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HumanasHistóriaMédio

Questão 43ENEM 2016 Reaplicação

BROÇOS, R. A redenção de Cam, 1895.

Disponível em: http://mnba.gov.br. Acesso em: 13 jan. 2013.

Na imagem, o autor procura representar as diferentes gerações de uma família associada a uma noção consagrada pelas elites intelectuais da época, que era a de

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil República (Primeira República) e ideologias raciais; Artes → leitura de imagem/pintura acadêmica
  • ⚡ Nível: Médio — exige cruzar a leitura iconográfica (quem está em cada geração, quem segura quem) com o conhecimento histórico específico sobre as teorias raciais do final do século XIX e início do XX no Brasil
  • 🎯 Tema/Habilidade: Ideologia do embranquecimento (branqueamento) na Primeira República — competência de leitura de fontes iconográficas para identificar processos e projetos políticos, sociais e culturais de organização do espaço e da sociedade
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que ideia das elites intelectuais da época a pintura, ao retratar três gerações de uma mesma família, procura representar?"
  • Palavras-chave decisivas: diferentes gerações, família, noção consagrada pelas elites intelectuais
  • Armadilha típica: confundir o tema da obra com "harmonia racial" ou "democracia racial" (alternativa A), porque a cena parece pacífica e afetuosa — mas o conteúdo ideológico da pintura é outro, ligado à eugenia da época, não a uma celebração de igualdade entre raças
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de associar a composição visual (progressão de tons de pele entre avó, mãe, neto) a um conceito histórico-científico específico do período: a teoria do embranquecimento, então aceita por parte da intelectualidade brasileira

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Racismo científico e eugenia (fim do séc. XIX/início do XX): correntes de pensamento europeias, incorporadas por intelectuais brasileiros, que hierarquizavam "raças" e viam a miscigenação como um problema a ser resolvido pelo "aclareamento" progressivo da população.
  • Teoria do embranquecimento (branqueamento): vertente brasileira dessas ideias, segundo a qual o cruzamento entre negros, indígenas e brancos europeus levaria, ao longo de gerações, a uma população cada vez mais "clara", já que o gene "branco" seria dominante — uma tentativa de conciliar o racismo científico com a realidade mestiça do país.
  • Política de imigração europeia pós-abolição (1888): o Estado brasileiro incentivou fortemente a vinda de imigrantes europeus (italianos, portugueses, alemães) a partir do final do século XIX, entre outros motivos, para "clarear" demograficamente o país — pano de fundo histórico direto da cena pintada.
  • Mito da democracia racial: ideia, consolidada sobretudo a partir da obra de Gilberto Freyre nos anos 1930, de que o Brasil seria uma sociedade sem conflito racial relevante — conceito posterior e distinto do que está em jogo na pintura de 1895.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1 (imagem): a composição mostra três gerações em degradê de cor de pele — a avó, de pele negra, em pé, gesticulando com as mãos para o alto; a filha, mulata, sentada, segurando no colo um bebê de pele clara; e o marido/pai, um homem branco (europeu), sentado ao lado. → A disposição não é aleatória: o pintor organiza a cena para que o olhar do espectador percorra uma sequência cromática — do mais escuro (avó) ao mais claro (neto) — evidenciando visualmente o "embranquecimento" ao longo das gerações.
  • Evidência 2 (título e gesto da avó): o quadro se chama A Redenção de Cam, referência bíblica à maldição de Cam (filho de Noé), historicamente usada para justificar a escravidão de povos africanos; a avó ergue as mãos e os olhos, em gesto de agradecimento/alívio. → O título liga a cena a uma leitura religiosa de "redenção" da descendência negra por meio do casamento com um branco — a alegria da avó é lida, na chave ideológica da época, como o reconhecimento de que sua linhagem está sendo "salva" pelo embranquecimento.
  • Síntese: a pintura de Modesto Brocos não retrata só uma família feliz; ela materializa, em imagem, a crença científica e social da época de que a miscigenação com o branco europeu conduziria progressivamente ao apagamento dos traços negros na população brasileira — exatamente a ideologia do embranquecimento.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o contexto de produção da obra

A tela é de 1895, pintada por Modesto Brocos, artista espanhol radicado no Brasil, apenas sete anos após a abolição da escravatura (1888) e já sob a Primeira República (proclamada em 1889). Nesse período, parte da elite intelectual brasileira — influenciada pelo racismo científico europeu (darwinismo social, eugenia) — buscava explicar e "resolver" o que considerava um "problema": a grande população de origem africana e mestiça do país. A resposta encontrada por muitos desses pensadores não foi o combate ao racismo, mas sim a aposta na miscigenação seletiva com europeus como caminho para o "aperfeiçoamento" e "clareamento" da população em algumas gerações.

Subpasso 4.2 — Ler a composição como argumento visual

Observando a pintura: a avó negra está de pé, ao fundo/lateral, com o rosto voltado para cima e as mãos erguidas, expressão de gratidão; a filha, de pele mais clara (mestiça), está sentada, no centro da cena, segurando o neto — um bebê de pele visivelmente branca; o pai, europeu branco, está sentado tranquilamente ao lado, olhando para o filho. Essa disposição em "escada cromática" (avó escura → mãe mestiça → neto branco) é o núcleo do argumento visual da obra: cada geração, ao se unir a um parceiro mais claro, produz uma prole mais próxima do fenótipo europeu. É exatamente essa lógica — miscigenação dirigida como caminho para "clarear" a população — que corresponde ao conceito histórico de embranquecimento.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando imagem + título + contexto histórico (1895, pós-abolição, racismo científico em voga), a única alternativa que nomeia com precisão esse fenômeno é a que fala em "embranquecimento da população". As demais alternativas descrevem fenômenos históricos reais do período republicano, mas nenhum deles é o que a cena das três gerações está, de fato, ilustrando.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) defesa da democracia racial.

❌ Incorreta: a "democracia racial" é um conceito posterior, associado sobretudo a Gilberto Freyre e à obra Casa-Grande & Senzala (1933), que defende a ideia de convivência harmônica entre as raças no Brasil. A pintura de 1895 é anterior a esse debate e não celebra a igualdade entre negros e brancos — ao contrário, hierarquiza os tipos raciais ao valorizar visualmente a criança de pele mais clara como o "resultado positivo" da família.

B) idealização do universo rural.

❌ Incorreta: embora o cenário tenha elementos rústicos (roupas no varal, chão de terra, parede de taipa), o foco temático da obra não é uma exaltação da vida no campo em si — não há elementos que glorifiquem o trabalho agrícola, a paisagem ou a simplicidade rural como valor central. O ambiente é apenas o pano de fundo social; o verdadeiro objeto da composição são os corpos e as cores de pele das personagens.

C) crise dos valores republicanos.

❌ Incorreta: não há, na cena, nenhum elemento que remeta a instabilidade política, disputas entre grupos republicanos ou questionamento das instituições da recém-proclamada República. A pintura trata de relações familiares e raciais, não de conflitos institucionais ou políticos do regime.

D) constatação do atraso sertanejo.

❌ Incorreta: essa alternativa tenta associar o cenário humilde (casa simples, chão de terra) a uma crítica ao "atraso" do interior do país — tema caro a outros debates da época (como os retratados por Euclides da Cunha). Mas a obra de Brocos não constrói um discurso sobre modernização versus atraso regional; seu argumento é racial e genealógico, centrado no contraste de cor entre avó, mãe e neto.

E) embranquecimento da população.

✅ Correta: a composição em degradê de tons de pele — avó negra, filha mestiça, neto branco, ao lado do pai europeu — é a representação pictórica direta da teoria do embranquecimento, ideologia científica e social aceita por parcela das elites intelectuais brasileiras do final do século XIX, que via na miscigenação dirigida com brancos europeus o caminho para o desaparecimento gradual dos traços negros na população, num contexto de forte incentivo estatal à imigração europeia pós-abolição.

🏆 Gabarito: E — a pintura de Modesto Brocos organiza deliberadamente três gerações em ordem crescente de "clareamento" da pele para materializar, em imagem, a crença das elites intelectuais de 1895 de que a miscigenação com europeus levaria ao embranquecimento progressivo da população brasileira.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa E nomeia o fenômeno histórico que a imagem constrói visualmente — a progressão de tons de pele entre as gerações como argumento a favor do embranquecimento racial, ideia científica (hoje reconhecida como racista e sem base biológica) muito difundida entre intelectuais brasileiros da época.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a A Redenção de Cam e a outras fontes iconográficas do final do século XIX/início do XX para testar se o aluno reconhece o racismo científico, a eugenia e a política de imigração europeia como parte do projeto de nação da Primeira República — sempre exigindo que a imagem seja lida em conjunto com seu contexto histórico, não isoladamente.
  • Generalização: em questões de leitura de imagem, nunca responda apenas pelo "clima emocional" da cena (aqui, aparente harmonia familiar); busque sempre o dado estrutural da composição (quem está mais claro, quem está mais escuro, quem ocupa o centro) e cruze com a data e o contexto de produção da obra.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que citem conceitos de outros períodos (democracia racial é dos anos 1930, não de 1895) e alternativas que descrevem apenas o cenário físico (rural, atraso sertanejo) sem tocar no verdadeiro eixo temático da obra, que é racial/genealógico.
  • Conexões: compare com o tema da imigração europeia subsidiada na Primeira República e com o conceito de racismo científico/eugenia — frequentemente cobrados juntos em questões sobre a construção da identidade nacional brasileira pós-abolição.

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