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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 28ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia

Pirro afirmava que nada é nobre nem vergonhoso, justo ou injusto; e que, da mesma maneira, nada existe do ponto de vista da verdade; que os homens agem apenas segundo a lei e o costume, nada sendo mais isto do que aquilo. Ele levou uma vida de acordo com esta doutrina, nada procurando evitar e não se desviando do que quer que fosse, suportando tudo, carroças, por exemplo, precipícios, cães, nada deixando ao arbítrio dos sentidos.

LAÉRCIO, D. Vidas e sentenças dos filósofos ilustres. Brasília: Editora UnB, 1988.

O ceticismo, conforme sugerido no texto, caracteriza-se por:

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Antiga (escolas helenísticas)
  • ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar o ceticismo de escolas rivais (epicurismo, estoicismo, aristotelismo) a partir de um relato biográfico, sem citar o nome da corrente.
  • 🎯 Tema/Habilidade: O ceticismo pirrônico e a negação de um critério objetivo de verdade — competência de leitura e interpretação de textos filosóficos clássicos.
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual alternativa expressa corretamente o núcleo da doutrina que o relato sobre Pirro ilustra?"
  • Palavras-chave decisivas: nada é nobre nem vergonhoso, nada existe do ponto de vista da verdade, nada deixando ao arbítrio dos sentidos
  • Armadilha típica: confundir o ceticismo com o cinismo (pela ideia de "desprezar convenções") ou com o epicurismo (pela busca de uma vida tranquila e prazerosa), já que ambos também questionam valores estabelecidos.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o texto descreve uma dupla negação — a impossibilidade de certeza racional e a consequente indiferença prática diante dos juízos de valor.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Ceticismo pirrônico: corrente fundada por Pirro de Élis (c. 360-270 a.C.) segundo a qual não é possível alcançar um critério racional seguro para distinguir o verdadeiro do falso ou o justo do injusto, pois a todo argumento é sempre possível opor um argumento de igual força (isostenia).
  • Epoché e ataraxia: diante dessa impossibilidade, o sábio cético suspende o juízo (epoché) em vez de afirmar ou negar algo com certeza; essa suspensão gera indiferença (adiaphoria) e tranquilidade de espírito (ataraxia).
  • Nomos versus physis: distinção clássica entre o que é por convenção humana (nomos — lei, costume) e o que seria por natureza (physis). O cético nega que se possa provar algo por physis; resta apenas seguir o nomos como guia prático, sem lhe atribuir valor de verdade absoluta.
  • Escolas helenísticas rivais: epicurismo (busca do prazer moderado como fim da vida feliz), estoicismo (aceitação racional do destino/determinismo cósmico) e aristotelismo (busca da virtude como justo-meio, do "homem bom e belo" — kalós kagathós) — todas, ao contrário do ceticismo, oferecem um critério positivo de conduta e de verdade.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "nada é nobre nem vergonhoso, justo ou injusto; e que, da mesma maneira, nada existe do ponto de vista da verdade" → nega explicitamente qualquer critério objetivo tanto para valores morais quanto para a verdade em geral — é a tese central do ceticismo.
  • Evidência 2: "os homens agem apenas segundo a lei e o costume, nada sendo mais isto do que aquilo" → substitui a certeza racional pela mera convenção social (nomos), reforçando que nenhuma opção é racionalmente superior a outra (isostenia).
  • Evidência 3: "nada procurando evitar (...) suportando tudo, carroças (...), precipícios, cães, nada deixando ao arbítrio dos sentidos" → mostra a consequência prática dessa dúvida radical: nem os sentidos nem a razão são tomados como critérios confiáveis, o que se traduz em indiferença extrema diante dos estímulos do mundo.
  • Síntese: o relato apresenta, em conjunto, a tese teórica do ceticismo (não há certeza possível sobre o que é verdadeiro, justo ou nobre) e sua consequência prática (indiferença/apatia diante das circunstâncias), exatamente os dois elementos que a alternativa correta precisa reunir.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar a tese teórica do texto

A primeira frase do relato de Diógenes Laércio nega, de forma explícita, qualquer fundamento objetivo para os valores morais ("nobre nem vergonhoso, justo ou injusto") e para a verdade ("nada existe do ponto de vista da verdade"). Isso caracteriza a posição filosófica que hoje chamamos de ceticismo: a suspeita de que a razão humana não dispõe de um critério seguro para afirmar com certeza o que é verdadeiro ou falso, bom ou mau.

Subpasso 4.2 — Isolar a consequência prática do texto

A segunda parte do relato mostra Pirro vivendo de acordo com essa dúvida radical: ele não evitava perigos (carroças, precipícios, cães) porque não confiava nem nos sentidos nem no juízo racional para determinar com segurança o que era, de fato, perigoso. Trata-se da indiferença prática (ataraxia/apatia) que decorre logicamente da negação de qualquer certeza.

Subpasso 4.3 — Verificação cruzando com as alternativas

Uma alternativa correta precisa mencionar, ao mesmo tempo, (1) a negação da possibilidade de certeza e (2) a atitude de indiferença resultante. Ao varrer as cinco opções, apenas uma reúne exatamente esses dois elementos sem introduzir conceitos de outras escolas (prazer, determinismo, virtude, transcendência) — confirmando que o gabarito é a alternativa C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Desprezar quaisquer convenções e obrigações da sociedade.

❌ Incorreta: o próprio texto diz o contrário — Pirro afirmava que "os homens agem apenas segundo a lei e o costume". O cético não despreza as convenções sociais; ele as segue justamente por não ter um critério racional superior para contestá-las. Essa alternativa confunde ceticismo com cinismo, escola que de fato pregava a ruptura com as convenções sociais.

B) Atingir o verdadeiro prazer como o princípio e o fim da vida feliz.

❌ Incorreta: colocar o prazer como princípio e fim da vida feliz é a tese central do epicurismo (hedonismo moderado de Epicuro), não do ceticismo. O texto de Pirro não menciona busca de prazer em nenhum momento; menciona negação de certeza e indiferença.

C) Defender a indiferença e a impossibilidade de obter alguma certeza.

✅ Correta: reúne exatamente os dois pilares do relato — a impossibilidade de certeza ("nada existe do ponto de vista da verdade") e a indiferença prática resultante ("nada deixando ao arbítrio dos sentidos", suportando carroças, precipícios e cães sem se desviar). É a formulação mais precisa do núcleo do ceticismo pirrônico.

D) Aceitar o determinismo e ocupar-se com a esperança transcendente.

❌ Incorreta: determinismo (aceitação racional do destino cósmico) é marca do estoicismo, não do ceticismo; "esperança transcendente" tampouco aparece no relato, que é inteiramente centrado na negação da certeza terrena, sem qualquer menção a uma dimensão além da experiência sensível ou racional.

E) Agir de forma virtuosa e sábia a fim de enaltecer o homem bom e belo.

❌ Incorreta: a ideia do "homem bom e belo" (kalós kagathós) remete à ética das virtudes de tradição aristotélica/platônica, que pressupõe exatamente aquilo que o cético nega: um critério objetivo do que é nobre, justo e virtuoso.

🏆 Gabarito: C — o texto descreve simultaneamente a negação de qualquer critério de certeza (verdade, justiça, nobreza) e a indiferença prática que decorre dessa dúvida radical, núcleo exato da alternativa C.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa C combina os dois elementos indissociáveis do relato — a impossibilidade de certeza e a indiferença (apatia) resultante — sem importar conceitos de outras escolas helenísticas.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer trechos de fontes primárias (Diógenes Laércio, fragmentos de pré-socráticos, diálogos platônicos) e pedir que o estudante identifique a escola filosófica sem que o nome dela apareça no texto — testando compreensão de conceito, não decoreba de nomes.
  • Generalização: ao ler um texto de filosofia antiga na prova, separe sempre a tese teórica (o que a escola afirma sobre o conhecimento/a realidade) da consequência prática (como isso deveria orientar a conduta do sábio); a alternativa certa normalmente precisa dar conta das duas pontas.
  • Dica de eliminação rápida: procure "palavras-âncora" de cada escola nas alternativas — prazer/felicidade = epicurismo; destino/determinismo = estoicismo; virtude/bom-e-belo = aristotelismo; ruptura com convenções = cinismo. Se a alternativa carrega uma dessas âncoras e o texto-fonte não a menciona, ela está errada.
  • Conexões: compare este tema com o relativismo dos sofistas ("o homem é a medida de todas as coisas") e com o método da dúvida cartesiana na filosofia moderna, que retoma — de outra maneira — o problema cético do critério de verdade.

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