Mapa de questões · 1º dia
Questão 18 — ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia
Segundo a Conferência de Quioto, os países centrais industrializados, responsáveis históricos pela poluição, deveriam alcançar a meta de redução de 5,2% do total de emissões segundo níveis de 1990. O nó da questão é o enorme custo desse processo, demandando mudanças radicais nas indústrias para que se adaptem rapidamente aos limites de emissão estabelecidos e adotem tecnologias energéticas limpas. A comercialização internacional de créditos de sequestro ou de redução de gases causadores do efeito estufa foi a solução encontrada para reduzir o custo global do processo. Países ou empresas que conseguirem reduzir as emissões abaixo de suas metas poderão vender este crédito para outro país ou empresa que não consiga.
BECKER, B. Amazônia: geopolítica na virada do II milênio. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
As posições contrárias à estratégia de compensação presente no texto relacionam-se à ideia de que ela promove
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Geopolítica ambiental (Protocolo de Quioto, mercado de créditos de carbono)
- ⚡ Nível: Médio — exige sair da descrição do mecanismo e assumir a posição de quem o critica
- 🎯 Tema/Habilidade: Mercado de carbono e a crítica à mercantilização do direito de poluir — competência de avaliar criticamente propostas de intervenção no espaço geográfico
- 🏆 Gabarito: D — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é o argumento de quem critica o mercado de créditos de carbono?"
- Palavras-chave decisivas: posições contrárias, estratégia de compensação, reduzir o custo global, poderão vender este crédito
- Armadilha típica: responder o que o mecanismo faz (reduz custos, gera negociação entre países) em vez de responder o que os críticos apontam como defeito. O comando pede a voz da oposição, não a descrição neutra.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato percebe que a compensação permite ao poluidor continuar poluindo desde que pague — e que isso concentra a poluição em uns lugares e a preservação em outros.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Protocolo de Quioto (1997): tratado que impôs metas de redução de emissões aos países desenvolvidos (os poluidores históricos), reconhecendo o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas.
- Mecanismos de flexibilização: para baratear o cumprimento das metas, Quioto criou o comércio de emissões e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Quem emite abaixo da meta gera créditos e pode vendê-los a quem emite acima.
- Crédito de carbono: título negociável equivalente a 1 tonelada de CO₂ que deixou de ser emitida (ou foi sequestrada). Na prática, transforma o direito de poluir em mercadoria.
- A crítica central: o mecanismo garante que a conta global feche, mas não garante onde a poluição acontece. O país rico compra o crédito, mantém a indústria suja em casa; o país pobre vende o crédito e assume o ônus de preservar. O impacto ecológico e o benefício se distribuem de forma desigual pelo território.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "O nó da questão é o enorme custo desse processo, demandando mudanças radicais nas indústrias" → o problema real que a compensação resolve é econômico, não ambiental. Ela existe para o país rico não precisar transformar seu parque industrial.
- Evidência 2: "A comercialização internacional de créditos […] foi a solução encontrada para reduzir o custo global do processo" → "reduzir o custo" é o objetivo declarado. Quem critica pergunta: reduzir o custo para quem? E ao preço de quê?
- Evidência 3: "Países ou empresas que conseguirem reduzir as emissões abaixo de suas metas poderão vender este crédito para outro país ou empresa que não consiga" → aqui está o cerne. O poluidor não deixa de poluir: ele compra o direito de continuar. A redução acontece em outro lugar do planeta.
- Síntese: o mecanismo permite que a redução seja deslocada geograficamente. Quem paga continua emitindo; quem recebe carrega a obrigação de preservar. Essa assimetria territorial é exatamente o que os críticos denunciam.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Separar o que o texto descreve do que o comando pede
O texto é descritivo e neutro: explica o que é a compensação e por que ela foi criada. O comando, porém, muda de posição — pede o argumento de quem é contra. Toda alternativa que apenas descreva um efeito do mecanismo, sem ser uma objeção, está fora.
Subpasso 4.2 — Reconstruir a lógica da crítica
Imagine o mecanismo funcionando na prática:
- Um país central industrializado deveria cortar suas emissões. Cortá-las de verdade exigiria reformar suas indústrias — caro.
- Em vez disso, ele compra créditos de um país periférico que preservou floresta ou emitiu pouco.
- Resultado no papel: a meta global foi cumprida.
- Resultado no território: as chaminés continuam funcionando exatamente onde sempre funcionaram, e a população que vive ao redor delas continua respirando a mesma poluição. Enquanto isso, o país que vendeu o crédito assume restrições ao próprio uso do território.
Ou seja: o benefício (poder continuar produzindo) fica concentrado nos países ricos; o ônus (preservar, restringir o uso da terra) e os danos locais da poluição ficam concentrados alhures. O impacto ecológico não se distribui igualmente.
Subpasso 4.3 — Verificação
Essa assimetria — poluidor histórico compra o direito de continuar poluindo, e a responsabilidade ambiental é transferida para outro território — é precisamente o que a alternativa D enuncia: desigualdade na distribuição do impacto ecológico. É a única alternativa que formula uma objeção ao mecanismo, e não um efeito colateral genérico.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) retração nos atuais níveis de consumo.
❌ Incorreta: inverte completamente o sentido. A compensação foi criada justamente para evitar mudanças radicais (inclusive nos padrões de produção e consumo), permitindo que tudo siga como está mediante pagamento. Além disso, reduzir o consumo é uma bandeira dos ambientalistas críticos, não um defeito que eles atribuiriam ao mecanismo.
B) surgimento de conflitos de caráter diplomático.
❌ Incorreta: o comércio de créditos é, por natureza, um mecanismo de cooperação negociada — cria acordos e mercados entre países, não litígios. E, mesmo que gerasse atritos pontuais, a crítica ambientalista central ao mercado de carbono nunca foi de ordem diplomática: é de ordem ecológica e ética.
C) diminuição dos lucros na produção de energia.
❌ Incorreta: é o oposto do que o texto afirma. O mecanismo existe para reduzir custos dos países e empresas obrigados a cortar emissões — preserva a lucratividade em vez de ameaçá-la. Ademais, defender lucros do setor energético não é a pauta de quem critica a compensação por razões ambientais.
D) desigualdade na distribuição do impacto ecológico.
✅ Correta: é o núcleo da crítica. Ao comprar créditos, o país central industrializado — o responsável histórico pela poluição, como o próprio texto reconhece — mantém suas emissões e seus danos ambientais locais, enquanto transfere a tarefa de reduzir e preservar para outros territórios. A conta global fecha, mas a poluição e a preservação ficam geograficamente desigualmente distribuídas, perpetuando a injustiça ambiental.
E) decréscimo dos índices de desenvolvimento econômico.
❌ Incorreta: contradiz o próprio texto, que apresenta a compensação como forma de baratear o cumprimento das metas — logo, de proteger o crescimento econômico, não de freá-lo. Quem critica o mercado de carbono não o acusa de travar a economia; acusa-o exatamente de priorizar a economia em detrimento do meio ambiente.
🏆 Gabarito: D — os críticos apontam que a compensação permite aos maiores poluidores históricos continuar emitindo mediante pagamento, transferindo o ônus da preservação e concentrando os danos ambientais de forma desigual pelo território, o que gera desigualdade na distribuição do impacto ecológico.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a letra D é, de fato, uma crítica ao mecanismo. As demais ou descrevem o oposto do que o texto diz (A, C, E) ou apontam um efeito que não é a objeção ambiental (B).
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra o mercado de carbono quase sempre pela chave da justiça ambiental — quem polui, quem preserva, quem paga a conta. Espere alternativas que confundam o mecanismo com "cooperação" ou "freio ao desenvolvimento".
- Generalização: quando o comando pedir "posições contrárias", "críticas a" ou "objeções ao", mude de lado. A resposta nunca é o que o texto elogia nem o objetivo declarado da política — é sempre o efeito perverso, o custo oculto, quem sai prejudicado.
- Dica de eliminação rápida: procure as alternativas que contradizem o texto. O texto diz que a compensação reduz custos? Então C ("diminuição dos lucros") e E ("decréscimo do desenvolvimento") caem juntas em 20 segundos. A também cai, porque o mecanismo existe justamente para não mexer no consumo. Restam B e D — e B não é uma crítica ambiental.
- Conexões: princípio das responsabilidades comuns porém diferenciadas; Acordo de Paris (2015) e as NDCs; conceito de justiça ambiental e de "colonialismo do carbono"; greenwashing corporativo.
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