Mapa de questões · 1º dia
Questão 37 — ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia
Vi os homens sumirem-se numa grande tristeza. Os melhores cansaram-se das suas obras. Proclamou-se
uma doutrina e com ela circulou uma crença: Tudo é oco, tudo é igual, tudo passou! O nosso trabalho foi
inútil; o nosso vinho tornou-se veneno; o mau olhado amareleceu-nos os campos e os corações. Secamos
de todo, e se caísse fogo em cima de nós, as nossas cinzas voariam em pó. Sim; cansamos o próprio fogo.
Todas as fontes secaram para nós, e o mar retirou-se. Todos os solos se querem abrir, mas os abismos não
nos querem tragar!
NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Ediouro, 1977.
O texto exprime uma construção alegórica, que traduz um entendimento da doutrina niilista, uma vez que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Niilismo nietzschiano, com apoio de Interpretação de Texto (linguagem alegórica)
- ⚡ Nível: Médio — exige traduzir imagens poéticas (seca, fogo cansado, mar que se retira) para o conceito filosófico abstrato de niilismo, sem que o texto nomeie explicitamente "decadência" ou "cultura"
- 🎯 Tema/Habilidade: Niilismo em Nietzsche / competência de relacionar manifestações literárias a correntes de pensamento filosófico
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que ideia sobre o niilismo essa alegoria de Nietzsche constrói e reforça?"
- Palavras-chave decisivas: alegórica, niilista, destaca
- Armadilha típica: prender-se a palavras isoladas do texto — "trabalho", "liberdade implícita no tom de lamento", "angústia" — e escolher a alternativa que ecoa esse termo solto, em vez de captar o sentido geral da imagem construída
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de sintetizar todas as imagens do trecho (secura, fogo exaurido, mar que recua, vinho que virou veneno) em um único conceito filosófico coerente com o niilismo
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Niilismo (Nietzsche): diagnóstico filosófico do esgotamento dos valores supremos da tradição ocidental — verdade, Deus, moral —, que perdem fundamento e passam a parecer vazios ("ocos") diante da vida
- Assim Falou Zaratustra: obra na qual Nietzsche anuncia a "morte de Deus" e a crise dos antigos valores, convocando a humanidade a criar novos sentidos após o colapso dos antigos
- Alegoria: recurso literário que narra uma cena concreta (fontes secas, campos amarelados, fogo cansado) para representar, de forma figurada, uma ideia abstrata — aqui, o esvaziamento da vida cultural
- Decadência cultural: processo histórico em que os valores, as crenças e as produções simbólicas de uma civilização perdem força vital e deixam de orientar a existência coletiva
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Tudo é oco, tudo é igual, tudo passou!" → anula qualquer hierarquia de valores: nada mais se distingue como superior ou inferior, sinal do esvaziamento niilista
- Evidência 2: "O nosso trabalho foi inútil; o nosso vinho tornou-se veneno" → símbolos da produção humana (o trabalho, a bebida festiva) que deveriam gerar sentido e vida se converteram em algo estéril ou nocivo
- Evidência 3: "Todas as fontes secaram para nós, e o mar retirou-se" / "Sim; cansamos o próprio fogo" → esgotamento total das forças vitais e criativas, ao ponto de nem a natureza (água, fogo) sustentar mais a existência
- Síntese: a alegoria acumula imagens de ressecamento, esterilidade e recuo — todas convergindo para um único diagnóstico: os valores e as criações que sustentavam a cultura perderam sua vitalidade, configurando um quadro de decadência cultural generalizada
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer o recurso literário e sua função
O trecho de "Assim Falou Zaratustra" não descreve um evento histórico específico, mas constrói uma alegoria: usa a paisagem natural (fontes secas, solos rachados, mar que se retira, fogo exausto) como figura de algo abstrato. Esse recurso obriga o leitor a "traduzir" cada imagem concreta para um sentido conceitual, e é justamente essa tradução que a questão cobra.
Subpasso 4.2 — Conectar a alegoria ao conceito de niilismo
No pensamento de Nietzsche, o niilismo é o momento em que os valores mais altos de uma cultura — a verdade absoluta, Deus, a moral tradicional — perdem seu fundamento e se revelam vazios. Quando isso acontece, "tudo é oco, tudo é igual, tudo passou": não há mais critério que distinga o que vale do que não vale. O texto amplia essa ideia mostrando que não apenas as crenças abstratas se esvaziaram, mas também as produções concretas da vida humana — o trabalho, o vinho, a fertilidade da terra —, numa imagem ampla de esgotamento cultural, e não apenas de crise de fé ou de moral isolada.
Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação de foco
Ao reler as alternativas, deve-se buscar aquela que trata do enfraquecimento amplo dos valores e das produções culturais — não uma alternativa que fale de liberdade individual, de revelação de valores cotidianos, de crítica econômica ou apenas de uma emoção isolada. Apenas a opção que nomeia a decadência da cultura como um todo cobre a totalidade das imagens (seca, fogo cansado, mar que recua, trabalho inútil) usadas no texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) reforça a liberdade do cidadão.
❌ Incorreta: o texto não trata de autonomia política ou individual; ao contrário, descreve um estado de impotência coletiva — "os abismos não nos querem tragar" mostra que nem a possibilidade de desaparecer resta ao sujeito, o oposto de um discurso de liberdade.
B) desvela os valores do cotidiano.
❌ Incorreta: "desvelar" sugeriria trazer à luz e afirmar valores que orientam a vida diária. O texto faz o movimento contrário: mostra o desaparecimento e o esvaziamento desses valores (trabalho inútil, vinho que virou veneno), não sua revelação positiva.
C) exorta as relações de produção.
❌ Incorreta: embora "trabalho" e "vinho" apareçam, não há uma crítica ou um chamado direcionado às relações econômicas de produção (categoria própria do materialismo histórico). Esses termos funcionam como símbolos poéticos de vitalidade perdida, não como análise de estrutura produtiva.
D) destaca a decadência da cultura.
✅ Correta: a alegoria — fontes secas, fogo exaurido, mar que se retira, trabalho e vinho que se tornam estéreis — representa, em conjunto, o esgotamento generalizado dos valores e das criações humanas. Esse é exatamente o diagnóstico niilista de Nietzsche: a decadência dos fundamentos culturais que antes davam sentido à existência.
E) amplifica o sentimento de ansiedade.
❌ Incorreta: o tom do trecho é de fato angustiado, mas essa angústia é consequência emocional do esvaziamento retratado, não o núcleo conceitual da doutrina niilista que a questão pede para identificar. Reduzir a alegoria a "ansiedade" ignora seu conteúdo filosófico específico sobre a crise dos valores.
🏆 Gabarito: D — a alegoria de Nietzsche articula imagens de esterilidade e esgotamento para representar a decadência da cultura, isto é, o colapso dos valores que sustentavam a vida humana, núcleo do diagnóstico niilista.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que sintetiza todas as imagens do texto (seca, fogo cansado, mar que recua, trabalho e vinho estéreis) em um único conceito coerente com o niilismo: a decadência dos valores culturais.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer trechos literários ou filosóficos (Nietzsche, existencialistas, autores da crise da modernidade) pedindo que o candidato relacione a linguagem figurada a um conceito filosófico ou histórico mais amplo.
- Generalização: em questões que cruzam texto literário e filosofia, a alternativa correta é sempre a que dá conta de TODAS as imagens do trecho, não apenas de um detalhe isolado (como um único substantivo repetido).
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que introduzem categorias de outras correntes de pensamento não sugeridas pelo texto (liberdade individual, relações de produção econômica) — elas soam plausíveis, mas pertencem a outros referenciais teóricos, não ao niilismo nietzschiano.
- Conexões: aprofunde com os conceitos de "morte de Deus" e "vontade de potência", também de Nietzsche, e compare com outras correntes de crise de valores, como o existencialismo de Sartre e Camus.
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