Mapa de questões · 1º dia
Questão 40 — ENEM 2016 Reaplicação
A imagem da relação patrão-empregado geralmente veiculada pelas classes dominantes brasileiras na República Velha era de que esta relação se assemelhava em muitos aspectos à relação entre pais e filhos. O patrão era uma espécie de “juiz doméstico” que procurava guiar e aconselhar o trabalhador, que, em troca, devia realizar suas tarefas com dedicação e respeitar o seu patrão.
CHALHOUB, S. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores do Rio de Janeiro da Belle Époque. Campinas: Unicamp, 2001.
No contexto da transição do trabalho escravo para o trabalho livre, a construção da imagem descrita no texto tinha por objetivo
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil República Velha (transição do trabalho escravo para o trabalho livre e ideologia paternalista)
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer a função ideológica do discurso paternalista e descartar alternativas anacrônicas envolvendo leis e Justiça do Trabalho que ainda não existiam no período
- 🎯 Tema/Habilidade: Ideologia paternalista nas relações de trabalho pós-abolição; competência de interpretar processos históricos e sociais a partir de textos historiográficos
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual era o objetivo real da imagem 'patrão-pai/juiz doméstico' ao comparar a relação de trabalho a uma relação familiar na República Velha?"
- Palavras-chave decisivas: transição do trabalho escravo para o trabalho livre, imagem... veiculada pelas classes dominantes, juiz doméstico
- Armadilha típica: confundir uma metáfora ideológica com uma política jurídica ou administrativa concreta — como se a imagem servisse para burlar leis (D) ou driblar a Justiça do Trabalho (B), instituições que não existiam nesse contexto.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a construção discursiva do "patrão-pai" tinha função ideológica — mascarar a desigualdade entre quem manda e quem obedece — e não uma finalidade jurídica, administrativa ou econômica.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Paternalismo como ideologia de dominação: discurso que emula os laços afetivos da família (pai que orienta, filho que obedece) para justificar e suavizar uma relação de exploração no trabalho.
- Transição trabalho escravo → livre (pós-1888): sem legislação trabalhista nem integração dos libertos, antigos senhores recorreram ao controle simbólico, herdeiro de práticas da própria escravidão, para manter autoridade sobre trabalhadores agora livres.
- República Velha (1889-1930): Estado pouco regulador do trabalho — Justiça do Trabalho e CLT só surgiriam décadas depois, nos anos 1930-1940.
- Consenso versus conflito de classe: dominação duradoura não se sustenta só pela força; precisa de consentimento, convencendo os dominados de que a hierarquia é natural — o que dissolve, no plano simbólico, o antagonismo real de interesses.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "esta relação se assemelhava [...] aos aspectos da relação entre pais e filhos" → a classe dominante constrói deliberadamente uma analogia afetiva e familiar para descrever uma relação que, na prática, é de trabalho assalariado e assimetria de poder.
- Evidência 2: "o patrão era uma espécie de 'juiz doméstico' [...] que, em troca, devia [...] respeitar o seu patrão" → reciprocidade forjada: em troca de suposta "orientação paterna", exige-se obediência — uma troca desigual travestida de troca justa.
- Síntese: o texto descreve um discurso ideológico das elites, não uma política de Estado — o caminho é identificar a alternativa que capta essa função de mascarar o conflito, não buscar instituições (leis, Justiça do Trabalho) que ainda não existiam.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contextualizar o momento histórico
Em 1888 ocorre a abolição sem qualquer política de reparação ou integração para os libertos. As antigas elites — agora obrigadas a negociar mão de obra formalmente livre — perdem os mecanismos de coerção direta da escravidão (o açoite, a posse jurídica sobre a pessoa). Precisam de novos instrumentos de controle, e um dos mais eficazes é simbólico: um discurso que legitime a autoridade do patrão sem parecer opressão.
Subpasso 4.2 — Entender a função ideológica da metáfora familiar
Ao comparar o patrão a um "juiz doméstico" e o empregado a um filho que deve respeito, o discurso das classes dominantes transforma uma relação de classe (propriedade dos meios de produção de um lado, venda da força de trabalho de outro) em uma relação afetiva e supostamente equilibrada, como a de pai e filho. Isso torna natural a hierarquia — e o que é "natural" não é questionado. Filhos não fazem greve contra pais que os "orientam com carinho"; da mesma forma, o trabalhador que internaliza essa imagem tende a não reivindicar a desigualdade que vive.
A construção discursiva não elimina a desigualdade real, mas esvazia o conflito que ela naturalmente geraria, tornando-o simbolicamente invisível.
Subpasso 4.3 — Verificação
Voltando ao comando "tinha por objetivo": a única alternativa que expressa essa função ideológica é a que fala em esvaziar o conflito de uma relação baseada na desigualdade entre os indivíduos que dela participavam. As demais atribuem à imagem finalidades jurídicas, administrativas ou econômicas que não se sustentam no texto nem no contexto histórico.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) esvaziar o conflito de uma relação baseada na desigualdade entre os indivíduos que dela participavam.
✅ Correta: é exatamente a função ideológica descrita — travestir de harmonia familiar uma relação estruturalmente desigual (patrão com poder econômico versus trabalhador dependente do emprego), dissolvendo simbolicamente o antagonismo de interesses e esvaziando o potencial de conflito.
B) driblar a lentidão da nascente Justiça do Trabalho, que não conseguia conter os conflitos cotidianos.
❌ Incorreta: anacronismo. A Justiça do Trabalho como órgão só surgiu nos anos 1930-1940, décadas depois do período retratado (República Velha, 1889-1930). Não havia "nascente Justiça do Trabalho" para se driblar nesse contexto.
C) separar os âmbitos público e privado na organização do trabalho para aumentar a eficiência dos funcionários.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. A imagem do "juiz doméstico" faz o oposto de separar as esferas — funde o trabalho (público) ao âmbito familiar (privado). Além disso, a finalidade descrita não é eficiência produtiva, mas legitimação ideológica da autoridade.
D) burlar a aplicação das leis trabalhistas conquistadas pelos operários nos primeiros governos civis do período republicano.
❌ Incorreta: também anacrônica. Na República Velha não existia um corpo consolidado de leis trabalhistas a ser burlado — essa legislação é conquista posterior (Era Vargas). O discurso paternalista antecede e busca inibir a organização dos trabalhadores, não escapar de normas ainda inexistentes.
E) compensar os prejuízos econômicos sofridos pelas elites em função da ausência de indenização pela libertação dos escravos.
❌ Incorreta: mistura dois debates distintos. A falta de indenização aos antigos senhores após 1888 é um tema à parte; nada no texto liga o "juiz doméstico" a uma compensação econômica desse prejuízo. O discurso descrito visa controlar simbolicamente a força de trabalho livre, não reparar perdas patrimoniais.
🏆 Gabarito: A — a imagem paternalista do "patrão-juiz doméstico" tinha a função ideológica de esvaziar o conflito inerente a uma relação de trabalho estruturalmente desigual, apresentando-a como um vínculo afetivo e natural, e não uma finalidade jurídica, administrativa ou econômica, como sugerem as demais alternativas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A capta a essência do texto — uma ideologia que naturaliza a desigualdade e esvazia o conflito de classe, sem depender de instituições que ainda não existiam no período.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos historiográficos sobre trabalho, escravidão e pós-abolição pedindo a função ideológica de discursos das elites — a resposta certa costuma falar em naturalizar, legitimar ou esvaziar o conflito, nunca em soluções jurídicas ou administrativas concretas.
- Generalização: quando uma questão descrever um discurso construído pelas "classes dominantes", desconfie de alternativas que atribuam a ele uma função institucional específica (lei, tribunal) — a resposta certa costuma apontar para uma função ideológica de legitimação e ocultação de desigualdades.
- Dica de eliminação rápida: confira a linha do tempo primeiro — se a alternativa menciona instituição que só existiria décadas depois do período da questão, está eliminada por anacronismo. Isso descarta B e D em segundos.
- Conexões: compare com o mito da "democracia racial" (também naturaliza desigualdades) e com o coronelismo na Primeira República, outro sistema de dominação apoiado em laços pessoais.
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