Mapa de questões · 1º dia
Questão 27 — ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia
Em 1935, o governo brasileiro começou a negar vistos a judeus. Posteriormente, durante o Estado Novo, uma circular secreta proibiu a concessão de vistos a “pessoas de origem semita”, inclusive turistas e negociantes, o que causou uma queda de 75% da imigração judaica ao longo daquele ano. Entretanto, mesmo com as imposições da lei, muitos judeus continuaram entrando ilegalmente no país durante a guerra e as ameaças de deportação em massa nunca foram concretizadas, apesar da extradição de alguns indivíduos por sua militância política.
GRIMBERG, K. Nova língua interior: 500 anos de história dos judeus no Brasil. In: IBGE. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro: IBGE, 2000 (adaptado).
Uma razão para a adoção da política de imigração mencionada no texto foi o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História do Brasil → Era Vargas (Estado Novo, 1937–1945) e política imigratória antissemita
- ⚡ Nível: Médio — exige conhecer a orientação ideológica do Estado Novo e sua aproximação com o fascismo europeu
- 🎯 Tema/Habilidade: Antissemitismo de Estado no Brasil varguista — competência de relacionar políticas internas a projetos políticos e ao contexto internacional
- 🏆 Gabarito: E — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Por que o Estado Novo proibiu, em circular secreta, a entrada de judeus no Brasil?"
- Palavras-chave decisivas: Estado Novo, circular secreta, "pessoas de origem semita", durante a guerra
- Armadilha típica: buscar uma explicação econômica ou trabalhista (B). A restrição não distinguia trabalhadores de "turistas e negociantes" — atingia todos os judeus. Logo, o critério não era o mercado de trabalho: era étnico-racial.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato conecta a medida à afinidade ideológica entre setores do regime varguista e o nazifascismo então em ascensão na Europa.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Estado Novo (1937–1945): ditadura de Getúlio Vargas, instaurada com o golpe de 1937 e a Constituição "Polaca" (inspirada na carta autoritária polonesa). Regime centralizador, com partido único de fato, censura (DIP), polícia política e forte culto ao líder — estruturas claramente inspiradas nos regimes autoritários europeus.
- Antissemitismo de Estado: política oficial de discriminação contra judeus. No Brasil, materializou-se nas circulares secretas do Itamaraty (a mais conhecida é a Circular Secreta nº 1.127, de 1937), que ordenavam aos consulados negar vistos a "pessoas de origem semita".
- A ala germanófila do regime: dentro da burocracia e do corpo diplomático brasileiro havia figuras abertamente simpáticas ao nazifascismo — o chanceler Oswaldo Aranha era pró-aliados, mas outros quadros influentes (como Francisco Campos, autor da Constituição de 1937, e Filinto Müller, chefe de polícia) admiravam o modelo alemão. Foi essa ala que empurrou a política de vistos.
- Pragmatismo varguista: o Brasil oscilou entre Eixo e Aliados até 1942, quando entrou na guerra ao lado dos Aliados. A contradição do texto — proibir judeus, mas nunca deportá-los em massa — reflete exatamente essa ambiguidade e o caráter burocrático e não exterminacionista do antissemitismo brasileiro.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "uma circular secreta proibiu a concessão de vistos a 'pessoas de origem semita', inclusive turistas e negociantes" → o detalhe é decisivo. Turistas não disputam emprego; negociantes trazem capital. Se até eles foram barrados, o critério não era econômico — era a origem étnica. Trata-se de racismo declarado.
- Evidência 2: "durante o Estado Novo" → o recorte cronológico coincide exatamente com o auge do nazismo na Alemanha e com o período de maior afinidade ideológica do regime brasileiro com o autoritarismo europeu.
- Evidência 3: "as ameaças de deportação em massa nunca foram concretizadas, apesar da extradição de alguns indivíduos por sua militância política" → o antissemitismo brasileiro foi burocrático (barrar na porta) e não exterminacionista. É importado como ideologia, mas aplicado de forma frouxa e contraditória — o que explica a entrada ilegal de muitos judeus.
- Síntese: uma proibição que se define por origem étnica, adotada por uma ditadura, no exato momento em que o nazismo se expandia, tem uma explicação óbvia: setores do aparelho de Estado brasileiro simpatizavam com o projeto totalitário alemão.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Descobrir o critério real da proibição
Este é o passo que resolve a questão. Pergunte-se: quem foi barrado?
- Trabalhadores judeus? Sim.
- Turistas judeus? Sim — o texto diz explicitamente.
- Negociantes judeus (que trariam capital)? Sim — também explicitamente.
Se todos foram barrados, independentemente da função econômica, então o critério de exclusão não pode ser econômico. O único traço comum aos barrados é a origem semita. A medida é, portanto, etnicamente motivada — é antissemitismo puro, e a própria linguagem da circular ("pessoas de origem semita") não deixa dúvida.
Subpasso 4.2 — Buscar a origem ideológica dessa política
De onde vem, no fim dos anos 1930, uma política estatal que classifica e exclui pessoas por origem étnica, com vocabulário racial e por meio de circulares sigilosas? A resposta é o nazifascismo europeu, então em plena expansão e em pleno prestígio internacional.
E o Estado Novo tinha muito em comum com esse modelo: ditadura, partido único de fato, censura estatal (DIP), polícia política, culto ao líder, corporativismo. Setores importantes da burocracia e da diplomacia brasileiras eram declaradamente germanófilos e viam no Terceiro Reich um modelo a seguir. Foram esses quadros que redigiram e sustentaram as circulares secretas.
Isso é exatamente o que a alternativa E descreve: simpatia de membros da burocracia pelo projeto totalitário alemão.
Subpasso 4.3 — Verificação
O detalhe final do texto confirma a leitura. A política foi adotada por afinidade ideológica de setores do aparelho de Estado — não por consenso nacional nem por cálculo econômico. Por isso ela foi aplicada de modo inconsistente: circular secreta (envergonhada), aplicação frouxa, entrada ilegal tolerada, deportações em massa nunca executadas. Um antissemitismo importado por uma parte da burocracia, e não uma política de extermínio de Estado. Alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) receio do controle sionista sobre a economia nacional.
❌ Incorreta: é o próprio estereótipo antissemita ("o judeu controla a economia") apresentado como se fosse uma explicação histórica legítima. Além de reproduzir o preconceito em vez de explicá-lo, confunde conceitos: sionismo é o movimento pela criação de um Estado judaico na Palestina, e não um projeto de domínio econômico de outros países. A comunidade judaica no Brasil dos anos 1930 era pequena e sem qualquer peso na economia nacional.
B) reserva de postos de trabalho para a mão de obra local.
❌ Incorreta: o próprio texto derruba essa hipótese. A circular barrava "inclusive turistas e negociantes" — pessoas que, por definição, não disputam vagas no mercado de trabalho brasileiro. Se o objetivo fosse proteger o emprego local, não haveria razão alguma para impedir a entrada de um turista. O critério era étnico, não ocupacional. (É verdade que existia a Lei de Cotas de 1934 para imigrantes em geral, mas ela não era étnica — e não explica uma proibição dirigida especificamente a "semitas".)
C) oposição do clero católico à expansão de novas religiões.
❌ Incorreta: o judaísmo não é uma "nova religião" no Brasil, e a perseguição não se dava por critério de fé, mas de origem: a circular fala em "pessoas de origem semita" — categoria racial, não confessional. Judeus convertidos ao cristianismo também eram barrados. Além disso, embora a Igreja tivesse influência no regime, não foi o clero que formulou a política de vistos, e sim a burocracia diplomática.
D) apoio da diplomacia varguista às opiniões dos líderes árabes.
❌ Incorreta: é um anacronismo geopolítico. O conflito árabe-israelense só se torna central após 1948, com a criação do Estado de Israel — e, ironicamente, foi o brasileiro Oswaldo Aranha quem presidiu a Assembleia da ONU que aprovou a partilha da Palestina em 1947. Nos anos 1930, a política externa brasileira não orbitava as posições de líderes árabes; ela oscilava entre Alemanha e Estados Unidos.
E) simpatia de membros da burocracia pelo projeto totalitário alemão.
✅ Correta: explica todos os elementos do texto. O Estado Novo compartilhava estruturas e vocabulário com os regimes fascistas europeus, e setores influentes da burocracia e da diplomacia brasileiras eram abertamente germanófilos. Foi essa afinidade ideológica que produziu as circulares secretas com linguagem racial ("origem semita"), aplicando no Brasil, em versão burocrática, a discriminação antissemita então praticada pela Alemanha nazista.
🏆 Gabarito: E — a proibição de vistos a "pessoas de origem semita" tinha critério étnico (barrava até turistas e negociantes), e sua origem está na simpatia de setores da burocracia estadonovista pelo modelo totalitário alemão, então em ascensão na Europa.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: o texto informa que turistas e negociantes também foram barrados. Esse único dado destrói toda explicação econômica e obriga a buscar uma causa ideológica — e a única alternativa ideológica compatível com o Estado Novo dos anos 1930 é a E.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra o Estado Novo com frequência pelo viés de sua face autoritária e da aproximação com o fascismo (DIP, censura, Constituição Polaca, antissemitismo). Guarde: a ambiguidade Vargas — flerte com o Eixo até 1942, entrada na guerra ao lado dos Aliados depois.
- Generalização: quando uma política de Estado exclui pessoas por origem (e não por função, renda ou profissão), a explicação é sempre ideológico-racial, nunca econômica. Deixe o enunciado provar isso para você: procure quem foi barrado sem qualquer motivo econômico plausível.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que reproduzem estereótipos como se fossem análise (A) e as que cometem anacronismo (D, que projeta o conflito árabe-israelense pós-1948 nos anos 1930). Duas alternativas eliminadas em 20 segundos.
- Conexões: Circular Secreta nº 1.127 (1937); a Lei de Cotas de Imigração de 1934; a atuação de Luiz Martins de Souza Dantas, diplomata brasileiro em Paris que desobedeceu às ordens e concedeu vistos a judeus, sendo reconhecido como "Justo entre as Nações"; o caso de Olga Benário, entregue à Gestapo pelo governo Vargas.
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