Mapa de questões · 1º dia
Questão 25 — ENEM 2016 Reaplicação
TEXTO I
Até aqui expus a natureza do homem (cujo orgulho e outras paixões o obrigaram a submeter-se ao governo), juntamente com o grande poder do seu governante, o qual comparei com o Leviatã, tirando essa comparação dos dois últimos versículos do capítulo 41 de Jó, onde Deus, após ter estabelecido o grande poder do Leviatã, lhe chamou Rei dos Soberbos. Não há nada na Terra, disse ele, que se lhe possa comparar.
HOBBES, T. O Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
TEXTO II
Eu asseguro, tranquilamente, que o governo civil é a solução adequada para as inconveniências do estado de natureza, que devem certamente ser grandes quando os homens podem ser juízes em causa própria, pois é fácil imaginar que um homem tão injusto a ponto de lesar o irmão dificilmente será justo para condenar a si mesmo pela mesma ofensa.
LOCKE, J. Segundo tratado sobre o governo civil. Petrópolis: Vozes, 1994.
Thomas Hobbes e John Locke, importantes teóricos contratualistas, discutiram aspectos ligados à natureza humana e ao Estado. Thomas Hobbes, diferentemente de John Locke, entende o estado de natureza como um(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Política / Contratualismo (Hobbes e Locke)
- ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar com precisão dois conceitos de "estado de natureza" frequentemente confundidos entre si.
- 🎯 Tema/Habilidade: Contratualismo moderno; leitura comparativa de textos filosóficos e reconhecimento de correntes de pensamento político.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual alternativa descreve o estado de natureza segundo Hobbes, em contraste com a visão de Locke?"
- Palavras-chave decisivas: Hobbes, diferentemente de Locke, estado de natureza
- Armadilha típica: marcar uma alternativa que descreve corretamente o estado de natureza, mas segundo Locke (também contratualista), e não segundo Hobbes.
- O que a resposta precisa demonstrar: que, para Hobbes, o estado de natureza é guerra generalizada movida pelo medo da morte violenta — e não uma condição pacífica de direitos naturais preexistentes, como pensava Locke.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Contratualismo: corrente segundo a qual o Estado nasce de um pacto entre indivíduos, que abrem mão de parte da liberdade natural em troca de segurança e ordem.
- Estado de natureza em Hobbes: ausência de poder comum gera igualdade de esperança em disputar os mesmos fins, instalando o bellum omnium contra omnes — guerra de todos contra todos —, vida "solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta".
- Estado de natureza em Locke: condição já regida pela lei natural (razão), em que os homens possuem direitos inatos — vida, liberdade, igualdade, propriedade. O problema é a falta de juiz imparcial, não uma guerra generalizada.
- Leviatã: metáfora hobbesiana do Estado absoluto, criado pelo pacto, ao qual os homens transferem seus direitos naturais em troca de paz e proteção contra a morte violenta.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (Texto I, Hobbes): "cujo orgulho e outras paixões o obrigaram a submeter-se ao governo" → é o temor gerado pelas paixões, e não uma sociabilidade natural, que empurra o homem ao pacto.
- Evidência 2 (Texto II, Locke): "o governo civil é a solução adequada para as inconveniências do estado de natureza" → para Locke, essa condição não é caos generalizado, mas tem "inconveniências" pontuais, como a ausência de juiz imparcial.
- Síntese: o contraste entre "submissão pelo medo" (Hobbes) e "correção de inconveniências" (Locke) indica que a resposta deve descrever o estado de natureza hobbesiano como conflito extremo e insegurança, não como direitos preexistentes ou harmonia.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a autoria de cada texto
O Texto I é de Hobbes (O Leviatã) e associa o poder do soberano ao Leviatã bíblico, "Rei dos Soberbos", justificando o poder absoluto. O Texto II é de Locke (Segundo tratado sobre o governo civil) e trata o governo civil como remédio para as "inconveniências" do estado de natureza — termo brando que sugere uma condição já regida por alguma ordem racional.
Subpasso 4.2 — Recuperar a doutrina hobbesiana
Para Hobbes, a igualdade natural de capacidades gera igualdade de esperança em alcançar os mesmos fins, inclusive à custa uns dos outros. Sem poder comum que os contenha, instala-se a guerra de todos contra todos: não batalhas contínuas, mas disposição constante ao conflito, insegurança permanente e medo da morte violenta. É esse medo — paixão central em Hobbes — que leva os homens a transferir seus direitos a um soberano absoluto capaz de impor a paz pela força.
Subpasso 4.3 — Verificação por contraste com Locke
Locke discorda: para ele, a lei natural já assegura a todos direitos inatos antes de qualquer governo. O problema não é a guerra, mas o fato de cada um ser "juiz em causa própria" — sem árbitro imparcial, a justiça tende à parcialidade. Por isso o governo civil, em Locke, é limitado e protege direitos preexistentes, não contém uma guerra universal. Esse contraste confirma que a marca exclusivamente hobbesiana é a guerra generalizada, a insegurança e o medo da morte violenta — exatamente o conteúdo da alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) condição de guerra de todos contra todos, miséria universal, insegurança e medo da morte violenta.
✅ Correta: síntese exata da doutrina hobbesiana — o bellum omnium contra omnes, movido pela igualdade de esperança e pelo medo da morte violenta, superado apenas pela submissão ao Leviatã.
B) organização pré-social e pré-política em que o homem nasce com os direitos naturais: vida, liberdade, igualdade e propriedade.
❌ Incorreta: é exatamente a concepção de Locke, não de Hobbes. A alternativa inverte a autoria e descreve com precisão o Texto II — a principal armadilha da questão.
C) capricho típico da menoridade, que deve ser eliminado pela exigência moral, para que o homem possa constituir o Estado civil.
❌ Incorreta: "menoridade" remete à ideia kantiana de saída da menoridade intelectual (Esclarecimento), tema estranho ao vocabulário de Hobbes e Locke sobre estado de natureza.
D) situação em que os homens nascem como detentores de livre-arbítrio, mas são feridos em sua livre decisão pelo pecado original.
❌ Incorreta: trata-se de leitura teológica-cristã de inspiração agostiniana, e não da fundamentação laica adotada por Hobbes.
E) estado de felicidade, saúde e liberdade que é destruído pela civilização, que perturba as relações sociais e violenta a humanidade.
❌ Incorreta: descreve o "bom selvagem" de Rousseau, para quem o estado de natureza era harmonioso e foi corrompido pela sociedade civil — posição oposta à de Hobbes, que via o estado de natureza como o problema a ser resolvido.
🏆 Gabarito: A — apenas a alternativa A capta o núcleo da filosofia política de Hobbes: estado de natureza como guerra generalizada, insegurança e medo constante da morte violenta, que justifica a submissão a um poder soberano absoluto.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a letra A associa o estado de natureza a conflito generalizado e medo da morte violenta — marca exclusiva de Hobbes entre os contratualistas citados.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente compara Hobbes, Locke e Rousseau a partir de trechos originais, exigindo associar cada autor a palavras-chave específicas (guerra/medo em Hobbes; direitos naturais/inconveniências em Locke; bondade natural/corrupção em Rousseau).
- Generalização: em contratualismo, identifique primeiro de quem é cada texto de apoio e depois busque, nas alternativas, o vocabulário exclusivo do autor perguntado, descartando o que "soa contratualista" mas pertence a outro pensador.
- Dica de eliminação rápida: pergunte "é uma condição pacífica com direitos garantidos, ou de conflito e medo?". Se pacífica com direitos, é Locke (elimine); se idílica e corrompida pela civilização, é Rousseau (elimine); o que sobrar, ligado a guerra e medo, é Hobbes.
- Conexões: compare com o "bom selvagem" de Rousseau (Discurso sobre a origem da desigualdade) e com a teoria do contrato social como fundamento da soberania popular.
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