falavam em república, liberdade de comércio, aumento de soldos e — centralmente — libertação dos escravizados. A hierarquia militar nunca foi alvo do projeto.
B) abolir a escravidão africana.
✅ Correta: é exatamente a "decorrência" a que o texto se refere. Os panfletos da Conjuração Baiana convocavam à liberdade dos "homens de todas as cores" e ao fim do cativeiro — pauta impensável para os inconfidentes mineiros de 1789, que eram eles próprios grandes senhores de escravizados. Aí está a diferença entre as duas sedições.
C) anular o domínio metropolitano.
❌ Incorreta: é a armadilha central da questão. Anular o domínio português era objetivo comum aos dois movimentos — é precisamente o que o texto chama de "condição, ou instrumento, da integração subordinada". Como o comando pede a diferença, essa alternativa descreve exatamente aquilo que não distingue os movimentos.
D) suprimir a propriedade fundiária.
❌ Incorreta: nenhuma das duas sedições propôs abolir a propriedade da terra. Um programa de coletivização fundiária é anacrônico para o Brasil do fim do século XVIII — trata-se de pauta ligada a movimentos socialistas do século XIX em diante. Nem mesmo os alfaiates baianos formularam algo assim.
E) extinguir o absolutismo monárquico.
❌ Incorreta: as duas conjurações eram inspiradas no Iluminismo e nos exemplos das revoluções americana e francesa, e ambas projetavam repúblicas — ou seja, ambas se opunham ao absolutismo. Sendo pauta compartilhada, não pode ser a diferença que o texto aponta. Cai no mesmo erro de C.
🏆 Gabarito: B — a Conjuração Baiana de 1798 avançou além da contestação ao domínio português (pauta comum às duas sedições) ao incorporar a abolição da escravidão e a igualdade racial, algo que a Inconfidência Mineira de 1789, movimento de elite escravista, jamais propôs.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: o texto diz que a Bahia "não tocou somente" no vínculo colonial — logo, o que a distingue está além dele. Entre as alternativas, só B aponta uma pauta que ultrapassa o político e chega ao social.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra a Conjuração Baiana quase sempre pelo mesmo ângulo — seu caráter popular, negro e antiescravista, em contraste com a Inconfidência Mineira, elitista e escravista. Dominar esse contraste resolve praticamente qualquer questão sobre o tema.
- Generalização: movimentos coloniais de elite param na pauta política e fiscal (impostos, autonomia, monopólio). Movimentos de base popular avançam sobre a pauta social (escravidão, igualdade racial, distribuição). Identifique quem conspira e você deduz o que ele reivindica.
- Dica de eliminação rápida: quando a pergunta pede a diferença entre dois movimentos, elimine imediatamente tudo que eles têm em comum — aqui C e E caem juntas, porque republicanismo e antimetropolitanismo estavam nos dois. D é anacrônica. Sobram A e B, e A não tem lastro documental.
- Conexões: a Revolução do Haiti (1791) como inspiração e como "medo haitiano" das elites brasileiras; a Revolução Pernambucana de 1817; e o debate sobre a formação do Estado nacional brasileiro sem ruptura da ordem escravista.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.