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Questão 35 — ENEM 2016 Reaplicação
Pode-se admitir que a experiência passada dá somente uma informação direta e segura sobre determinados objetos em determinados períodos do tempo, dos quais ela teve conhecimento. Todavia, é esta a principal questão sobre a qual gostaria de insistir: por que esta experiência tem de ser estendida a tempos futuros e a outros objetos que, pelo que sabemos, unicamente são similares em aparência. O pão que outrora comi alimentou-me, isto é, um corpo dotado de tais qualidades sensíveis estava, a este tempo, dotado de tais poderes desconhecidos. Mas, segue-se daí que este outro pão deve também alimentar-me como ocorreu na outra vez, e que qualidades sensíveis semelhantes devem sempre ser acompanhadas de poderes ocultos semelhantes? A consequência não parece de nenhum modo necessária.
HUME, D. Investigação acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1995.
O problema descrito no texto tem como consequência a
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: Filosofia → Teoria do conhecimento → empirismo e o problema da indução
- Habilidade: H1 — interpretar historicamente e(ou) geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura
- Nível: Médio — o texto de Hume é claro, mas as alternativas usam vocabulário técnico que precisa ser traduzido antes de ser comparado
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: qual é a consequência do problema que Hume levanta.
- Palavras-chave decisivas: consequência, problema descrito no texto.
- A armadilha: confundir consequência com radicalização. Hume mostra que a experiência passada não garante o futuro; daí não se segue que a experiência seja inútil para a ciência. Duas alternativas empurram o argumento além do que ele afirma.
- O que a resposta precisa mostrar: que você identifica o problema da indução e sabe qual é o alcance exato dele — atinge a fundamentação das leis, não a existência da ciência.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Empirismo: corrente segundo a qual todo conhecimento vem da experiência sensível. Hume é empirista, e é por levar o empirismo até o fim que ele encontra o problema deste texto.
- Indução: raciocínio que parte de casos particulares observados e conclui algo universal. "Todos os pães que comi me alimentaram" → "todo pão alimenta". O salto do "todos os que observei" para o "todos" é o coração da indução.
- Problema da indução: a constatação de que esse salto não tem garantia lógica. Nada, além do hábito, assegura que o futuro se pareça com o passado. Hume não nega que a indução funcione na prática; nega que ela seja demonstrativamente necessária.
- Lei científica: enunciado universal — vale para todos os casos, em todo tempo e lugar. É exatamente o tipo de afirmação que a indução pretende produzir e que a crítica de Hume desestabiliza.
- Qualidades sensíveis e poderes ocultos: o par que organiza o exemplo do pão. As qualidades sensíveis são o que se vê, cheira e toca; os poderes ocultos são as propriedades que produzem o efeito, como alimentar. A pergunta de Hume é por que a repetição das primeiras garantiria a permanência dos segundos.
- Necessidade lógica: relação em que a conclusão não pode ser falsa se as premissas forem verdadeiras. Hume fecha o texto negando justamente isso: "a consequência não parece de nenhum modo necessária".
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1: "a experiência passada dá somente uma informação direta e segura sobre determinados objetos em determinados períodos do tempo, dos quais ela teve conhecimento" → o alcance da experiência é limitado no espaço e no tempo. Ela é segura, mas só sobre o que já foi observado. Repare que Hume concede: a informação é "direta e segura".
- Evidência 2: "por que esta experiência tem de ser estendida a tempos futuros e a outros objetos" → esta é a pergunta central. O problema não está em observar, está em estender o observado ao não observado.
- Evidência 3: "O pão que outrora comi alimentou-me (...) Mas, segue-se daí que este outro pão deve também alimentar-me como ocorreu na outra vez?" → o exemplo concreto do salto indutivo. Um caso passado, uma pretensão sobre um caso futuro, e a distância entre os dois.
- Evidência 4: "qualidades sensíveis semelhantes devem sempre ser acompanhadas de poderes ocultos semelhantes?" → a palavra decisiva é sempre. É a universalidade da lei que está em xeque, não a observação de um caso.
- Evidência 5: "A consequência não parece de nenhum modo necessária" → Hume diz "não necessária", e não "falsa" nem "impossível". A conclusão indutiva continua provável e útil; o que ela perde é a garantia lógica.
- Síntese: o texto expõe que enunciados universais não podem ser deduzidos de um número finito de observações. A experiência continua sendo a base da ciência — só não é uma base que demonstre.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Reconstruir o argumento de Hume em três passos
- Passo 1: só conheço diretamente os casos que observei, no tempo e no lugar em que os observei.
- Passo 2: uma lei científica afirma algo sobre todos os casos, inclusive os que não observei e os que ainda não aconteceram.
- Passo 3: nada garante a passagem do passo 1 para o passo 2 — nenhuma contradição surge ao supor que o próximo pão não alimente.
Conclusão de Hume: o salto existe, é praticado o tempo todo e não tem justificação demonstrativa.
4.2 — Identificar exatamente o que o argumento atinge
Este é o ponto que decide a questão. O argumento atinge a fundamentação das leis universais na base empírica. Ele não atinge:
- a confiabilidade da observação em si — Hume chama a informação da experiência de "direta e segura";
- a utilidade prática da indução — continuamos comendo pão;
- a existência da ciência — que segue funcionando, apenas sem a garantia lógica que se imaginava ter.
Ou seja: sobra uma dificuldade, não uma demolição.
4.3 — Traduzir a conclusão para o vocabulário das alternativas
"Leis científicas" são os enunciados universais. "Bases empíricas" são os casos observados. Dizer que não há como deduzir os primeiros dos segundos é dizer, em uma frase, que há dificuldade de fundamentar as leis científicas em bases empíricas. É a formulação escolar do problema da indução.
4.4 — Verificação
Teste o alcance de cada alternativa contra a última frase de Hume: "a consequência não parece de nenhum modo necessária". Quem afirma que a experiência é inviável para a ciência diz mais do que isso. Quem afirma que há correspondência entre singulares e universais diz o contrário disso. A alternativa correta é a que diz exatamente isso: existe uma lacuna, e ela é um problema. Gabarito: C.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
❌ (A) universabilidade do conjunto das proposições de observação — Afirma o oposto do texto. Proposições de observação são singulares por natureza — relatam um caso, num tempo, num lugar. O argumento de Hume existe precisamente porque elas não se universalizam sozinhas. A alternativa toma como conclusão aquilo que o texto põe em dúvida.
❌ (B) normatividade das teorias científicas que se valem da experiência — Desloca o problema do plano do conhecimento para o plano da norma. Normatividade seria a capacidade de a teoria prescrever como as coisas devem ser. O texto não discute prescrição; discute se um enunciado sobre todos os casos pode ser extraído de alguns casos. Assunto trocado.
✅ (C) dificuldade de se fundamentar as leis científicas em bases empíricas — É a formulação exata do problema da indução. As leis são universais — valem "sempre", como Hume escreve; as bases empíricas são finitas, limitadas aos "determinados objetos em determinados períodos do tempo". Entre um conjunto finito de observações e um enunciado universal há um salto que a experiência não preenche, e é por isso que a consequência "não parece de nenhum modo necessária". A palavra "dificuldade" mede bem o alcance: um obstáculo de fundamentação, não uma impossibilidade da ciência.
❌ (D) inviabilidade de se considerar a experiência na construção da ciência — Radicaliza a conclusão e trai o empirismo do próprio Hume. Ele abre o texto reconhecendo que a experiência dá "uma informação direta e segura" sobre o que foi observado. Descartar a experiência seria abandonar a única fonte de conhecimento que ele admite. É o distrator mais forte: acerta o tom crítico e erra a dose.
❌ (E) correspondência entre afirmações singulares e afirmações universais — Nomeia com precisão o problema e depois afirma que ele está resolvido. Se houvesse correspondência garantida entre o singular ("este pão me alimentou") e o universal ("todo pão alimenta"), não haveria texto de Hume. A alternativa é a negação da tese.
Gabarito: C — o problema da indução mostra que enunciados universais não se deduzem de um número finito de observações, o que deixa as leis científicas sem fundamentação puramente empírica.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só C se sustenta: A e E afirmam que o salto indutivo é legítimo, exatamente o que o texto nega; B troca o tema; D exagera a conclusão a ponto de contradizer o empirismo do autor. C mede a dose certa.
- Como o ENEM cobra isso: Hume aparece quase sempre pelo exemplo do pão, do sol que nasce ou do bilhar. O comando pede "a consequência", "a crítica" ou "o problema", e a resposta é sempre alguma reformulação da lacuna entre observação particular e lei universal.
- A regra geral: em questão de filosofia, o erro mais comum não é errar o tema, é errar a dose. Ceticismo sobre a fundamentação não é negação da ciência. Guarde o par: Hume aponta uma dificuldade, não uma inviabilidade.
- Eliminação em 30 segundos: risque toda alternativa que afirme que o particular garante o universal — aqui, A e E caem juntas. Depois risque a que usar palavra de negação total, como "inviabilidade". Sobra uma.
- Temas que costumam vir junto: empirismo de Locke e Berkeley, racionalismo de Descartes, o falsificacionismo de Popper como resposta ao problema da indução e o Círculo de Viena.
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