Mapa de questões · 1º dia
Questão 3 — ENEM 2016 Reaplicação
A história não corresponde exatamente ao que foi realmente conservado na memória popular, mas àquilo que foi selecionado, escrito, descrito, popularizado e institucionalizado por quem estava encarregado de fazê-lo. Os historiadores, sejam quais forem seus objetivos, estão envolvidos nesse processo, uma vez que eles contribuem, conscientemente ou não, para a criação, demolição e reestruturação de imagens do passado que pertencem não só ao mundo da investigação especializada, mas também à esfera pública na qual o homem atua como ser político.
HOBSBAWN, E.; RANGER, T. A invenção das tradições . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984 (adaptado).
Uma vez que a neutralidade é inalcançável na atividade PHQFLRQDGDpWDUHIDGRSUR¿VVLRQDOHQYROYLGR
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Teoria e Historiografia (epistemologia do conhecimento histórico)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um texto teórico abstrato de Hobsbawm e Ranger e traduzir seu argumento em postura profissional concreta, sem cair em respostas de teor ideológico que soam plausíveis
- 🎯 Tema/Habilidade: Historiografia, memória e os limites da objetividade científica (construção do saber nas Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Se o historiador não consegue ser neutro, qual deve ser a sua responsabilidade profissional diante dessa limitação?"
- Palavras-chave decisivas: neutralidade inalcançável, tarefa, profissional envolvido
- Armadilha típica: confundir "abrir mão da neutralidade" com "adotar uma militância declarada" — alternativas que propõem criticar, defender ou satisfazer grupos específicos soam coerentes com um historiador "engajado", mas extrapolam o texto-base.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que a saída epistemológica para a subjetividade inevitável do historiador é o rigor metodológico e a transparência, não a escolha de um lado político.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Historiografia: escrita e interpretação da história, sempre mediada pela seleção de fontes, recortes temporais e critérios de relevância definidos por quem escreve.
- Mito da neutralidade (objetividade positivista): ideal do século XIX (Leopold von Ranke) segundo o qual o historiador narraria o passado "tal como aconteceu"; a historiografia contemporânea rejeita essa pretensão.
- Escolha historiográfica: todo relato histórico resulta de decisões sobre o que incluir, o que silenciar e como narrar — por isso carrega, mesmo sem intenção, a marca de quem o produziu.
- Invenção das tradições (Hobsbawm/Ranger): costumes apresentados como antigos são, na verdade, construções recentes, institucionalizadas para legitimar interesses de grupos — reforça que a história é fabricada, não um espelho do passado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não corresponde exatamente ao que foi realmente conservado na memória popular, mas àquilo que foi selecionado, escrito, descrito, popularizado e institucionalizado" → a história é produto de escolhas humanas em cada etapa de sua produção, não um reflexo fiel do passado.
- Evidência 2: "contribuem, conscientemente ou não, para a criação, demolição e reestruturação de imagens do passado" → o historiador é agente ativo desse processo; sua subjetividade, mesmo involuntária, interfere no resultado final.
- Síntese: se toda escrita histórica nasce de escolhas e o historiador não escapa totalmente dessa interferência, a postura profissional responsável diante da impossibilidade de neutralidade é tornar essas escolhas visíveis ao leitor, não escondê-las sob falsa objetividade.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o problema epistemológico colocado pelo texto
O trecho de Hobsbawn e Ranger é um marco da historiografia contemporânea, ligado a correntes que romperam com o positivismo do século XIX — cuja pretensão era reconstituir o passado "como realmente aconteceu", em absoluta neutralidade. Os autores mostram que toda narrativa histórica passa por um filtro humano: seleção de fontes, critérios de relevância, linguagem e, muitas vezes, finalidades políticas de quem escreve. Essa interferência não é um defeito a ser eliminado, mas uma característica estrutural do ofício do historiador — daí a afirmação de que a neutralidade é "inalcançável".
Subpasso 4.2 — Traduzir a premissa em resposta profissional
A questão já assume, como dado do texto-base, que a neutralidade é impossível. Logo, não pergunta "como o historiador pode ser neutro", mas "qual é a tarefa profissional diante dessa impossibilidade". A resposta coerente com a epistemologia contemporânea da história é: já que não existe objetividade pura, o critério de cientificidade passa a ser a transparência metodológica — o historiador declara fontes, referencial teórico e critérios de seleção, permitindo que o leitor avalie criticamente a narrativa, mesmo sabendo que ela não é neutra.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa conclusão com as alternativas, apenas uma trata da explicitação do processo de construção da narrativa (fontes, recortes, critérios), sem extrapolar para posicionamentos político-ideológicos que o texto não menciona (criticar o poder, defender minorias, respeitar interesses sociais, satisfazer financiadores). Essa é a única alternativa compatível com a lógica de Hobsbawn e Ranger.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) criticar as ideias dominantes.
❌ Incorreta: o texto não trata de oposição sistemática ao poder ou às ideias hegemônicas. Seria uma postura político-ideológica específica (próxima de correntes de historiografia crítica), não uma decorrência lógica e universal da impossibilidade de neutralidade discutida no trecho.
B) respeitar os interesses sociais.
❌ Incorreta: expressão vaga que não decorre do argumento apresentado. Atender a interesses de grupos específicos é justamente o tipo de viés que compromete a isenção do trabalho historiográfico, não uma solução para a falta de neutralidade.
C) defender os direitos das minorias.
❌ Incorreta: embora legítimo em outros contextos, não é o que o texto discute. Defender qualquer grupo — mesmo minorias — seria adotar uma causa ideológica explícita, enquanto o texto fala em reconhecer e expor as escolhas feitas na construção da narrativa, não em tomar partido.
D) explicitar as escolhas realizadas.
✅ Correta: é a decorrência lógica do texto-base. Como toda narrativa histórica resulta de seleção, escrita, descrição e institucionalização feitas por alguém, a responsabilidade do historiador diante da impossibilidade de neutralidade é tornar transparentes os critérios, fontes e recortes que orientaram seu trabalho — permitindo o controle crítico do leitor sobre a narrativa produzida.
E) satisfazer os financiadores de pesquisas.
❌ Incorreta: contraria a ética historiográfica. Atender a interesses de financiadores é uma forma de viés que compromete a integridade da pesquisa, não uma resposta legítima à impossibilidade de neutralidade — é exatamente o tipo de interferência que a transparência metodológica busca evidenciar e neutralizar.
🏆 Gabarito: D — diante da impossibilidade de neutralidade absoluta, a responsabilidade do historiador é tornar transparentes os critérios, fontes e recortes que moldaram sua narrativa, e não adotar uma postura ideológica específica.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que oferece uma resposta epistemológica (metodológica) ao problema da subjetividade do historiador, em vez de uma resposta ideológica ou político-partidária.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra teoria da história a partir de autores como Hobsbawn, Marc Bloch, Peter Burke e Michel de Certeau, explorando "invenção das tradições", "história vista de baixo" e "memória e identidade" — sempre pedindo que se reconheça a história como construção humana, não espelho fiel do passado.
- Generalização: em questões de teoria da história, desconfie de alternativas que assumem uma postura político-ideológica quando o texto-base discute método científico; a resposta correta costuma valorizar transparência, crítica das fontes e reconhecimento dos limites da narrativa.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que assumem um "lado" (criticar dominantes, defender minorias, satisfazer financiadores) — são posicionamentos, não procedimentos metodológicos. Escolha a que fala em mostrar, expor ou declarar o processo de construção do conhecimento.
- Conexões: "invenção das tradições" (Hobsbawn e Ranger) e a distinção entre história e memória; a crítica ao ideal positivista de objetividade (Ranke) e a ascensão da "história-problema" na Escola dos Annales.
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