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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 1ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia

Sentimos que toda satisfação de nossos desejos advinda do mundo assemelha-se à esmola que mantém hoje o mendigo vivo, porém prolonga amanhã a sua fome. A resignação, ao contrário, assemelha-se à fortuna herdada: livra o herdeiro para sempre de todas as preocupações.

SCHOPENHAUER, A. Aforismo para a sabedoria da vida. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

O trecho destaca uma ideia remanescente de uma tradição filosófica ocidental, segundo a qual a felicidade se mostra indissociavelmente ligada à

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Ética e teorias da felicidade (herança estoica/ascética em Schopenhauer)
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é curto, mas exige transformar duas metáforas em um conceito filosófico abstrato
  • 🎯 Tema/Habilidade: A felicidade como domínio de si, e não como satisfação de desejos externos — competência de relacionar informações de um texto filosófico a uma tradição de pensamento
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após a resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "A que tradição filosófica ocidental Schopenhauer se filia quando diz que a felicidade não vem de satisfazer desejos, mas de renunciar a eles?"
  • Palavras-chave decisivas: resignação, fortuna herdada, livra o herdeiro para sempre, prolonga amanhã a sua fome
  • Armadilha típica: ler "resignação" como tristeza, conformismo ou passividade derrotada. No vocabulário filosófico, resignação aqui é uma conquista ativa: o sujeito deixa de ser refém do próprio desejo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entendeu que, nessa tradição, a felicidade depende do que está dentro do sujeito (seus desejos, seus juízos), nunca do que vem de fora (bens, prazeres, circunstâncias).

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Vontade (Wille), em Schopenhauer: força cega e insaciável que move todo desejo humano. Cada desejo satisfeito não encerra nada — gera imediatamente o próximo. É por isso que a satisfação vira "esmola": alimenta hoje, mas garante a fome de amanhã.
  • Resignação: renúncia lúcida ao desejo. Não é derrota, é libertação. Quem para de depender do mundo externo para ser feliz alcança uma paz que não precisa ser reconquistada todo dia — daí a metáfora da herança, que já é sua e ninguém tira.
  • Autarquia / independência interior (herança estoica): o ideal antigo de que a felicidade depende exclusivamente daquilo que está sob nosso controle — nossos julgamentos e desejos — e nunca dos bens e acontecimentos externos, que não controlamos.
  • Ataraxia (herança epicurista e cética): tranquilidade da alma obtida pela redução dos desejos ao necessário. Ecoa diretamente no contraste esmola × herança.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "toda satisfação de nossos desejos advinda do mundo assemelha-se à esmola que mantém hoje o mendigo vivo, porém prolonga amanhã a sua fome" → a satisfação que vem de fora é estruturalmente insuficiente: ela não resolve, apenas adia. Mantém o sujeito dependente e em ciclo.
  • Evidência 2: "A resignação, ao contrário, assemelha-se à fortuna herdada: livra o herdeiro para sempre de todas as preocupações" → a felicidade estável vem de um patrimônio que já é do sujeito. É definitiva ("para sempre") justamente porque não depende de nada externo.
  • Síntese: o aforismo opõe duas fontes de felicidade — a dependência externa (instável, cíclica, insaciável) e o governo interior dos próprios desejos (estável, autossuficiente, definitivo). O texto declara vencedora a segunda. Resta nomear filosoficamente essa segunda via.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Desmontar as duas metáforas

O trecho inteiro se sustenta em duas imagens econômicas, e vale a pena traduzi-las:

| Metáfora | Representa | Natureza |

|---|---|---|

| Esmola | satisfazer desejos vindos do mundo | externa, finita, recorrente, nunca encerra a carência |

| Fortuna herdada | a resignação | própria do sujeito, definitiva, encerra a preocupação |

Repare no detalhe decisivo: a esmola vem de alguém. A herança já é sua. A oposição do texto não é entre "ter pouco" e "ter muito" — é entre depender e não depender.

Subpasso 4.2 — Nomear a tradição filosófica

Essa valorização do domínio de si — e não da posse de bens ou da satisfação de impulsos — é o núcleo do estoicismo e, em geral, das éticas helenísticas. Para Epicteto e Sêneca, a felicidade (eudaimonia) depende de administrar corretamente o que está em nosso poder (desejos, juízos, reações) e de aceitar serenamente o que não está (fortuna, doença, opinião alheia).

Schopenhauer parte de outra metafísica (a Vontade como essência irracional do mundo), mas retoma exatamente essa lógica prática: libertar-se da tirania do desejo é a única paz possível. Ou seja, a felicidade está ligada a administrar a própria independência interior — cultivar, como quem cuida de um patrimônio, a autonomia da vida interior diante do mundo.

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando contra as alternativas: a única que descreve a felicidade como gestão de uma autonomia que vem de dentro é a alternativa B. As demais ou introduzem temas que não estão no texto (afeto, epistemologia, religião) ou invertem o sentido do aforismo (prazeres efêmeros — exatamente o que Schopenhauer condena).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) consagração de relacionamentos afetivos.

Incorreta: o aforismo não trata de vínculos interpessoais em momento algum. A oposição construída é entre depender do mundo e depender de si — a vida afetiva sequer entra na comparação. Além disso, relacionamentos são, na lógica do texto, mais um bem "advindo do mundo", ou seja, estariam do lado da esmola, não da herança.

B) administração da independência interior.

Correta: é a paráfrase exata do texto. A "fortuna herdada" é a autonomia que o sujeito já possui e apenas precisa administrar; ela "livra o herdeiro para sempre" porque não depende de nenhum bem externo. Essa é a tese central da tradição estoica e ascética que Schopenhauer recupera: a felicidade é o cultivo do domínio sobre a própria vida interior.

C) fugacidade do conhecimento empírico.

Incorreta: confunde os objetos. O que é fugaz no texto é a satisfação dos desejos, não o conhecimento. Não há no aforismo qualquer discussão epistemológica sobre os limites, a validade ou a durabilidade do conhecimento sensível — o problema é ético, não teórico.

D) liberdade de expressão religiosa.

Incorreta: aproveita indevidamente a palavra "livra" ("livra o herdeiro") para sugerir um contexto religioso que não existe. Não há menção a culto, fé, crença ou instituição religiosa. A liberdade de que o texto fala é a libertação em relação ao desejo, e não um direito civil.

E) busca de prazeres efêmeros.

Incorreta: é a inversão exata da tese. A busca de prazeres passageiros é justamente a "esmola" — aquilo que Schopenhauer desqualifica por prolongar a fome em vez de saciá-la. Marcar E é atribuir ao filósofo o contrário do que ele defende.

🏆 Gabarito: B — Schopenhauer recupera a ideia, de raiz estoica, de que a felicidade não vem de bens e desejos externos (sempre renováveis e insaciáveis), mas do cultivo e da administração da autonomia interior — a única fonte de tranquilidade permanente.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra B traduz a metáfora da "fortuna herdada" em conceito. A herança é o que já é seu e não pode ser tirado — exatamente a definição de independência interior.
  • Padrão de cobrança: o ENEM adora apresentar um fragmento filosófico denso e pedir a qual tradição ou ideia ele se filia. Não exige que você saiba a biografia do autor: exige que você reformule o texto em linguagem conceitual.
  • Generalização: em questões de ética e felicidade, a resposta correta é quase sempre uma paráfrase fiel da tese do fragmento. Alternativas que introduzem temas ausentes (religião, política, afeto, ciência) são distratores.
  • Dica de eliminação rápida: primeiro corte tudo que cita assunto não mencionado no texto — aqui A, C e D caem em segundos. Depois desconfie da alternativa que repete uma palavra do texto com o sentido invertido: E usa "efêmeros" ecoando a fugacidade da esmola, mas descreve o que o autor rejeita. Sobra B.
  • Conexões: compare com Epicteto e Sêneca (a dicotomia do controle: "o que depende de nós"), com a ataraxia epicurista e com a crítica de Schopenhauer ao otimismo iluminista — todos temas recorrentes em Filosofia no ENEM.

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