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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 40ENEM 2016Caderno azul · 1º Dia

A mundialização introduz o aumento da produtividade do trabalho sem acumulação de capital, justamente
pelo caráter divisível da forma técnica molecular-digital do que resulta a permanência da má distribuição da
renda: exemplicando mais uma vez, os vendedores de refrigerantes às portas dos estádios viram sua
produtividade aumentada graças ao just in time dos fabricantes e distribuidores de bebidas, mas para realizar
o valor de tais mercadorias, a forma do trabalho dos vendedores é a mais primitiva. Combinam-se, pois,
acumulação molecular-digital com o puro uso da força de trabalho.

OLIVEIRA, F. Crítica à razão dualista e o ornitorrinco. Campinas: Boitempo, 2003.

Os aspectos destacados no texto afetam diretamente questões como emprego e renda, sendo possível explicar essas transformações pelo(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Sociologia do Trabalho e transformações do capitalismo contemporâneo
  • ⚡ Nível: Médio — a linguagem teórica densa do texto (Francisco de Oliveira) exige articular tecnologia, produtividade e estrutura de renda, não apenas reconhecer palavras soltas
  • 🎯 Tema/Habilidade: Mundialização do capital, revolução tecnológica e heterogeneidade da estrutura produtiva no mundo do trabalho (mercado de trabalho, emprego e renda)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual processo explica a convivência entre ganhos tecnológicos de produtividade e a permanência de formas de trabalho primitivas e mal remuneradas?"
  • Palavras-chave decisivas: produtividade, forma técnica molecular-digital, trabalho mais primitivo
  • Armadilha típica: fixar-se na expressão "just in time" e marcar a alternativa que menciona "toyotismo" e "regularização do trabalho formal" (B), sem perceber que o texto descreve exatamente o oposto — precarização, não formalização.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a tecnologia digital reorganiza a produção de modo desigual, criando uma estrutura produtiva heterogênea, em que setores hipertecnológicos convivem com trabalho manual e informal.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Mundialização do capital: fase do capitalismo em que produção, tecnologia e finanças se integram globalmente, permitindo ganhos de produtividade que não exigem necessariamente grande investimento em capital fixo (acumulação clássica).
  • Forma técnica molecular-digital: tecnologia da informação e logística (softwares, redes, just in time) que se difunde de modo fragmentado — "divisível" — ao longo da cadeia produtiva, elevando a produtividade em elos específicos, como a distribuição, sem beneficiar igualmente todos os trabalhadores envolvidos.
  • Heterogeneidade estrutural (o "ornitorrinco" de F. de Oliveira): convivência, dentro da mesma cadeia econômica, entre setores hipermodernos e informatizados e formas de trabalho arcaicas, manuais e precárias — é o argumento central da obra citada.
  • Distribuição de renda: os ganhos de produtividade tendem a se concentrar nas empresas que controlam a tecnologia (fabricantes e distribuidores), enquanto o trabalho vivo na ponta da cadeia (o vendedor ambulante) permanece com renda baixa e sem proteção formal.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "aumento da produtividade do trabalho sem acumulação de capital... pelo caráter divisível da forma técnica molecular-digital" → revela que a tecnologia digital é a causa direta do aumento de produtividade, mas distribuída de forma desigual ao longo da cadeia produtiva.
  • Evidência 2: "os vendedores de refrigerantes às portas dos estádios viram sua produtividade aumentada graças ao just in time... mas... a forma do trabalho dos vendedores é a mais primitiva" → mostra que o mesmo avanço tecnológico beneficia a logística (alta tecnologia) e, ao mesmo tempo, mantém o trabalho final extremamente manual e precário.
  • Evidência 3: "Combinam-se, pois, acumulação molecular-digital com o puro uso da força de trabalho" → é a síntese do autor: uma junção estrutural entre tecnologia de ponta e trabalho bruto, sem qualificação nem regulamentação.
  • Síntese: o texto descreve como a tecnologia reorganiza a estrutura produtiva, gerando simultaneamente modernização (na distribuição) e precarização (na venda direta) — essa dupla dinâmica é o que explica os problemas de emprego e renda no capitalismo contemporâneo.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno central do texto

Francisco de Oliveira descreve como a tecnologia digital (informática, redes, logística just in time) permite ganhos de produtividade "moleculares" — pequenos, divisíveis, aplicáveis em qualquer ponto da cadeia sem exigir grande investimento em capital fixo. Isso difere da industrialização clássica (fordista), que dependia de acumulação de capital em grandes plantas fabris para elevar a produtividade.

Subpasso 4.2 — Relacionar tecnologia à mudança na estrutura produtiva

O ganho de produtividade gerado pela tecnologia não se distribui igualmente entre os elos da cadeia: é apropriado pelas empresas que controlam a informação e a logística (fabricantes e distribuidores de bebidas), enquanto o trabalho na ponta (venda direta ao consumidor) continua sendo realizado da forma mais rudimentar possível — força de trabalho pura, sem qualificação e sem vínculo formal. Isso configura uma modificação real na estrutura produtiva: setores de altíssima produtividade tecnológica passam a conviver, dentro da mesma cadeia de valor, com setores de trabalho precário e informal.

Subpasso 4.3 — Verificação: conectar o raciocínio a emprego e renda

Esse mecanismo explica por que emprego e renda pioram (ou não melhoram) mesmo com o aumento da produtividade agregada: o valor gerado pela tecnologia não se converte em salários maiores para quem está na ponta da cadeia, perpetuando a má distribuição de renda mencionada no texto. Logo, a alternativa correta precisa reunir dois elementos — a causa tecnológica e o efeito estrutural sobre a produção — exatamente o par presente na alternativa C ("impacto da tecnologia e as modificações na estrutura produtiva").

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) crise bancária e o fortalecimento do capital industrial.

❌ Incorreta: o texto não menciona nenhuma crise bancária, e o processo descrito é de fragmentação da produção e crescimento da informalidade/terciarização — não de fortalecimento do capital industrial clássico.

B) inovação toyotista e a regularização do trabalho formal.

❌ Incorreta: embora o "just in time" remeta a práticas toyotistas, o texto mostra exatamente o oposto de "regularização do trabalho formal" — o trabalho do vendedor é descrito como "a mais primitiva" forma de trabalho, ou seja, informal e precário, não regulamentado.

C) impacto da tecnologia e as modificações na estrutura produtiva.

✅ Correta: reúne os dois elementos centrais do texto — a tecnologia molecular-digital como causa do aumento de produtividade, e a mudança na estrutura produtiva que passa a combinar acumulação tecnológica de ponta com trabalho primitivo, explicando a persistência da má distribuição de renda.

D) emergência da globalização e a expansão do setor secundário.

❌ Incorreta: a mundialização de fato está presente no texto, mas o exemplo dado (vendedores de refrigerante) pertence ao setor terciário (comércio/serviços), não ao secundário (indústria); não há qualquer menção a expansão industrial.

E) diminuição do tempo de trabalho e a necessidade de diploma superior.

❌ Incorreta: o texto não trata de jornada de trabalho nem de exigência de qualificação acadêmica — ao contrário, descreve um trabalho "primitivo", que dispensa qualquer qualificação formal.

🏆 Gabarito: C — é a única alternativa que une causa (impacto da tecnologia) e consequência estrutural (modificações na estrutura produtiva) tal como descrito no texto de Francisco de Oliveira.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que capta a relação de causa e efeito completa presente no texto: tecnologia digital → reestruturação heterogênea da produção → má distribuição de renda.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos sobre reestruturação produtiva, toyotismo/fordismo, terceirização, informalidade e mundo do trabalho contemporâneo dentro da Sociologia do Trabalho.
  • Generalização: em textos sobre economia e trabalho, procure sempre o par causa tecnológica/econômica + efeito social (emprego, renda, precarização) — a alternativa correta costuma nomear explicitamente os dois lados dessa relação.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que contradigam trechos literais do texto (aqui, B fala em "regularização" quando o texto diz "mais primitiva") e as que introduzem elementos não mencionados (crise bancária em A, diploma superior em E).
  • Conexões: compare esse raciocínio com temas como "uberização do trabalho", "economia informal" e "quarta revolução industrial" — fenômenos análogos em que o avanço tecnológico gera ganhos de produtividade sem melhorar as condições de trabalho na ponta da cadeia.

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