Mapa de questões · 1º dia
Questão 22 — ENEM 2016 Reaplicação
Ninguém delibera sobre coisas que não podem ser de outro modo, nem sobre as que lhe é impossível fazer. Por conseguinte, como o conhecimento científico envolve demonstração, mas não há demonstração de coisas cujos primeiros princípios são variáveis (pois todas elas poderiam ser diferentemente), e como é impossível deliberar sobre coisas que são por necessidade, a sabedoria prática não pode ser ciência, nem arte: nem ciência, porque aquilo que se pode fazer é capaz de ser diferentemente, nem arte, porque o agir e o produzir são duas espécies diferentes de coisa. Resta, pois, a alternativa de ser ela uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir com respeito às coisas que são boas ou más para o homem.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
Aristóteles considera a ética como pertencente ao campo do saber prático. Nesse sentido, ela difere-se dos outros saberes porque é caracterizada como
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Ética Aristotélica (Ética a Nicômaco, saber prático)
- ⚡ Nível: Difícil — a tradução em linguagem arcaica e a estrutura silogística do texto (ciência × arte × sabedoria prática) exigem leitura muito atenta, sem que os termos técnicos gregos apareçam explicitamente.
- 🎯 Tema/Habilidade: Distinção aristotélica entre ciência (episteme), arte (téchne) e sabedoria prática (phronesis) como fundamento da ética; competência de leitura e interpretação de textos filosóficos clássicos.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo Aristóteles, o que caracteriza a ética como saber prático, distinguindo-a da ciência e da arte?"
- Palavras-chave decisivas: sabedoria prática, capacidade verdadeira e raciocinada de agir, coisas boas ou más para o homem
- Armadilha típica: confundir "sabedoria prática" com conhecimento teórico sobre temas relevantes (alternativa C), ignorando que o texto nega expressamente que a ética seja ciência ou arte.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a ética é uma capacidade racional de agir (não de conhecer teoricamente, nem de produzir), voltada a ações contingentes relacionadas ao bem e ao mal humanos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ciência (episteme): conhecimento demonstrativo sobre coisas necessárias, cujos primeiros princípios não podem ser diferentes do que são — não cabe ciência sobre o contingente.
- Arte/técnica (téchne): saber de produção (poiesis), voltado a fabricar um resultado externo à própria atividade, e não à ação (práxis) em si.
- Sabedoria prática (phronesis): virtude intelectual voltada à ação correta em situações contingentes, guiada pela razão e orientada ao bem e ao mal do homem — é o campo próprio da ética.
- Deliberação: só existe sobre o que pode ser de outro modo; é o eixo lógico que o texto usa para excluir a ciência do domínio ético.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Ninguém delibera sobre coisas que não podem ser de outro modo" → a deliberação — e a ética — trata do contingente, o que já a afasta da ciência.
- Evidência 2: "a sabedoria prática não pode ser ciência, nem arte [...] porque o agir e o produzir são duas espécies diferentes de coisa" → o texto exclui explicitamente as opções que associam a ética a padrões científicos (B) ou a uma técnica de produção (D).
- Evidência 3: "capacidade verdadeira e raciocinada de agir com respeito às coisas que são boas ou más para o homem" → definição positiva: capacidade racional voltada à ação, não à contemplação nem à fabricação.
- Síntese: o texto elimina ciência e arte para concluir, por definição direta, que a ética é uma capacidade racional de agir/escolher — aponta para a alternativa que fala em "capacidade racional de escolha".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconstituindo a estrutura silogística do argumento
O parágrafo segue uma lógica de exclusão progressiva: (1) só deliberamos sobre o que pode ser diferente (contingente), nunca sobre o necessário; (2) a ciência envolve demonstração de princípios invariáveis — logo trata do necessário; (3) como a sabedoria prática lida com o que "poderia ser diferentemente", ela não pode ser ciência; (4) agir (práxis) e produzir (poiesis) são espécies diferentes de atividade, e a arte pertence à produção; (5) como a sabedoria prática pertence ao agir, ela não pode ser arte. Resta, então, que ela é "uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir com respeito às coisas boas ou más para o homem".
Subpasso 4.2 — Traduzindo para os conceitos centrais de Ética a Nicômaco
Embora o texto não use os termos gregos, ele descreve a tríade das virtudes intelectuais do Livro VI da obra: episteme (ciência do necessário), téchne (arte/produção) e phronesis (sabedoria prática). A ética se identifica com a phronesis: disposição racional e verdadeira de agir bem diante de situações contingentes da vida humana. O núcleo é a razão aplicada à escolha e à ação — não à contemplação (ciência) nem à fabricação (arte).
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando a conclusão do texto — "capacidade verdadeira e raciocinada de agir" — com as alternativas, só uma reproduz essa ideia sem introduzir o que o texto nega (ciência, técnica) ou o que ele nem menciona (política): "conduta definida pela capacidade racional de escolha". O raciocínio está confirmado.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) conduta definida pela capacidade racional de escolha.
✅ Correta: reproduz a definição aristotélica de sabedoria prática — "capacidade verdadeira [racional] e raciocinada de agir [conduta/escolha] com respeito às coisas boas ou más para o homem". É exatamente o que resta depois que o texto exclui ciência e arte.
B) capacidade de escolher de acordo com padrões científicos.
❌ Incorreta: contraria o texto, que afirma que "a sabedoria prática não pode ser ciência". A ciência trata do necessário e demonstrável; a ética trata do contingente. Atribuir "padrões científicos" à ética inverte a premissa central do argumento.
C) conhecimento das coisas importantes para a vida do homem.
❌ Incorreta: reduz a ética a um "conhecimento" teórico/contemplativo, quando o texto a define como uma "capacidade... de agir". Confunde o objeto da ética (o bem e o mal humanos) com sua natureza epistemológica, que é prática, não teorética.
D) técnica que tem como resultado a produção de boas ações.
❌ Incorreta: o texto exclui a arte/técnica, pois "o agir e o produzir são duas espécies diferentes de coisa". A técnica (téchne) visa a um produto externo (poiesis); a ética diz respeito ao agir em si (práxis), cujo valor está na própria ação.
E) política estabelecida de acordo com padrões democráticos de deliberação.
❌ Incorreta: o texto não menciona política nem processos democráticos. Trata da deliberação individual sobre o contingente e da natureza da sabedoria prática, sem referência a formas de organização coletiva.
🏆 Gabarito: A — a ética, para Aristóteles, não é ciência (não trata do necessário), nem arte (não é produção), mas uma capacidade racional e verdadeira de agir e escolher diante do que é bom ou mau para o homem.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que capta a definição aristotélica de sabedoria prática (phronesis) como capacidade racional de agir/escolher, sem reduzi-la a ciência, técnica ou política — coisas que o texto exclui ou nem menciona.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz trechos de Ética a Nicômaco sobre saber teórico x saber prático, meio-termo e virtudes éticas x intelectuais, exigindo leitura literal e reconstrução do argumento sem depender de vocabulário técnico grego.
- Generalização: em questões de filosofia com texto-fonte, a alternativa correta costuma parafrasear com fidelidade o núcleo conclusivo do argumento, enquanto as erradas introduzem termos que o texto nega ou elementos ausentes da passagem.
- Dica de eliminação rápida: releia a última frase do trecho — costuma conter a "resposta pronta" parafraseada em uma alternativa. Elimine de imediato o que reafirma o que o texto nega ("científico", "técnica") e o que é ausente do texto ("política", "democracia").
- Conexões: doutrina do meio-termo (mesótes) e virtudes éticas x dianoéticas em Aristóteles; comparação com a ética kantiana e o utilitarismo, temas recorrentes em filosofia moral no ENEM.
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