Mapa de questões · 1º dia
Questão 28 — ENEM 2016 Reaplicação
Aquarela do Brasil
Brasil!
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Pra mim! Pra mim, pra mim!
Ah! Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do Cerrado
Bota o rei congo do congado
Brasil! Pra mim!
Deixa cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver a sá dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil! Pra mim, pra mim, pra mim!
Muito usual no Estado Novo de Vargas, a composição de Ary Barroso é um exemplo típico de
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: História → Era Vargas → Estado Novo e política cultural
- Habilidade: H5 — identificar manifestações e representações da diversidade do patrimônio cultural e artístico em diferentes contextos históricos
- Nível: Médio — reconhecer a canção é fácil, mas nomear o subgênero exige lembrar do vocabulário específico da música popular do período
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: de que tipo de composição "Aquarela do Brasil" é exemplo, no contexto do Estado Novo.
- Palavras-chave decisivas: muito usual no Estado Novo de Vargas, exemplo típico de.
- A armadilha: confundir música alinhada ao regime com propaganda oficial de campanha. O Estado Novo não tinha eleição, e a canção não pede voto nem cita Vargas. Ela constrói uma imagem gloriosa do país, e é isso que o regime aproveitava.
- O que a resposta precisa mostrar: que você associa o tom da letra — elogioso, ufanista, sem crítica — a um subgênero nomeado do samba, e que conhece o contexto político em que ele se firmou.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Estado Novo (1937–1945): ditadura instaurada por Getúlio Vargas, com Congresso fechado, partidos extintos e censura prévia. Sem eleições e sem imprensa livre, a construção da imagem do governo passou a depender do rádio, do cinema e da música.
- DIP: Departamento de Imprensa e Propaganda, criado em 1939. Censurava o que desagradava ao regime e estimulava o que servia a ele. Uma das diretrizes era desestimular o samba da malandragem e do ócio e premiar o samba que exaltasse o trabalho e as riquezas do país.
- Samba exaltação: subgênero que descreve o Brasil em tom grandioso, com orquestração ampla, listagem de belezas naturais e do tipo humano nacional, e nenhuma crítica social. "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso (1939), é o marco fundador. Não é encomenda do governo, mas foi o formato que o governo mais aproveitou.
- Samba malandro: o subgênero oposto, que celebra a esperteza e a recusa ao trabalho regular. Era o alvo declarado da política cultural do período, e sua perseguição é o outro lado da valorização do samba exaltação.
- Ufanismo: exaltação acrítica das qualidades do país. O termo vem de "Por que me ufano do meu país", de Afonso Celso, e descreve com precisão o procedimento da letra.
- Marchinha: gênero carnavalesco de andamento rápido e letra curta, frequentemente satírica. É estruturalmente diferente do samba de orquestra grandioso, e a distinção resolve duas alternativas.
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1: "Meu Brasil brasileiro (…) Vou cantar-te nos meus versos" → o país é o destinatário do elogio, tratado na segunda pessoa como se fosse pessoa amada. Declaração de amor à pátria, não comentário sobre ela.
- Evidência 2: "O Brasil, samba que dá / Bamboleio que faz gingar" → identifica o país com o próprio samba. A música nacional deixa de ser coisa de morro e passa a ser símbolo do Brasil inteiro, movimento típico do período.
- Evidência 3: "Ah! Abre a cortina do passado / Tira a mãe preta do Cerrado / Bota o rei congo do congado" → a herança africana é evocada, mas como memória pitoresca e harmoniosa, sem qualquer menção à escravidão que a produziu. Passado sem conflito.
- Evidência 4: "Terra de Nosso Senhor" e "Quero ver a sá dona caminhando / Pelos salões arrastando / O seu vestido rendado" → a casa-grande também entra como imagem agradável. Não há uma linha de crítica, de pobreza, de desigualdade ou de humor em toda a letra.
- Síntese: a canção lista belezas, mistura raças e classes num quadro pacificado e exalta o país do começo ao fim. Nenhum verso ironiza, protesta ou pede algo ao ouvinte.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Classificar o tom da letra
Três perguntas resolvem a classificação:
- Há crítica ou ironia? Não. Todos os elementos citados aparecem como motivo de orgulho.
- Há pedido de ação, voto ou adesão a alguém? Não. Nenhuma pessoa, partido ou governo é mencionado.
- Há elogio ao país como um todo? Sim, do primeiro ao último verso.
Elogio sem crítica e sem pedido é exaltação.
4.2 — Ligar o tom ao contexto do Estado Novo
O comando informa que a composição era "muito usual" no período. Faz sentido: com o DIP orientando a produção cultural, o samba que descrevia um Brasil belo, mestiço e harmonioso encontrou espaço garantido no rádio, enquanto o samba que celebrava a malandragem era barrado. "Aquarela do Brasil" não foi feita a pedido do governo, mas serviu perfeitamente à imagem que ele queria projetar — e é por isso que virou o exemplo canônico do subgênero.
4.3 — Nomear o subgênero
O nome consagrado para o samba de tom grandioso, orquestração ampla e letra ufanista é samba exaltação, e "Aquarela do Brasil" é considerada sua obra inaugural.
4.4 — Verificação
A alternativa correta precisa ser um subgênero do samba, ter tom elogioso e corresponder ao que o Estado Novo estimulava. Só uma cumpre as três condições. Gabarito: B.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
❌ (A) música de sátira — Sátira exige alvo e ironia, e a letra não tem nem um nem outro. Cada imagem convocada — a mãe preta, o rei congo, a sá dona de vestido rendado — entra como motivo de encanto. Além disso, a sátira era exatamente o que a censura do DIP suprimia; uma canção satírica não teria a difusão que o enunciado atribui à composição.
✅ (B) samba exaltação — Nome do subgênero que "Aquarela do Brasil" inaugurou, em 1939, já sob o Estado Novo. Reúne todos os traços presentes na letra: exaltação do país tratado como pessoa amada, "Meu Brasil brasileiro"; listagem de belezas e tipos nacionais; passado harmonizado, sem menção ao conflito; e orquestração grandiosa. Era o formato que a política cultural do regime estimulava, em oposição ao samba da malandragem.
❌ (C) hino revolucionário — Hino revolucionário convoca à luta e propõe ruptura com a ordem vigente. A canção faz o oposto: celebra o país como ele é, num quadro pacificado, e não convoca ninguém a nada. Vargas já estava no poder havia quase uma década quando a música foi composta — não havia revolução a ser cantada, e sim um regime a ser embelezado.
❌ (D) propaganda eleitoral — É o distrator mais forte, porque a canção de fato serviu à propaganda do regime. Mas propaganda eleitoral pressupõe eleição, e o Estado Novo suspendeu as eleições em 1937. Some-se a isso o fato de que a letra não cita Vargas, nenhum candidato e nenhum partido: ela exalta o Brasil, não um governante. Propaganda ideológica difusa não é propaganda eleitoral.
❌ (E) marchinha de protesto — Erra o gênero e o conteúdo de uma vez. Marchinha é a composição carnavalesca de andamento rápido e estrofes curtas, enquanto "Aquarela do Brasil" é samba de orquestra, de andamento amplo. E não há protesto algum: nenhum verso aponta problema, injustiça ou reivindicação.
Gabarito: B — a letra exalta o Brasil do começo ao fim, sem crítica e sem pedido, que é a definição do samba exaltação difundido durante o Estado Novo.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só B se sustenta: A e E exigem crítica, que a letra não tem; C exige convocação à luta, que também não existe; D exige eleição, que o regime havia suprimido. B é a única compatível com um texto exclusivamente elogioso.
- Como o ENEM cobra isso: música popular é a porta de entrada preferida da prova para a Era Vargas. Aparecem "Aquarela do Brasil" e "O bonde de São Januário" para o samba exaltação e para a valorização do trabalho, e sambas de malandro para o que era censurado.
- A regra geral: em canção do Estado Novo, procure se há crítica. Se não há, e o país aparece como maravilha, é samba exaltação. Se o trabalho aparece como virtude e a malandragem como erro, é o mesmo projeto cultural em outra roupa.
- Eliminação em 30 segundos: três alternativas — sátira, hino revolucionário e marchinha de protesto — pressupõem oposição ao poder. Uma ditadura com censura prévia não difundiria nenhuma delas. Restam duas, e a ausência de eleições resolve.
- Temas que costumam vir junto: o DIP e a censura, a Consolidação das Leis do Trabalho e a valorização do trabalhador, o mito da democracia racial em Gilberto Freyre e o rádio como veículo de massa nos anos 1930 e 1940.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.