Mapa de questões · 1º dia
Questão 38 — ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia

No anúncio, há referências a algumas das transformações ocorridas no Brasil nos anos 1950 e 1960. No entanto, tais referências omitem transformações que impactaram segmentos da população, como a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Republicano, desenvolvimentismo e industrialização na era JK (1956-1961)
- ⚡ Nível: Médio — a resposta não está escrita no anúncio; é preciso perceber o que ele silencia sobre o Brasil real da época
- 🎯 Tema/Habilidade: Modernização conservadora e desigualdades regionais no Brasil das décadas de 1950-60; leitura crítica de fonte iconográfica/publicitária como documento histórico
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que transformação social do período o anúncio NÃO mostra, mas que de fato atingiu parte da população brasileira?"
- Palavras-chave decisivas: referências, omitem, segmentos da população
- Armadilha típica: tentar encontrar a resposta dentro da cena publicitária (carro, arquitetura moderna, elegância), quando a questão pede justamente o contrário — o que ficou de fora do quadro.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de contrastar o discurso oficial/publicitário de "Brasil moderno" com a realidade social e territorial desigual que esse discurso não menciona.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Plano de Metas (JK, 1956-1961): lema "50 anos em 5 anos"; industrialização acelerada por meio da entrada de capital estrangeiro, com destaque para a implantação da indústria automobilística e a construção de Brasília.
- Industrialização por substituição de importações concentrada no Centro-Sul: os investimentos, montadoras e empregos se instalaram sobretudo em São Paulo (ABC paulista) e Rio de Janeiro, onde já havia infraestrutura, mão de obra e mercado consumidor.
- Desigualdade regional: enquanto o Centro-Sul se industrializava e urbanizava rapidamente, o Nordeste e o Norte permaneciam presos a estruturas agrárias tradicionais, secas cíclicas e baixos indicadores sociais, ampliando o abismo econômico entre as regiões.
- Êxodo rural e migração interna: a resposta da população mais pobre a essa desigualdade foi migrar do campo — e do Nordeste — para os polos industriais do Sudeste, fenômeno diferente de uma "imigração internacional".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: a imagem mostra o automóvel Simca Chambord — fabricado no Brasil justamente pela política de atração de montadoras estrangeiras do governo JK — ao lado de arquitetura de linhas modernistas e de pessoas bem-vestidas → retrata o ideário de progresso, consumo e sofisticação urbana da "era do desenvolvimento".
- Evidência 2: o texto "Novo toque de elegância na moderna paisagem brasileira", publicado em O Cruzeiro (revista ilustrada de grande circulação entre as classes média e alta urbanas) → reforça um discurso publicitário homogêneo, como se toda a "paisagem brasileira" vivesse essa modernidade.
- Síntese: o anúncio universaliza uma experiência de modernização que, na prática, era restrita a um recorte social (classes urbanas mais abastadas) e a um recorte territorial (o eixo Rio–São Paulo). A questão pede exatamente o que esse recorte deixa de fora.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — O que a propaganda exalta
O Simca Chambord é um símbolo direto da industrialização automobilística viabilizada pelo Plano de Metas: multinacionais se instalaram no país sob incentivos fiscais e cambiais (como a Instrução 113 da SUMOC), produzindo bens de consumo antes só importados. A peça associa esse carro a elegância, modernidade arquitetônica (referência ao estilo que também molda Brasília) e status social — projetando a imagem de um país que "decola" rumo ao futuro.
Subpasso 4.2 — O que fica fora do quadro
Esse "novo toque de elegância" era acessível a uma fração pequena e urbana da população. A industrialização que sustenta a cena do anúncio se concentrou territorialmente no Centro-Sul, sem que houvesse uma política equivalente de distribuição de investimentos e infraestrutura para outras regiões. O Nordeste, em particular, seguia marcado pela economia agrária, pela seca e por índices sociais muito inferiores aos do Sudeste — um contraste que a publicidade, voltada à venda de um sonho de consumo, jamais mencionaria.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa lacuna com as cinco alternativas, apenas uma descreve um processo que de fato ocorreu no período e que a imagem, centrada em celebrar consumo e modernidade urbana, omite por completo: o aprofundamento das disparidades entre regiões do país. As demais alternativas ou contradizem o que de fato aconteceu no período (redução da influência estrangeira, desconcentração industrial) ou descrevem fenômenos que não correspondem ao contexto histórico (tradição colonial, imigração internacional).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) exaltação da tradição colonial.
❌ Incorreta: o anúncio faz exatamente o oposto — exalta a ruptura com o passado por meio de um carro moderno e de uma arquitetura de vanguarda. Não há qualquer elemento colonial na peça nem esse foi um traço omitido do período: a era JK é marcada pelo discurso de superação do "atraso", não de valorização da tradição colonial.
B) redução da influência estrangeira.
❌ Incorreta: o período foi marcado pelo inverso — ampliação da influência estrangeira. O próprio Simca era uma marca francesa instalada no Brasil graças aos incentivos do governo JK para atrair capital e indústrias multinacionais, especialmente no setor automobilístico.
C) ampliação da imigração internacional.
❌ Incorreta: os grandes fluxos de imigração internacional para o Brasil já haviam se reduzido desde as décadas de 1930-1940. O deslocamento populacional relevante nos anos 1950-60 foi o êxodo rural e a migração interna (sobretudo Nordeste → Sudeste), não um aumento de imigrantes vindos de outros países.
D) intensificação da desigualdade regional.
✅ Correta: a industrialização acelerada da era JK concentrou investimentos, empregos e infraestrutura no eixo Rio–São Paulo, aprofundando o desequilíbrio econômico e social com regiões como o Nordeste e o Norte. Esse é precisamente o segmento da população — os que ficaram à margem do "progresso" — que a propaganda, ao universalizar a "moderna paisagem brasileira", deixa de retratar.
E) desconcentração da produção industrial.
❌ Incorreta: ocorreu o movimento contrário. A produção industrial se concentrou ainda mais no Centro-Sul (especialmente no ABC paulista e na Grande Rio), consolidando esse polo como o principal centro produtivo do país — um processo de desconcentração industrial mais significativo só começaria a ganhar corpo décadas depois.
🏆 Gabarito: D — a única alternativa que corresponde a uma transformação real do período (o aprofundamento da desigualdade entre regiões) e que, ao mesmo tempo, está ausente do discurso otimista e homogêneo da propaganda.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: entre as cinco opções, apenas a intensificação da desigualdade regional é compatível com o contexto histórico do desenvolvimentismo de JK e, ao mesmo tempo, representa algo que uma propaganda voltada ao consumo urbano jamais exporia.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa fontes publicitárias, fotográficas ou de época como "textos" que precisam ser confrontados com o conhecimento histórico do candidato — pedindo, muitas vezes, o que a fonte oculta ou distorce, não apenas o que ela mostra.
- Generalização: sempre que uma questão pedir o que uma fonte "omite", procure o grupo social ou a região que está fora do quadro retratado — em fontes ligadas ao desenvolvimentismo brasileiro, esse grupo quase sempre é a população rural, pobre ou nordestina.
- Dica de eliminação rápida: descarte de cara alternativas que contradigam fatos básicos do período (aumento, e não redução, da presença estrangeira; concentração, e não desconcentração, industrial) e alternativas fora de contexto temático (tradição colonial, imigração internacional) — isso já elimina quatro das cinco opções.
- Conexões: relacione com o êxodo rural nordestino, a criação da SUDENE (1959) como resposta tardia à desigualdade regional, e o conceito de "modernização conservadora", usado para descrever um desenvolvimento que moderniza a economia sem redistribuir renda ou reduzir disparidades sociais e territoriais.
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