Mapa de questões · 1º dia
Questão 42 — ENEM 2016 Reaplicação
“Fundamos, como afirmam alguns cientistas, o antropoceno: uma nova era geológica com altíssimo poder de destruição, fruto dos últimos séculos que significaram um transtorno perverso do equilíbrio do sistema-Terra. Como enfrentar esta nova situação nunca ocorrida antes de forma globalizada e profunda? Temos pessoalmente trabalhado os paradigmas da sustentabilidade e do cuidado como relação amigável e cooperativa para com a natureza. Queremos, agora, agregar a ética da responsabilidade.
BOFF, L. Responsabilidade coletiva. Disponível em: http://leonardoboff.wordpress.com.
Acesso em: 14 maio 2013.
A ética da responsabilidade protagonizada pelo filósofo alemão Hans Jonas e reivindicada no texto é expressa pela máxima:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Ética contemporânea (Hans Jonas) e principais correntes éticas clássicas (Kant, Habermas, Utilitarismo, ética finalista)
- ⚡ Nível: Difícil — a questão condensa cinco teorias éticas sofisticadas em frases curtas, sem citar os nomes dos autores, exigindo reconhecimento do conteúdo filosófico por trás de cada máxima.
- 🎯 Tema/Habilidade: Ética da responsabilidade de Hans Jonas aplicada à crise ambiental do Antropoceno; competência de área ligada à análise de textos filosóficos sobre ética, tecnologia e sustentabilidade.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual máxima expressa a ética da responsabilidade de Hans Jonas, mencionada no texto de Leonardo Boff sobre o Antropoceno?"
- Palavras-chave decisivas: ética da responsabilidade, Hans Jonas, reinvindicada no texto
- Armadilha típica: confundir a ética da responsabilidade com o imperativo categórico kantiano (alternativa A), já que ambas usam a estrutura "que a tua ação..."; ou confundi-la com o utilitarismo (alternativa C), pois ambas tratam de consequências da ação.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar a única formulação que projeta o dever moral para o futuro — para gerações que ainda não existem — e não apenas para a universalização lógica da norma, o consenso discursivo, a maximização do prazer presente ou a eficácia dos meios empregados.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Antropoceno: era geológica em que a ação humana se torna a principal força de transformação do planeta, com efeitos profundos, globais e muitas vezes irreversíveis sobre o sistema-Terra — é o pano de fundo que justifica a necessidade de uma nova ética.
- Ética da responsabilidade (Hans Jonas): filósofo alemão que, na obra O Princípio Responsabilidade (1979), propôs um novo imperativo moral adequado à era tecnológica, ampliando o dever ético às gerações futuras diante do poder de destruição alcançado pela técnica humana.
- Imperativo categórico (Kant): ética formal e universalista — a ação é correta se sua máxima puder valer como lei universal para todos os seres racionais, sem referência a consequências futuras concretas.
- Ética do discurso (Habermas): a validade de uma norma depende do consenso obtido por todos os afetados através do diálogo racional (ação comunicativa), não de uma decisão individual ou de um cálculo de consequências.
- Utilitarismo (Bentham/Mill): consequencialismo hedonista — a ação correta é aquela que maximiza a felicidade do maior número de pessoas, com foco no bem-estar agregado presente.
- Ética finalista/instrumental ("os fins justificam os meios"): tradição associada ao realismo político de Maquiavel — legitima qualquer meio desde que a finalidade pretendida seja alcançada, sem compromisso moral com efeitos futuros não intencionais.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o Antropoceno: uma nova era geológica com altíssimo poder de destruição, fruto dos últimos séculos" → mostra que o texto trata da crise ambiental provocada pela ação humana em escala geológica, um cenário inédito que exige uma ética voltada para o porvir, não apenas para o presente.
- Evidência 2: "temos trabalhado os paradigmas da sustentabilidade e do cuidado (...) queremos, agora, agregar a ética da responsabilidade" → Leonardo Boff nomeia explicitamente a "ética da responsabilidade" como um paradigma adicional aos de sustentabilidade e cuidado, remetendo diretamente ao conceito cunhado por Hans Jonas.
- Evidência 3 (comando da questão): "protagonizada pelo filósofo alemão Hans Jonas e reivindicada no texto" → a questão exige conhecimento específico da formulação central de Jonas, não apenas da ideia genérica de "responsabilidade".
- Síntese: a alternativa correta precisa traduzir o núcleo do pensamento de Jonas — o dever de agir de modo que os efeitos da ação humana não comprometam a possibilidade de vida das gerações futuras — e não qualquer outra fórmula ética (universalização, consenso, maximização do prazer ou eficácia dos meios).
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o autor e o contexto do conceito
Hans Jonas (1903–1993), filósofo alemão, escreveu Das Prinzip Verantwortung em resposta aos riscos inéditos criados pela tecnologia moderna — energia nuclear, biotecnologia, degradação ambiental em escala planetária. Pela primeira vez na história, a humanidade adquiriu o poder de destruir irreversivelmente as condições de vida futura na Terra. Diante disso, Jonas considerou insuficientes as éticas tradicionais, voltadas para relações entre contemporâneos, e propôs uma ética que reformula o imperativo categórico kantiano para a era técnica.
Subpasso 4.2 — Reconhecer a fórmula do imperativo de Jonas
A formulação clássica de Jonas é: "Age de tal maneira que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica sobre a Terra" — ou, em sua versão negativa (mais citada): que os efeitos da ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura dessa vida. Três elementos definem essa ética: (1) o foco está nos efeitos/consequências da ação, não apenas na intenção; (2) o horizonte moral se estende às gerações futuras, que não podem consentir nem reivindicar direitos hoje; (3) o objetivo é preservar a possibilidade da vida, não maximizar o bem-estar presente.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa estrutura com as cinco alternativas, apenas uma reúne simultaneamente os três elementos — efeito da ação, projeção para o futuro e menção às novas gerações. Essa é a alternativa que expressa corretamente a ética da responsabilidade reivindicada por Boff.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) "A tua ação possa valer como norma para todos os homens."
❌ Incorreta: é uma paráfrase do imperativo categórico de Kant (universalizabilidade da máxima) — uma ética formal e deontológica, preocupada com a coerência lógica da norma entre os seres racionais existentes agora, sem qualquer referência a consequências futuras ou a gerações ainda não nascidas.
B) "A norma aceita por todos advenha da ação comunicativa e do discurso."
❌ Incorreta: reproduz a ética do discurso de Habermas, em que a legitimidade da norma nasce do consenso obtido por interlocutores presentes, capazes de dialogar. As gerações futuras, porém, não podem participar desse discurso — exatamente o problema que a ética de Jonas busca resolver, e que esta alternativa não contempla.
C) "A tua ação possa produzir a máxima felicidade para a maioria das pessoas."
❌ Incorreta: é o princípio utilitarista clássico (Bentham/Mill) — consequencialista, mas voltado à maximização do bem-estar agregado da maioria no presente, um cálculo quantitativo de prazer alheio à preocupação ontológica de Jonas com a sobrevivência da própria humanidade no futuro.
D) "O teu agir almeje alcançar determinados fins que possam justificar os meios."
❌ Incorreta: expressa a lógica instrumental e finalista historicamente associada ao realismo político ("os fins justificam os meios") — subordina a legitimidade dos meios à obtenção de um resultado, sem nenhuma restrição ética ligada a efeitos futuros não intencionais. É justamente esse tipo de racionalidade puramente técnica que Jonas denuncia como insuficiente diante do poder destrutivo da era tecnológica.
E) "O efeito de tuas ações não destrua a possibilidade futura da vida das novas gerações."
✅ Correta: reproduz, em sua essência, o novo imperativo categórico de Hans Jonas, que desloca o centro da ética das intenções e do presente para a preservação da própria possibilidade de vida futura. É exatamente a resposta filosófica ao alerta de Boff sobre o Antropoceno — agregar a "ética da responsabilidade" aos paradigmas de sustentabilidade e cuidado diante do poder de destruição herdado dos últimos séculos.
🏆 Gabarito: E — apenas essa alternativa articula os três pilares do pensamento de Jonas: foco nos efeitos da ação, projeção para o futuro e compromisso explícito com as gerações que ainda virão.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra E é a única que menciona simultaneamente "efeito das ações", "possibilidade futura" e "novas gerações" — a assinatura conceitual do imperativo de Hans Jonas, distinta de todas as demais tradições éticas apresentadas.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma testar correntes éticas clássicas (Kant, utilitarismo, contratualismo) aplicadas a textos contemporâneos sobre meio ambiente, tecnologia, bioética ou direitos humanos; Hans Jonas aparece recorrentemente quando o tema é crise ambiental ou riscos da tecnologia moderna.
- Generalização: sempre que um texto tratar de crise ambiental, riscos tecnológicos ou justiça intergeracional, procure a alternativa que fale em "efeitos futuros", "gerações futuras" ou "responsabilidade por aquilo que ainda não existe" — esse é o traço distintivo do pensamento de Jonas frente ao universalismo kantiano, ao consenso habermasiano e ao cálculo utilitarista.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato qualquer alternativa que fale em "norma para todos os homens" (Kant), "discurso"/"ação comunicativa" (Habermas) ou "felicidade da maioria" (utilitarismo) — nenhuma delas menciona o futuro ou as próximas gerações; a alternativa correta sobre Jonas sempre trará esse marcador temporal explícito.
- Conexões: Antropoceno e crise ambiental global; princípio da precaução na bioética; Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e justiça intergeracional.
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