Mapa de questões · 1º dia
Questão 39 — ENEM 2016 Reaplicação
Quando surgiram as primeiras notícias sobre a presença de seres estranhos, chegados em barcos grandes como montanhas, que montavam numa espécie de veados enormes, tinham cães grandes e ferozes e possuíam instrumentos lançadores de fogo, Montezuma e seus conselheiros ficaram pensando: de um lado, talvez Quetzalcóatl houvesse regressado, mas, de outro, não tinham essa confirmação.
PINSKY, J. et al. História da América através de textos. São Paulo: Contexto, 2007 (adaptado).
A dúvida apresentada inseria-se no contexto da chegada dos primeiros europeus à América, e sua origem estava relacionada ao
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Conquista Espanhola da América / Cosmovisão Asteca
- ⚡ Nível: Médio — exige cruzar a leitura literal do texto com o conhecimento sobre a mitologia asteca do deus Quetzalcóatl.
- 🎯 Tema/Habilidade: O encontro entre europeus e povos americanos: como a mentalidade indígena interpretou a chegada dos conquistadores a partir de seu próprio universo simbólico.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "De onde vinha, especificamente, a dúvida de Montezuma sobre a identidade dos recém-chegados?"
- Palavras-chave decisivas: Quetzalcóatl, houvesse regressado, dúvida
- Armadilha típica: confundir o CENÁRIO da conquista (navios, armas de fogo, cavalos, choque de poder militar) com a CAUSA específica da hesitação de Montezuma, que o texto localiza de forma explícita em outro lugar.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a origem da dúvida está na cosmovisão religiosa asteca — a possibilidade de os estrangeiros serem a manifestação do deus Quetzalcóatl —, e não em um cálculo político, militar, filosófico ou tecnológico.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Quetzalcóatl: divindade central da mitologia mesoamericana, a "serpente emplumada", associada à criação e à civilização. Segundo a lenda, teria sido expulso de suas terras e partido rumo ao oriente pelo mar, prometendo um dia retornar.
- Mentalidade mítico-religiosa: forma de compreender acontecimentos extraordinários própria das sociedades pré-colombianas, em que fenômenos inéditos eram interpretados à luz de narrativas sagradas e profecias, não por análise racional ou estratégica.
- Conquista do México (1519-1521): expedição liderada por Hernán Cortés que culminou na queda do Império Asteca. Fontes indígenas posteriores, como o Códice Florentino de Sahagún, narram a hesitação de Montezuma II diante de presságios que teriam antecedido a chegada dos espanhóis.
- Choque de cosmovisões: o contato colocou frente a frente dois sistemas de significado radicalmente distintos — o cristão-europeu e o politeísta-mesoamericano —, cada um tentando decifrar o outro com as próprias ferramentas culturais.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "chegados em barcos grandes como montanhas [...] tinham cães grandes e ferozes e possuíam instrumentos lançadores de fogo" → descreve o espanto asteca diante de elementos totalmente novos (navios, cavalos, cães de guerra, armas de fogo). É o CENÁRIO do encontro, mas ainda não a causa da dúvida — apenas o gatilho que dispara a necessidade de interpretação.
- Evidência 2: "Montezuma e seus conselheiros ficaram pensando de um lado talvez Quetzalcóatl houvesse regressado, mas, de outro, não tinham essa confirmação" → aqui está o núcleo da questão: a hipótese cogitada por Montezuma é explicitamente religiosa — ele avalia se os recém-chegados seriam a manifestação do deus Quetzalcóatl.
- Síntese: o texto não deixa margem para dúvida quanto à natureza da hesitação: ela nasce da tentativa de encaixar um evento sem precedentes dentro do repertório mítico-religioso asteca. A alternativa correta precisa nomear exatamente essa dimensão — religião e mito —, não o cenário tecnológico ou militar que a antecede.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito histórico e o problema narrado
O texto de Pinsky narra o momento inaugural do contato entre o Império Asteca e os conquistadores espanhóis, no início do século XVI. Montezuma II, o tlatoani (imperador) asteca, recebe notícias sobre "seres estranhos" que desembarcam com elementos desconhecidos pelos povos mesoamericanos: navios enormes, cavalos, cães de guerra e armas de fogo. Até aqui, o espanto poderia remeter a qualquer um dos eixos sugeridos pelas alternativas — poder, guerra, técnica. Mas o comando não pergunta sobre o espanto geral diante do desconhecido: pergunta especificamente pela origem da DÚVIDA de Montezuma.
Subpasso 4.2 — Localizar a dúvida específica e isolar sua causa
A dúvida relatada não é "esses homens têm força militar suficiente para nos vencer?" (guerra e poder) nem "que tecnologia é essa?" (ciência e técnica). A dúvida, literalmente, é: será que Quetzalcóatl retornou? Ao avistar homens desembarcando do mar, em circunstâncias que a tradição oral asteca associava ao retorno do deus-serpente, Montezuma recorre ao único sistema de referência disponível para interpretar o inexplicável: a mitologia e a religião de seu povo. Não há menção a deliberação militar, disputa de poder interno ou avaliação racional das evidências — apenas a hipótese de uma profecia religiosa em curso.
Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação e confirmação
Cruzando a evidência textual com o repertório histórico: a dúvida de Montezuma se origina do "domínio da religião e do mito" — a tentativa de interpretar um evento novo por meio das categorias sagradas da cultura asteca. Nenhuma outra alternativa nomeia esse mecanismo com precisão: descrevem o contexto da conquista (poder, guerra, técnica) ou um sistema de pensamento sequer mobilizado no texto (filosofia e razão, de tradição greco-ocidental). A única alternativa que corresponde ao raciocínio narrado é a letra A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) domínio da religião e do mito.
✅ Correta: a dúvida de Montezuma nasce diretamente da mitologia asteca — a crença no possível retorno do deus Quetzalcóatl. É a religião e o mito que fornecem a Montezuma o único referencial disponível para tentar explicar a chegada dos europeus, exatamente como o texto descreve ao mencionar a hipótese do regresso divino.
B) exercício do poder e da política.
❌ Incorreta: embora Montezuma fosse um governante às voltas com decisões sobre como agir diante dos estrangeiros, o texto não atribui a dúvida a um cálculo de poder — negociar, resistir, submeter-se —, mas à incerteza sobre a natureza sagrada dos visitantes. Poder e política dizem respeito a COMO reagir; o trecho fala sobre O QUE (ou quem) seriam os recém-chegados.
C) controle da guerra e da conquista.
❌ Incorreta: "guerra e conquista" descreve o desfecho histórico do processo — a subjugação militar do Império Asteca —, não a origem da dúvida relatada. O texto não menciona estratégia militar, comparação de armamentos ou plano de resistência; menciona uma hipótese religiosa sobre a identidade dos forasteiros.
D) nascimento da filosofia e da razão.
❌ Incorreta: remete à tradição racionalista de matriz greco-ocidental, incompatível com o raciocínio mítico-religioso descrito no texto. Montezuma não avalia evidências lógicas ou empíricas — recorre a uma crença herdada da tradição oral e sagrada asteca, o oposto do pensamento filosófico-racional.
E) desenvolvimento da ciência e da técnica.
❌ Incorreta: explora a descrição dos elementos tecnológicos do texto (armas de fogo, navios, cavalos), mas esses detalhes só caracterizam o espanto inicial diante do desconhecido, não a dúvida propriamente dita — que o texto vincula explicitamente à figura mítica de Quetzalcóatl, não à tecnologia europeia.
🏆 Gabarito: A — a dúvida de Montezuma tem origem religiosa e mítica: ele hesita entre acreditar ou não que os recém-chegados seriam a manifestação do deus Quetzalcóatl, cujo retorno era anunciado pela mitologia asteca.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a letra A nomeia com exatidão o mecanismo mobilizado por Montezuma — a leitura religiosa e mítica de um evento sem precedentes —, enquanto as demais descrevem elementos de contexto (tecnologia, poder, guerra) ou uma tradição de pensamento incompatível (filosofia racional) com o relato.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora o "encontro de mundos" na conquista da América, pedindo que o estudante identifique como europeus e povos americanos interpretaram um ao outro a partir de seus próprios sistemas culturais e religiosos, e não de uma suposta verdade objetiva única.
- Generalização: em textos historiográficos sobre choque cultural, a resposta certa costuma estar no verbo e no sujeito da ação central do trecho (aqui, "pensar" se determinado ser mitológico "houvesse regressado"), e não nos elementos de cenário que apenas contextualizam a cena.
- Dica de eliminação rápida: sempre que o texto mencionar uma divindade, profecia ou lenda como motivo de uma dúvida, elimine de imediato as alternativas sobre tecnologia/ciência e sobre filosofia/razão — polos opostos ao pensamento mítico-religioso.
- Conexões: compare com questões sobre os "presságios" astecas relatados em fontes como o Códice Florentino e com o sincretismo religioso na catequização indígena durante a colonização da América.
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