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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 2ENEM 2016 Reaplicação

A favela é vista como um lugar sem ordem, capaz de ameaçar os que nela não se incluem. Atribuir-lhe a ideia de perigo é o mesmo que reafirmar os valores e estruturas da sociedade que busca viver diferentemente do que se considera viver na favela. Alguns oficiantes do direito, ao defenderem ou acusarem réus moradores de favelas, usam em seus discursos representações previamente formuladas pela sociedade e incorporadas nesse campo profissional. Suas falas se fundamentam nas representações inventadas a respeito da favela e que acabam por marcar a identidade dos indivíduos que nela residem.

RINALDI, A. Marginais, delinquentes e vítimas: um estudo sobre a representação da categoria favelado no tribunal do júri da cidade do Rio de Janeiro. In: ZALUAR, A.; ALVITO, M. (Orgs.). Um século de favela. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.

O estigma apontado no texto tem como consequência o(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Estigma social, cidadania e sociologia jurídica
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular o conceito sociológico de estigma com a teoria da cidadania e perceber a consequência jurídica implícita no texto, sem confundir "preconceito" com "estatística de criminalidade"
  • 🎯 Tema/Habilidade: Estigmatização territorial e seus efeitos sobre o exercício da cidadania (competência de Ciências Humanas: reconhecer processos sociais que afetam o acesso a direitos)
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é a consequência do estigma da favela, descrito no texto, sobre a vida dos moradores no contexto jurídico?"
  • Palavras-chave decisivas: estigma, representações previamente formuladas, marcar a identidade
  • Armadilha típica: confundir a consequência do estigma (como o indivíduo é tratado pelo sistema de justiça) com uma suposta causa da criminalidade real, como se o texto afirmasse que a favela "produz" mais crimes ou mais impunidade — o texto trata de representação social, não de dados criminais.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o estigma, ao entrar no discurso de juízes, promotores e advogados, compromete o julgamento imparcial do morador de favela — o que fere diretamente um direito civil básico: o direito a ser julgado por fatos, e não por preconceitos.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estigma social (Erving Goffman): atributo depreciativo atribuído a um grupo, que faz a sociedade enxergar seus integrantes não pelo que fazem, mas por uma marca que os precede — no texto, "morar na favela" funciona como essa marca.
  • Direitos civis (T. H. Marshall): dimensão da cidadania que garante liberdade individual, igualdade perante a lei e, sobretudo, o direito a um julgamento justo e imparcial (devido processo legal, presunção de inocência).
  • Seletividade penal (criminologia crítica): teoria que mostra que o sistema de justiça não trata todos de forma neutra — aplica rótulos e punições de modo desigual conforme classe social, cor e território de moradia.
  • Tribunal do júri como palco do estigma: os "oficiantes do direito" (juízes, promotores, advogados) reproduzem em suas falas imagens sociais já prontas sobre a favela, que passam a integrar formalmente o processo judicial.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Atribuir-lhe a ideia de perigo é o mesmo que reafirmar os valores e estruturas da sociedade" → o estigma não é uma constatação neutra da realidade; é uma construção social que reforça hierarquias entre grupos.
  • Evidência 2: "oficiantes do direito [...] usam em seus discursos representações previamente formuladas pela sociedade" → o preconceito deixa de ser apenas senso comum e passa a operar dentro do sistema de justiça, influenciando acusação e defesa.
  • Evidência 3: "acabam por marcar a identidade dos indivíduos que nela residem" → o morador de favela é julgado a partir de uma identidade estigmatizada, não a partir de provas e fatos do caso.
  • Síntese: o estigma territorial se infiltra no processo penal e faz com que o morador de favela seja tratado de forma desigual perante a lei, comprometendo seu direito civil a um julgamento justo e imparcial.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o campo de análise do texto

O texto de Rinaldi não fala de política eleitoral, dados estatísticos de criminalidade ou políticas educacionais. Ele descreve um fenômeno específico: como o estigma da favela — a ideia de que ela é um "lugar sem ordem" e "perigoso" — aparece reproduzido no discurso de juízes, promotores e advogados durante julgamentos no tribunal do júri. O recorte é jurídico-processual: o estigma afeta a forma como o indivíduo é julgado.

Subpasso 4.2 — Conectar o estigma à teoria da cidadania

Pela formulação clássica de T. H. Marshall, a cidadania plena se apoia em três pilares: direitos civis, políticos e sociais. Os direitos civis garantem a igualdade perante a lei e o acesso a um julgamento imparcial, fundamentado em provas e não em preconceitos. Quando "representações previamente formuladas" sobre a favela entram no discurso de quem acusa ou defende, o morador deixa de ser julgado por seus atos e passa a ser julgado por uma identidade estigmatizada atribuída de antemão. Isso constitui um enfraquecimento dos direitos civis: a igualdade jurídica e o devido processo legal são corroídos pelo preconceito incorporado à prática profissional.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando o comando com as cinco alternativas, apenas a opção que trata da fragilização de um direito fundamental do cidadão — e não de estatística criminal, política ou políticas socioeducativas — capta o que o texto descreve: um julgamento contaminado por preconceito é um julgamento que já nasce desigual, ferindo os direitos civis do acusado.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) aumento da impunidade criminal.

❌ Incorreta: o texto não trata de impunidade — pelo contrário, o estigma tende a reforçar a suspeição e a condenação simbólica do morador de favela, não sua absolvição. Impunidade é um efeito estatístico do sistema penal, tema ausente do texto.

B) enfraquecimento dos direitos civis.

✅ Correta: o estigma, ao ser incorporado ao discurso de juízes, promotores e advogados, compromete o julgamento imparcial e a igualdade perante a lei — pilares dos direitos civis na teoria da cidadania. O morador de favela é julgado por uma identidade pré-formulada, não por fatos, o que fragiliza diretamente sua proteção jurídica.

C) distorção na representação política.

❌ Incorreta: representação política se refere à atuação de representantes eleitos (Legislativo, Executivo) e ao processo eleitoral. O texto trata do campo jurídico-penal (tribunal do júri), não do campo político-eleitoral.

D) crescimento dos índices de criminalidade.

❌ Incorreta: o texto não afirma nem sugere que o estigma provoque mais crimes reais na favela; ele descreve como o preconceito distorce a forma como os moradores são julgados, um fenômeno de representação social e não uma tendência estatística de criminalidade.

E) ineficiência das medidas socioeducativas.

❌ Incorreta: medidas socioeducativas dizem respeito à ressocialização de adolescentes infratores, tema completamente alheio ao recorte do texto, que fala de julgamento de réus adultos no tribunal do júri.

🏆 Gabarito: B — o estigma da favela, ao ser incorporado ao discurso de quem acusa e defende no tribunal do júri, compromete o julgamento imparcial dos moradores, fragilizando o direito civil fundamental à igualdade perante a lei.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que traduz corretamente a consequência descrita no texto — um dano ao exercício da cidadania (dimensão civil), e não um dado estatístico ou um fenômeno político-eleitoral.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra estigma, preconceito territorial e racismo institucional associados a conceitos de cidadania (T. H. Marshall) ou de seletividade penal — sempre pedindo que o candidato reconheça o efeito social/jurídico do preconceito, não sua "causa" ou sua "estatística".
  • Generalização: quando um texto de sociologia jurídica mostrar que um grupo social é "pré-julgado" antes mesmo de qualquer prova, a resposta correta tende a apontar para a fragilização de direitos (civis, de defesa, de igualdade) — não para números de criminalidade.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de cara alternativas que citem estatísticas objetivas (impunidade, criminalidade) quando o texto trabalha apenas com discurso e representação subjetiva; descarte também alternativas de campos temáticos alheios ao texto (política eleitoral, políticas socioeducativas) — restam poucas opções plausíveis.
  • Conexões: racismo institucional e seletividade penal; conceito de estigma em Erving Goffman; teoria da cidadania de T. H. Marshall; sociologia da desigualdade urbana e da territorialização da pobreza.

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