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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaDifícil

Questão 24ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia

A democracia deliberativa afirma que as partes do conflito político devem deliberar entre si e, por meio de argumentação razoável, tentar chegar a um acordo sobre as políticas que seja satisfatório para todos. A democracia ativista desconfia das exortações à deliberação por acreditar que, no mundo real da política, onde as desigualdades estruturais influenciam procedimentos e resultados, processos democráticos que parecem cumprir as normas de deliberação geralmente tendem a beneficiar os agentes mais poderosos. Ela recomenda, portanto, que aqueles que se preocupam com a promoção de mais justiça devem realizar principalmente a atividade de oposição crítica, em vez de tentar chegar a um acordo com quem sustenta estruturas de poder existentes ou delas se beneficia.

YOUNG, I. M. Desafios ativistas à democracia deliberativa. 
Revista Brasileira de Ciência Política, n. 13, jan.-abr. 2014.

As concepções de democracia deliberativa e de democracia ativista apresentadas no texto tratam como imprescindíveis, respectivamente,

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Teorias contemporâneas da democracia (democracia deliberativa e democracia ativista/de confronto)
  • ⚡ Nível: Difícil — o texto é teórico e abstrato, nenhum dos dois modelos é nomeado nas alternativas, e o candidato precisa traduzir os conceitos por conta própria.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Modelos de participação política e cidadania; leitura crítica e síntese de um texto de ciência política que compara duas concepções de democracia.
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a democracia deliberativa e a democracia ativista consideram, cada uma, indispensável para a ação política?"
  • Palavras-chave decisivas: acordo satisfatório para todos, desigualdades estruturais, oposição crítica
  • Armadilha típica: associar "democracia ativista" a anarquismo ou desobediência civil só porque o nome sugere confronto — o texto fala em desconfiar da deliberação e priorizar a mobilização de quem é prejudicado pela desigualdade de poder, não em rejeitar as instituições.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de converter as ideias do texto — "acordo satisfatório para todos" e "oposição crítica" diante de "desigualdades estruturais" que beneficiam "os agentes mais poderosos" — em termos equivalentes das alternativas.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Democracia deliberativa: modelo normativo em que atores com interesses conflitantes devem debater racionalmente, trocando argumentos razoáveis, até alcançar um acordo — um consenso — legítimo e satisfatório para todas as partes.
  • Democracia ativista (ou de confronto): corrente crítica, associada à filósofa Iris Marion Young, que desconfia da deliberação porque desigualdades estruturais (econômicas, sociais, de acesso ao poder) fazem procedimentos aparentemente neutros favorecerem quem já é mais poderoso.
  • Oposição crítica e mobilização: para a democracia ativista, quem se importa com justiça social deve organizar-se e pressionar politicamente, em vez de negociar com quem sustenta as estruturas de poder vigentes, já que o consenso institucional tende a reproduzir a desigualdade.
  • Contexto da autora: Iris Marion Young é referência na teoria da justiça e na crítica à democracia deliberativa a partir da perspectiva de grupos historicamente marginalizados, que precisam de estratégias de confronto, não apenas de assento à mesa de negociação.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "tentar chegar a um acordo sobre as políticas que seja satisfatório para todos" → a meta central da democracia deliberativa é o consenso obtido por argumentação razoável.
  • Evidência 2: "recomenda [...] que aqueles que se preocupam com a promoção de mais justiça devem realizar principalmente a atividade de oposição crítica, em vez de tentar chegar a um acordo" → a democracia ativista rejeita a busca do consenso institucional e prioriza o confronto político organizado.
  • Evidência 3: "onde as desigualdades estruturais influenciam procedimentos e resultados [...] tendem a beneficiar os agentes mais poderosos" → o ativismo nasce para proteger quem está em desvantagem estrutural, ou seja, é uma estratégia voltada à ação política de grupos minoritários/desfavorecidos.
  • Síntese: o texto contrasta duas apostas políticas: uma aposta no diálogo até o acordo comum (consenso); a outra desconfia desse diálogo e aposta na organização e pressão de quem historicamente perde nas negociações — a mobilização das minorias.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar o núcleo da democracia deliberativa

Releia a primeira frase: as partes do conflito devem "deliberar entre si" e, "por meio de argumentação razoável, tentar chegar a um acordo [...] satisfatório para todos". O verbo-chave é "chegar a um acordo": o valor supremo desse modelo é o consenso construído racionalmente entre os agentes em disputa.

Subpasso 4.2 — Isolar o núcleo da democracia ativista

O texto mostra que, no mundo real, desigualdades estruturais distorcem qualquer deliberação "aparentemente" justa, beneficiando "os agentes mais poderosos". Por isso a democracia ativista recomenda "oposição crítica" no lugar da negociação com quem sustenta o poder — ou seja, grupos prejudicados precisam se organizar e agir (mobilizar-se) em vez de aceitar um diálogo que tende a perpetuar sua desvantagem.

Subpasso 4.3 — Verificação

Rearticulando os dois núcleos: democracia deliberativa → obtenção do consenso; democracia ativista → mobilização das minorias por meio da oposição crítica. Apenas a letra C reproduz esse par de ideias sem inventar termos que o texto não sustenta (eleições, anarquismo, desobediência civil, imposição de resistência).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) a decisão da maioria e a uniformização de direitos.

❌ Incorreta: a democracia deliberativa não se baseia em voto majoritário, e sim em argumentação até o consenso — decidir por maioria é o oposto de "chegar a um acordo satisfatório para todos". "Uniformização de direitos" não corresponde a nada dito sobre a democracia ativista.

B) a organização de eleições e o movimento anarquista.

❌ Incorreta: o texto não menciona eleições — o debate é sobre deliberação e confronto, não sobre mecanismos eleitorais. E a democracia ativista não é anarquista: ela não propõe abolir instituições, apenas desconfia da deliberação como caminho para a justiça.

C) a obtenção do consenso e a mobilização das minorias.

✅ Correta: reproduz os dois núcleos do texto. A democracia deliberativa tem como fim "chegar a um acordo satisfatório para todos" (consenso); a democracia ativista, por desconfiar de procedimentos que beneficiam os mais poderosos, recomenda oposição crítica organizada por quem é estruturalmente prejudicado — a mobilização de grupos minoritários/desfavorecidos.

D) a fragmentação da participação e a desobediência civil.

❌ Incorreta: a democracia deliberativa busca o oposto da fragmentação — quer unir as partes em torno de um acordo comum. Já a democracia ativista propõe "oposição crítica", mas "desobediência civil" (ruptura deliberada com leis) não é mencionada nem é sinônimo do que Young descreve.

E) a imposição de resistência e o monitoramento da liberdade.

❌ Incorreta: a democracia deliberativa não impõe nada — define-se pela argumentação razoável e voluntária. "Monitoramento da liberdade" não corresponde a nada no texto sobre democracia ativista, que fala em oposição crítica às estruturas de poder, não em vigiar liberdades.

🏆 Gabarito: C — a democracia deliberativa tem como imprescindível o consenso obtido por argumentação razoável, enquanto a democracia ativista tem como imprescindível a mobilização crítica das minorias/grupos desfavorecidos diante de desigualdades estruturais de poder.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa C usa termos fiéis ao texto e mutuamente exclusivos entre os dois modelos — consenso (para quem aposta no diálogo) e mobilização das minorias (para quem desconfia dele).
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente cobra, em Sociologia/Filosofia, a comparação entre modelos teóricos de democracia a partir de textos de ciência política, exigindo extrair o conceito sem que ele seja nomeado nas alternativas.
  • Generalização: em questões que comparam duas correntes teóricas, procure o verbo de ação central de cada uma no texto-base (aqui, "chegar a um acordo" x "realizar oposição crítica") — ele costuma indicar a alternativa certa.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com termos concretos não citados no texto (eleições, anarquismo, desobediência civil, imposição, monitoramento) — texto abstrato pede resposta com vocabulário conceitual equivalente, não exemplos institucionais inventados.
  • Conexões: o tema dialoga com a teoria da justiça de John Rawls (base da democracia deliberativa) e com críticas feministas e de justiça social, como as da própria Iris Marion Young, à neutralidade dos procedimentos democráticos formais.

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