Mapa de questões · 1º dia
Questão 33 — ENEM 2016 Reaplicação
[...] O SERVIDOR — Diziam ser filho do rei...
ÉDIPO — Foi ela quem te entregou a criança?
O SERVIDOR — Foi ela, Senhor.
ÉDIPO — Com que intenção?
O SERVIDOR — Para que eu a matasse.
ÉDIPO — Uma mãe! Mulher desgraçada!
O SERVIDOR — Ela tinha medo de um oráculo dos deuses.
ÉDIPO — O que ele anunciava?
O SERVIDOR — Que essa criança um dia mataria seu pai.
ÉDIPO — Mas por que tu a entregaste a este homem?
O SERVIDOR — Tive piedade dela, mestre. Acreditei que ele a levaria ao país de onde vinha. Ele te salvou a vida, mas para os piores males! Se és realmente aquele de quem ele fala, saibas que nasceste marcado pela infelicidade.
ÉDIPO — Oh! Ai de mim! Então no final tudo seria verdade! Ah! Luz do dia, que eu te veja aqui pela última vez, já que hoje me revelo o filho de quem não devia nascer, o esposo de quem não devia ser, o assassino de quem não deveria matar!
SÓFOCLES. Édipo Rei. Porto Alegre: L&PM, 2011.
O trecho da obra de Sófocles, que expressa o núcleo da tragédia grega, revela o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → mito, tragédia grega e a relação entre destino (moîra) e liberdade humana
- ⚡ Nível: Médio — exige conectar um texto teatral clássico a um conceito filosófico abstrato (o destino inescapável), sem que a palavra "destino" apareça de forma explícita e óbvia no trecho
- 🎯 Tema/Habilidade: O sentido trágico na cultura grega antiga — competência de leitura e análise de textos filosóficos e literários clássicos (H6/C2 — compreender o desenvolvimento do pensamento filosófico ocidental)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual ideia central o trecho de Édipo Rei revela sobre a essência da tragédia grega?"
- Palavras-chave decisivas: núcleo da tragédia grega, oráculo, saibas que nasceste marcado pela infelicidade
- Armadilha típica: confundir o tema do parricídio/incesto com uma discussão moral ou jurídica (prisão, punição legal) em vez de reconhecer que o cerne é metafísico — a relação do homem com uma força superior que já determinou seu caminho
- O que a resposta precisa demonstrar: que o leitor entende a tragédia grega não como um drama sobre culpa individual, mas como a encenação do confronto entre a vontade humana e um destino já traçado pelos deuses, do qual não há escape possível
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Tragédia grega: gênero teatral do século V a.C. (Ésquilo, Sófocles, Eurípides) cujo eixo dramático é o conflito entre a ação humana e forças que a transcendem — os deuses, o oráculo, o destino (moîra/ananké).
- Oráculo e destino (moîra): na cosmovisão grega arcaica e clássica, o oráculo (como o de Delfos) não sugere o futuro — ele o anuncia como algo já fixado. O destino é uma potência superior até mesmo aos deuses, contra a qual nenhuma ação humana — fuga, precaução, virtude — tem eficácia.
- Hybris e ironia trágica: o herói trágico (Édipo) age livremente, tomando decisões racionais para evitar a profecia (foge de Corinto, investiga a verdade), mas cada escolha o empurra exatamente para o cumprimento dela. Essa é a "ironia trágica": o espectador sabe o que o herói ainda não sabe.
- Édipo Rei como paradigma: a peça de Sófocles é o exemplo canônico desse mecanismo — Laio e Jocasta tentam matar o filho recém-nascido para escapar da profecia de que ele mataria o pai e desposaria a mãe; a tentativa de evitar o destino é justamente o que o desencadeia.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Ela tinha medo de um oráculo dos deuses. [...] Que essa criança um dia mataria seu pai." → revela que a ação de Jocasta (entregar o filho para ser morto) nasce diretamente do anúncio oracular — a tentativa humana de neutralizar uma sentença divina.
- Evidência 2: "Ele te salvou a vida, mas para os piores males! [...] saibas que nasceste marcado pela infelicidade." → mostra que o próprio ato de salvamento, motivado por piedade, terminou por preservar e cumprir a profecia — nenhuma escolha, boa ou má, alterou o desfecho.
- Evidência 3: "Já que hoje me revelo o filho de quem não devia nascer, o esposo de quem não devia ser, o assassino de quem não deveria matar!" → é o clímax do reconhecimento (anagnórisis): Édipo confirma, em primeira pessoa, que cumpriu integralmente a profecia apesar de toda sua vida ter sido organizada para evitá-la.
- Síntese: as três evidências formam uma cadeia causal única — profecia → tentativa de fuga → cumprimento inevitável. O trecho não discute culpa moral, lei ou razão científica; ele dramatiza a impotência da vontade humana diante de um destino já selado pelos deuses.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o mecanismo dramático central
O diálogo mostra Édipo reconstruindo, peça por peça, a história de seu próprio nascimento: o oráculo previu que ele mataria o pai; Jocasta, para evitar isso, mandou matá-lo quando bebê; um servidor, por piedade, o salvou; mas justamente esse salvamento permitiu que a profecia se realizasse mais tarde. Ou seja: cada tentativa de frustrar o oráculo foi o elo que o tornou possível.
Subpasso 4.2 — Relacionar o mecanismo ao conceito filosófico de tragédia
Na filosofia e na crítica literária sobre a tragédia grega, esse mecanismo tem nome: a inexorabilidade do destino (moîra). Diferente do drama moderno, em que o indivíduo é o único responsável por seu destino, na tragédia grega o herói está inserido numa ordem cósmica que o ultrapassa. Édipo não é "culpado" no sentido moderno — ele é a ilustração de que a liberdade humana de agir (fugir, investigar, decidir) é real, mas incapaz de alterar o que os deuses já determinaram. É esse paradoxo — agir livremente e, ainda assim, cumprir o destino — que os gregos entendiam como o núcleo do trágico.
Subpasso 4.3 — Verificação
A fala final de Édipo confirma a leitura: ele enumera três papéis que "não deveria" ter assumido (filho, esposo, assassino), mas todos se concretizaram apesar da vontade contrária de todos os envolvidos (Jocasta, o servidor, o próprio Édipo). Isso corresponde exatamente à alternativa que trata da impossibilidade de o homem escapar de um destino predeterminado pelos deuses — validando o gabarito E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) condenação eterna dos homens pela prática injustificada do incesto.
❌ Incorreta: o trecho não trata o incesto como uma condenação moral "eterna" aplicável a todos os homens; ele mostra um caso específico causado por uma profecia que Édipo desconhecia ao cometer os atos. Não há juízo de condenação moral universal no texto — há a constatação de um destino cumprido à revelia da vontade do agente.
B) legalismo estatal ao punir com a prisão perpétua o crime de parricídio.
❌ Incorreta: não existe qualquer menção a lei, Estado, tribunal ou pena de prisão no trecho. A tragédia grega clássica não opera no registro jurídico-legal; ela opera no registro mítico-religioso, no qual a "punição" (a cegueira que Édipo se impõe depois, fora do trecho) é autoinfligida, não institucional.
C) busca pela explicação racional sobre os fatos até então desconhecidos.
❌ Incorreta: essa alternativa tenta associar o texto à razão/filosofia enquanto explicação lógico-causal dos fenômenos naturais (o que caracterizaria os pré-socráticos, não a tragédia). Embora Édipo investigue sua origem, o objetivo da cena não é produzir conhecimento racional sobre o mundo, mas revelar o cumprimento de uma força sobre-humana — o oráculo — que a razão não conseguiu evitar.
D) caráter antropomórfico dos deuses na medida em que imitavam os homens.
❌ Incorreta: o trecho não descreve os deuses agindo com traços humanos (emoções, disputas, ciúmes, como na epopeia homérica); os deuses aparecem apenas como fonte do oráculo, ou seja, como autoridade que determina o destino, não como personagens antropomorfizados na cena.
E) impossibilidade de o homem fugir do destino predeterminado pelos deuses.
✅ Correta: toda a estrutura do diálogo — profecia, tentativa de frustrá-la, salvamento acidental, cumprimento integral — demonstra que nenhuma ação humana, por mais bem-intencionada ou calculada, foi capaz de alterar o que o oráculo havia anunciado. Esse é precisamente o núcleo da tragédia grega: o homem livre que, paradoxalmente, não consegue escapar do que os deuses determinaram.
🏆 Gabarito: E — o trecho dramatiza, do início ao fim, a inutilidade de qualquer tentativa humana de evitar uma profecia divina, que é a definição clássica do sentido trágico grego.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa E capta o mecanismo estrutural do trecho — oráculo, tentativa de fuga e cumprimento inevitável —, que é a marca definidora da tragédia grega, e não um debate sobre lei, incesto moralizado, razão científica ou deuses antropomorfizados.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer trechos de tragédias gregas (Sófocles, Ésquilo) associados a questões sobre a visão de mundo mítica, contrapondo destino/moîra à autonomia da razão que surgiria depois com os filósofos (logos versus mythos).
- Generalização: sempre que um texto clássico grego apresentar um oráculo, uma profecia ou uma tentativa frustrada de evitar um evento anunciado pelos deuses, a chave de leitura é o conceito de destino inexorável — raramente a resposta certa envolve leis, instituições modernas ou explicações puramente racionais.
- Dica de eliminação rápida: descarte imediatamente alternativas que mencionem instituições modernas (prisão, Estado, legalismo — como a B) ou conceitos anacrônicos de ciência/racionalidade pura (como a C) em textos sobre mito grego; eles pertencem a outro momento do pensamento ocidental, não ao imaginário trágico.
- Conexões: compare com a transição mythos → logos no nascimento da filosofia pré-socrática, e com o conceito de hybris (orgulho desmedido) presente em outras tragédias, como Antígona, também de Sófocles.
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