Mapa de questões · 2º dia
Questão 124 — ENEM 2013Caderno azul · 2º Dia
Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. [...] Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos — sou eu que escrevo o que estou escrevendo. [...] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual — há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo — como a morte parece dizer sobre a vida — porque preciso registrar os fatos antecedentes.
LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (fragmento).
A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Clarice Lispector
- ⚡ Nível: Fácil — o narrador pensa enquanto escreve.
- 🎯 Tema/Habilidade: O narrador de A hora da estrela.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após a resolução completa
🔎 Passo 1 — O que a questão pede
- Comando: como o narrador se revela.
- Estrutura da questão: o trecho alterna especulação sobre a origem do universo e dúvidas sobre como começar a escrever.
- Armadilha antecipada: reduzir o trecho à dificuldade de escolher palavras. A reflexão vai além da forma: é sobre existir e sobre narrar.
📚 Passo 2 — O conceito em jogo
O trecho reúne dois planos: perguntas existenciais — o começo do mundo, o nunca, o sim — e perguntas sobre o próprio ato de escrever.
A frase enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever liga os dois planos: escrever é o modo de sustentar a indagação.
O narrador que expõe as condições do próprio discurso caracteriza a narrativa metaficcional.
🧮 Passo 4 — O caminho até a resposta
Separe os dois planos do trecho: o existencial e o do fazer narrativo.
Observe que eles se articulam na frase sobre continuar escrevendo enquanto houver perguntas.
O narrador se revela como sujeito que reflete sobre questões existenciais e sobre a construção do discurso — alternativa C.
🔍 Passo 5 — Análise das Alternativas
- A) ✗ Incorreta. O narrador não é distante nem indiferente: está profundamente implicado no que narra.
- B) ✗ Incorreta. O trecho é todo feito de investigação: das origens e do próprio narrar.
- C) ✓ Correta. O trecho reúne a indagação sobre o começo de tudo e a indagação sobre como começar a narrar.
- D) ✗ Incorreta. A dificuldade não é escolher palavras exatas, e sim encontrar o ponto de partida do que é sem começo.
- E) ✗ Incorreta. A alternativa reduz o trecho ao plano filosófico e desconsidera a reflexão sobre a construção do discurso.
🏁 Passo 6 — O que levar dessa questão
Narrador que discute como narrar é metaficção. Some isso ao plano existencial e a resposta se fecha.
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