Mapa de questões · 1º dia
Questão 30 — ENEM 2016 Reaplicação
A demanda da comunidade afro-brasileira por reconhecimento, valorização e afirmação de direitos, no que diz respeito à educação, passou a ser particularmente apoiada com a promulgação da Lei 10.639/2003, que alterou a Lei 9.394/1996, estabelecendo a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas.
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para
o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
Brasília: Ministério da Educação, 2005.
A alteração legal no Brasil contemporâneo descrita no texto é resultado do processo de
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → movimentos sociais e políticas de reconhecimento; História → luta antirracista no Brasil contemporâneo
- ⚡ Nível: Médio — exige relacionar um marco legal (Lei 10.639/2003) ao processo social que o originou, e não apenas decorar a data da lei
- 🎯 Tema/Habilidade: Ação coletiva do movimento negro e sua capacidade de transformar demandas por direitos em legislação (Competência de Área 5 — Ciências Humanas: relacionar cidadania, participação social e transformações no espaço-tempo brasileiro)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "De onde veio a força política que produziu a Lei 10.639/2003?"
- Palavras-chave decisivas: reconhecimento, valorização e afirmação de direitos, obrigatoriedade do ensino, resultado do processo de
- Armadilha típica: confundir o efeito da lei (mais uma disciplina obrigatória no currículo, alternativa D) com a causa que a produziu — o candidato apressado marca o que a lei fez, não o que a fez existir
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que legislação sobre direitos de grupos historicamente excluídos não surge espontaneamente do Estado, mas é conquistada por pressão organizada da sociedade civil
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Movimento negro: conjunto de organizações, entidades e coletivos (como o Movimento Negro Unificado, fundado em 1978) que desde a redemocratização atuam pela denúncia do racismo estrutural, por políticas de ação afirmativa e pelo reconhecimento da história e cultura afro-brasileiras.
- Ação coletiva e conquista de direitos: na teoria dos movimentos sociais, direitos não são concedidos passivamente pelo Estado — são resultado de mobilização, pressão política, articulação com o Legislativo e o Executivo e acúmulo histórico de reivindicações.
- Lei 10.639/2003: altera a LDB (Lei 9.394/1996) tornando obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio; é um instrumento de política de reconhecimento, não uma medida técnica ou orçamentária.
- Políticas de reconhecimento: políticas públicas voltadas a corrigir invisibilidade e hierarquização simbólica de grupos étnico-raciais, diferentes de políticas puramente redistributivas (como aumento de renda).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A demanda da comunidade afro-brasileira por reconhecimento, valorização e afirmação de direitos" → o texto já nomeia o sujeito histórico da ação: a própria comunidade afro-brasileira organizada, isto é, o movimento negro, que "demanda" (reivindica ativamente).
- Evidência 2: "passou a ser particularmente apoiada com a promulgação da Lei 10.639/2003" → a lei é apresentada como resposta/apoio a uma demanda preexistente, não como o ponto de partida do processo; a mobilização vem antes e a legislação vem depois, como conquista.
- Síntese: o enunciado descreve uma sequência causal explícita — reivindicação social organizada → resposta institucional (lei). A pergunta pede exatamente o primeiro elo dessa cadeia: o processo social que gerou a alteração legal.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito histórico do texto
O texto-base atribui a iniciativa da demanda à "comunidade afro-brasileira", que busca "reconhecimento, valorização e afirmação de direitos" no campo da educação. Esse vocabulário — reconhecimento, valorização, afirmação de direitos — é o vocabulário típico da luta antirracista organizada no Brasil desde os anos 1970-1980, protagonizada por entidades do movimento negro (Movimento Negro Unificado, Frente Negra Brasileira em sua tradição histórica, e diversas outras organizações locais e nacionais que se consolidaram na Nova República).
Subpasso 4.2 — Conectar a mobilização à mudança legal
A Lei 10.639/2003 não surgiu de um planejamento espontâneo do Ministério da Educação, nem de uma iniciativa isolada de parlamentares. Ela é fruto de décadas de pressão do movimento negro, intensificada após a Constituição de 1988 (que já reconhecia o racismo como crime inafiançável) e após a III Conferência Mundial contra o Racismo (Durban, 2001), na qual o Brasil assumiu compromissos internacionais de combate à discriminação racial. O governo Lula, eleito em 2002, sancionou a lei em 2003 como resposta direta a essa agenda histórica de reivindicações, formalizada inclusive nas Diretrizes Curriculares citadas na referência do próprio enunciado.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com as alternativas: nenhuma delas menciona renda, infraestrutura, ampliação genérica de disciplinas ou universidades — exceto a que nomeia diretamente o agente social por trás da lei. A alternativa que corresponde à cadeia causal identificada nos Subpassos 4.1 e 4.2 é a que aponta a mobilização do movimento negro como origem do processo. Isso confirma a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) aumento da renda nacional.
❌ Incorreta: a Lei 10.639/2003 é uma política de reconhecimento simbólico e curricular, não uma política econômica. O texto não menciona indicadores de renda ou desenvolvimento econômico como motor da mudança — trata-se de uma confusão entre política redistributiva (renda) e política de reconhecimento (identidade e direitos culturais).
B) mobilização do movimento negro.
✅ Correta: é exatamente o sujeito histórico descrito no texto — a "comunidade afro-brasileira" organizada, que demandou "reconhecimento, valorização e afirmação de direitos" — e cuja pressão política ao longo de décadas resultou na sanção da lei. A alteração legal é o efeito institucional dessa mobilização social.
C) melhoria da infraestrutura escolar.
❌ Incorreta: a lei trata de conteúdo curricular (o que se ensina), não de infraestrutura física das escolas (prédios, equipamentos, recursos materiais). Infraestrutura escolar é um problema distinto, tratado por outras políticas educacionais.
D) ampliação das disciplinas obrigatórias.
❌ Incorreta: essa alternativa descreve uma consequência técnica da lei (a obrigatoriedade curricular passou a existir), não a sua causa social. É a armadilha central da questão: confundir efeito com origem do processo.
E) politização das universidades públicas.
❌ Incorreta: o texto não trata do ambiente universitário nem de disputas político-partidárias dentro das universidades; a Lei 10.639/2003 regula o ensino fundamental e médio, e sua origem está na sociedade civil organizada, não no espaço acadêmico institucional.
🏆 Gabarito: B — a Lei 10.639/2003 é resultado direto da mobilização histórica do movimento negro, que transformou décadas de reivindicação por reconhecimento e direitos educacionais em uma conquista legislativa concreta.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia o agente social — o movimento negro — que o próprio texto já indica como autor da "demanda" que antecede e explica a lei; todas as outras alternativas erram o sujeito ou confundem causa com efeito.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra questões em que uma lei, política pública ou direito conquistado (Estatuto do Idoso, Lei Maria da Penha, cotas raciais, Lei 10.639/2003) deve ser associado ao movimento social que pressionou por sua criação — é um tema clássico de cidadania e participação política em Ciências Humanas.
- Generalização: sempre que o enunciado descrever uma "demanda" ou "reivindicação" de um grupo social seguida por uma resposta institucional (lei, política, diretriz), a resposta certa tende a nomear o sujeito coletivo que pressionou, não o resultado técnico da medida.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que tratem de temas ausentes do texto (renda, infraestrutura, universidades) — elas não têm nenhuma âncora textual; entre as duas restantes, escolha a que descreve a causa social (mobilização), não o efeito curricular (ampliação de disciplinas).
- Conexões: o mesmo raciocínio se aplica a questões sobre a Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) e sobre o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) — ambas também resultam de décadas de mobilização do movimento negro por políticas afirmativas.
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