Mapa de questões · 1º dia
Questão 34 — ENEM 2016 Reaplicação
TEXTO I
Cidadão
Tá vendo aquele edifício, moço?
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado
“Tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?”
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer.
BARBOSA, L. In: ZÉ RAMALHO. 20 Super Sucessos . Rio de Janeiro: Sony Music, 1999 (fragmento).
TEXTO II
O trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza e sua produção cresce em força e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais bens. Esse fato simplesmente subentende que o objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, agora se lhe opõe como um ser estranho , como uma força independente do produtor.
Com base nos textos, a relação entre trabalho e modo de produção capitalista é
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Teoria social clássica (Karl Marx), trabalho e capitalismo
- ⚡ Nível: Médio — exige articular a linguagem poética do Texto I com o conceito teórico de alienação/estranhamento do trabalho no Texto II
- 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre trabalho, produção de riqueza e exploração no modo de produção capitalista (Competência de área 3 — compreender processos sociais em diferentes dinâmicas)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Com base na canção sobre o operário alienado e no texto de Marx sobre o trabalho, identifique como o capitalismo relaciona trabalho e produção de riqueza."
- Palavras-chave decisivas: relação entre trabalho e modo de produção capitalista, cidadão que não reconhece o prédio que ajudou a construir, trabalhador torna-se mais pobre à medida que produz mais riqueza
- Armadilha típica: confundir a crítica de Marx com uma descrição de "distribuição equilibrada" ou de "luta de classes já instaurada" — os textos não falam de solução ou de conflito organizado, mas do diagnóstico da alienação e da exploração
- O que a resposta precisa demonstrar: que o aluno entende o paradoxo marxista central — quanto mais o trabalhador produz, mais riqueza gera para o sistema, e mais alienado e explorado ele fica
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Modo de produção capitalista: sistema baseado na propriedade privada dos meios de produção, no trabalho assalariado e no lucro obtido via mais-valia — o valor que o trabalhador cria além do necessário à sua subsistência, apropriado pelo capitalista.
- Alienação (estranhamento) do trabalho, em Marx: processo pelo qual o trabalhador se torna estranho ao produto do próprio trabalho, porque o que ele produz não lhe pertence e se volta contra ele como "força independente".
- Exploração do trabalho: apropriação, pelo detentor do capital, do valor excedente criado pelo trabalhador; quanto maior a produtividade, maior o volume de riqueza extraído sem retorno proporcional ao salário.
- Contradição capital-trabalho: a riqueza social (mercadorias, capital, prédios) cresce com a produção, mas quem a gera não enriquece na mesma proporção — pelo contrário, permanece ou se precariza.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (Texto I): "Tá vendo aquele edifício, moço? / Ajudei a levantar (...) Hoje depois dele pronto / Olho pra cima e fico tonto / Mas me vem um cidadão / Me diz desconfiado: 'Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?'" → o operário que construiu o prédio é tratado como estranho — quase suspeito — diante da própria obra; o produto do seu trabalho não lhe pertence nem o reconhece como autor, ele foi expropriado do resultado do seu esforço.
- Evidência 2 (Texto II): "O trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza (...) o objeto produzido pelo trabalho (...) se lhe opõe como um ser estranho, como uma força independente do produtor." → Marx formaliza teoricamente o que a canção narra na prática: existe uma relação inversamente proporcional entre o esforço/produção do trabalhador e seu bem-estar material, porque o produto e a riqueza gerados escapam ao seu controle e passam a servir a outra lógica — a do capital.
- Síntese: os dois textos, um poético e um teórico, convergem para o mesmo diagnóstico: no capitalismo, o aumento da produção e da riqueza social não se traduz em ganho para quem trabalha, mas em ampliação da distância entre o trabalhador e o fruto de seu trabalho — ou seja, em mais exploração.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo comum aos dois textos
O Texto I é o relato em primeira pessoa de um operário da construção civil que ergueu um edifício e, ao contemplá-lo pronto, é hostilizado por um "cidadão" que o vê como intruso, não como autor da obra. Há uma inversão simbólica: quem construiu não tem lugar reconhecido no resultado do que construiu. O Texto II, de Marx, explica esse fenômeno em termos conceituais: o trabalho, sob o capitalismo, produz um objeto que se "opõe" ao trabalhador, tornando-se uma força estranha e independente dele. Quanto mais ele produz, mais essa força cresce — e mais pobre, relativamente, ele permanece.
Subpasso 4.2 — Traduzir o diagnóstico em "trabalho e modo de produção capitalista"
Juntando os dois textos: (1) o trabalho gera riqueza (o prédio, os "bens" citados por Marx); (2) essa riqueza não retorna ao trabalhador na mesma proporção — ele segue pobre, sem conseguir sequer "olhar pro prédio" sem tristeza; (3) logo, o crescimento da produção capitalista caminha junto com o aprofundamento da exploração do trabalhador, cada vez mais separado (alienado) daquilo que produziu. É a lógica da mais-valia: o valor que o trabalhador cria excede o que recebe, e esse excedente vira capital, prédios e lucro para outros.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando essa síntese contra as alternativas: a única que expressa "quanto mais riqueza se produz, mais o trabalhador é explorado" é a que associa "aumento da riqueza" a "ampliação da exploração do trabalhador" — relação diretamente proporcional entre produção de riqueza e exploração, exatamente o que os dois textos descrevem. Aponta para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) baseada na desvalorização do trabalho especializado e no aumento da demanda social por novos postos de emprego.
❌ Incorreta: os textos não tratam de qualificação profissional nem de geração de empregos; o operário da canção já está empregado e o problema não é falta de vagas, e sim a alienação em relação ao que produz. Não há qualquer menção a "trabalho especializado" versus não especializado.
B) fundada no crescimento proporcional entre o número de trabalhadores e o aumento da produção de bens e serviços.
❌ Incorreta: essa alternativa descreve uma relação demográfica/quantitativa (mais trabalhadores = mais produção) que não é o foco dos textos. Marx fala da relação entre a riqueza produzida e o empobrecimento relativo do trabalhador, não de proporcionalidade entre número de trabalhadores e volume de produção.
C) estruturada na distribuição equânime de renda e no declínio do capitalismo industrial e tecnocrata.
❌ Incorreta: é o oposto do que os textos afirmam. Não há distribuição equânime (igualitária) de renda — pelo contrário, há empobrecimento do trabalhador frente ao enriquecimento do sistema. Tampouco há qualquer indício de "declínio" do capitalismo industrial nos textos.
D) instaurada a partir do fortalecimento da luta de classes e da criação da economia solidária.
❌ Incorreta: os textos não descrevem organização coletiva de resistência (luta de classes em ação) nem modelos alternativos de produção (economia solidária). O operário da canção está isolado e resignado ("dá vontade de beber"), não mobilizado politicamente.
E) derivada do aumento da riqueza e da ampliação da exploração do trabalhador.
✅ Correta: sintetiza com precisão o que os dois textos mostram — a produção de riqueza (o prédio erguido, os "bens" de Marx) cresce, mas esse crescimento caminha lado a lado com o aumento da exploração e da alienação do trabalhador, que não usufrui do valor que ajudou a criar.
🏆 Gabarito: E — a canção de Zé Ramalho narra concretamente o que Marx formula teoricamente: no capitalismo, o aumento da riqueza social é inseparável da ampliação da exploração do trabalhador, que se torna estranho ao próprio produto de seu trabalho.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E capta a relação de causa e efeito presente nos dois textos — mais riqueza produzida, mais exploração e alienação do trabalhador — sem inventar elementos ausentes (luta de classes, distribuição igualitária, declínio do capitalismo ou geração de empregos).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a Marx (alienação, mais-valia, luta de classes, fetichismo da mercadoria) combinando um texto teórico com uma fonte artística ou literária — música, poema, charge — que ilustra o conceito de forma sensível, testando se o aluno consegue transitar entre linguagem figurada e conceito sociológico.
- Generalização: em questões que cruzam um texto artístico com um texto teórico clássico, a resposta correta é sempre a que resume o diagnóstico comum aos dois sem adicionar elementos externos (soluções, movimentos ou dados que não estão em nenhum dos textos).
- Dica de eliminação rápida: descarte de cara alternativas que falem em "distribuição equânime", "declínio do capitalismo" ou "luta de classes fortalecida" quando o texto-base só descreve resignação e alienação individual — esses termos indicam ação coletiva ou reversão do sistema, ausentes na cena narrada. Sobra a opção que mantém o par "mais riqueza + mais exploração".
- Conexões: mais-valia e fetichismo da mercadoria (Marx); divisão social do trabalho e taylorismo/fordismo como aprofundamento da alienação no trabalho industrial.
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