Mapa de questões · 1º dia
Questão 19 — ENEM 2016 Reaplicação
Quando a Corte chegou ao Rio de Janeiro, a Colônia tinha acabado de passar por uma explosão populacional. Em pouco mais de cem anos, o número de habitantes aumentara dez vezes.
GOMES, L. 1808 : como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma Corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2008 (adaptado).
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Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Colonial, ciclo do ouro e tráfico atlântico de escravizados
- ⚡ Nível: Médio — a questão não pede apenas "decorar" o ciclo econômico, mas cruzar um dado quantitativo (crescimento populacional de 10x em pouco mais de 100 anos) com o período histórico correto e descartar quatro distratores plausíveis de outros ciclos econômicos coloniais.
- 🎯 Tema/Habilidade: Economia mineradora do século XVIII e sua consequência demográfica (migração interna + intensificação do tráfico negreiro) — competência de relacionar processos econômicos coloniais a transformações territoriais e populacionais.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual atividade econômica explica o fato de a população da colônia ter se multiplicado por dez em pouco mais de cem anos, período que terminou justamente quando a Corte chegou ao Rio de Janeiro (1808)?"
- Palavras-chave decisivas: cem anos, dez vezes, explosão populacional
- Armadilha típica: marcar a alternativa A (cafeeira, com imigração europeia), porque esse é o processo de povoamento mais lembrado do senso comum sobre o Brasil — mas a grande imigração europeia para o café só ganha volume a partir de meados do século XIX, décadas depois de 1808, e não explica o crescimento anterior à chegada da Corte.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o intervalo "pouco mais de cem anos antes de 1808" corresponde ao século XVIII, o chamado século do ouro, e que o boom populacional resultou tanto da migração de colonos para as minas quanto — sobretudo — da intensificação do tráfico de africanos escravizados para suprir a mão de obra da mineração.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ciclo do ouro (c. 1690–1780): a descoberta de ouro em Minas Gerais no final do século XVII, seguida por Goiás e Mato Grosso, deslocou o eixo dinâmico da colônia do litoral açucareiro para o interior, atraindo uma onda migratória de "forasteiros" vindos de outras capitanias e de reinóis (portugueses) atrás de riqueza rápida.
- Intensificação do tráfico atlântico: a mineração é uma atividade de trabalho intensivo e desgastante, e a Coroa e os exploradores recorreram maciçamente à importação de africanos escravizados para as minas — o volume de cativos desembarcados no Brasil no século XVIII supera em muito o dos séculos anteriores, o que explica boa parte do salto populacional.
- Transferência da Corte (1808): pano de fundo do texto-motivador; a família real portuguesa foge de Napoleão e se instala no Rio de Janeiro, cidade que já era o principal porto de escoamento do ouro mineiro (ligado a Minas pela Estrada Real) e havia se tornado capital da colônia em 1763 justamente por causa da importância econômica do ciclo minerador.
- Estimativa demográfica: historiadores calculam que a população da colônia passou de algo em torno de 300 mil habitantes por volta de 1700 para cerca de 3 milhões em 1808 — um salto compatível com o "dez vezes" citado no texto, e concentrado exatamente no período de auge da mineração.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Em pouco mais de cem anos, o número de habitantes aumentara dez vezes" → fixa o intervalo temporal do fenômeno: de aproximadamente 1700 (pouco antes da descoberta do ouro) até 1808 (chegada da Corte), ou seja, quase todo o século XVIII.
- Evidência 2: "Quando a Corte chegou ao Rio de Janeiro" → ancora o fenômeno geograficamente na região Sudeste, área diretamente ligada ao escoamento do ouro das Minas Gerais, e não ao litoral nordestino do açúcar nem ao interior paulista do café (que só se consolida no século seguinte).
- Síntese: o recorte temporal (século XVIII) e o recorte espacial (eixo Minas–Rio) apontam de forma inequívoca para o ciclo do ouro, cuja explosão demográfica combinou migração interna de colonos e, principalmente, a ampliação do tráfico de africanos escravizados destinados ao trabalho nas minas.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Fixar a janela temporal do enunciado
A Corte chegou ao Rio em 1808. O texto diz que "em pouco mais de cem anos" a população havia multiplicado por dez. Isso empurra o marco inicial do fenômeno para cerca de 1700 — momento em que as primeiras grandes descobertas de ouro em Minas Gerais (Ribeirão do Carmo, Vila Rica, Sabará) começam a atrair colonos em massa. Portanto, o fenômeno descrito não é um evento pontual, mas um processo que atravessa praticamente todo o século XVIII: exatamente o período em que a mineração domina a economia colonial.
Subpasso 4.2 — Associar o crescimento populacional à causa econômica correta
Um crescimento populacional de dez vezes em cem anos não se explica só por natalidade — exige migração maciça. No século XVIII, essa migração teve duas frentes: (1) colonos livres ("forasteiros", inclusive vindos de São Paulo e de Portugal) atraídos pela promessa de enriquecimento rápido com o ouro; (2) um fluxo ainda maior de africanos escravizados, trazidos à força para suprir a demanda de mão de obra nas lavras e nos serviços urbanos que cresciam ao redor delas (Vila Rica, Mariana, Ouro Preto). É esse segundo componente — a ampliação do tráfico africano — que a alternativa C nomeia com precisão, associando-o corretamente à atividade mineradora.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando os dois recortes do enunciado (tempo: ~1700–1808; espaço: eixo Minas–Rio) com o conhecimento histórico, apenas a atividade mineradora, sustentada pela intensificação do tráfico negreiro, satisfaz simultaneamente a cronologia e a geografia do fenômeno. Nenhuma outra alternativa reúne as duas condições ao mesmo tempo, como fica evidente na análise alternativa por alternativa a seguir.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) cafeeira, com a atração da imigração europeia.
❌ Incorreta: a cafeicultura só se torna a principal atividade econômica do Brasil a partir de meados do século XIX (auge no Vale do Paraíba e depois no Oeste Paulista), e a grande imigração europeia para o café se intensifica sobretudo após a Lei de Terras (1850) e a abolição (1888) — décadas depois de 1808. É um anacronismo em relação ao período indicado pelo texto.
B) industrial, com a intensificação do êxodo rural.
❌ Incorreta: não havia atividade industrial relevante na colônia nesse período — pelo contrário, o Alvará de 1785 chegou a proibir manufaturas na colônia para proteger o pacto colonial mercantilista português. "Êxodo rural para a indústria" é um fenômeno típico da urbanização do século XX, incompatível com o Brasil colonial de 1700–1808.
C) mineradora, com a ampliação do tráfico africano.
✅ Correta: a mineração aurífera do século XVIII foi a atividade que, de fato, provocou a explosão demográfica citada, atraindo colonos para o interior e, principalmente, ampliando de forma decisiva o tráfico atlântico de africanos escravizados para suprir a mão de obra das minas — exatamente o intervalo de tempo e a lógica populacional descritos no texto.
D) canavieira, com o aumento do apresamento indígena.
❌ Incorreta: o apresamento (captura) de indígenas para escravização foi típico do início da colonização açucareira nos séculos XVI e XVII, e já vinha em declínio no século XVIII, tanto pela resistência indígena e jesuítica quanto pelas reformas pombalinas (como a lei de 1755 que proibia a escravização de indígenas). Além disso, a economia açucareira estava concentrada no litoral nordestino, não no eixo que liga o crescimento populacional ao Rio de Janeiro.
E) manufatureira, com a incorporação do trabalho assalariado.
❌ Incorreta: assim como na alternativa B, a colônia não tinha uma economia manufatureira relevante — a política mercantilista de Portugal impedia o desenvolvimento industrial no Brasil, e o trabalho assalariado em larga escala só ganharia importância muito depois, sobretudo com a crise do trabalho escravo no fim do século XIX.
🏆 Gabarito: C — a explosão demográfica de dez vezes em pouco mais de cem anos, encerrada em 1808, corresponde ao século do ouro (c. 1700–1780), cuja mão de obra foi garantida pela ampliação massiva do tráfico de africanos escravizados para as áreas de mineração.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a atividade mineradora, associada à intensificação do tráfico africano, é compatível ao mesmo tempo com a cronologia (século XVIII, terminando em 1808) e com a geografia (eixo Minas Gerais–Rio de Janeiro) indicadas no texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora testar se o estudante confunde os diferentes ciclos econômicos coloniais e imperiais (açúcar, ouro, café) e seus respectivos tipos de mão de obra (indígena, africana escravizada, imigrante assalariada) — quase sempre por meio de um dado numérico ou cronológico que ancora o período certo.
- Generalização: sempre que uma questão de História econômica colonial/imperial trouxer uma data ou intervalo de tempo, use-o primeiro para identificar o ciclo econômico correspondente; só depois analise qual tipo de mão de obra é compatível com esse ciclo.
- Dica de eliminação rápida: monte mentalmente a linha do tempo "açúcar + indígena (séc. XVI-XVII) → ouro + africano (séc. XVIII) → café + imigrante europeu (séc. XIX)". Qualquer combinação atividade/mão de obra fora do seu par correto (como B e E, que nem existiam como atividades relevantes na colônia) cai fora imediatamente.
- Conexões: vale revisar junto o processo de interiorização da colonização brasileira via mineração, a criação da capitania de Minas Gerais e das vilas mineradoras, e a rota Estrada Real–Rio de Janeiro que depois justificaria a escolha do Rio como capital colonial (1763) e sede da Corte (1808).
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