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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 13ENEM 2016 Reaplicação

Os andróginos tentaram escalar o céu para combater os deuses. No entanto, os deuses em um primeiro momento pensam em matá-los de forma sumária. Depois decidem puni-los da forma mais cruel: dividem-nos em dois. Por exemplo, é como se pegássemos um ovo cozido e, com uma linha, dividíssemos ao meio. Desta forma, até hoje as metades separadas buscam reunir-se. Cada um com saudade de sua metade, tenta juntar-se novamente a ela, abraçando-se, enlaçando-se um ao outro, desejando formar um único ser.

PLATÃO. O banquete . São Paulo: Nova Cultural, 1987.

No trecho da obra O banquete , Platão explicita, por meio de uma alegoria, o

A EHPVXSUHPRFRPR¿PGRKRPHP B prazer perene como fundamento da felicidade. C ideal inteligível como transcendência desejada. D amor como falta constituinte do ser humano. E autoconhecimento como caminho da verdade.

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Antiga (Platão, o diálogo O Banquete)
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretar uma alegoria mítica e traduzi-la para um conceito filosófico abstrato
  • 🎯 Tema/Habilidade: O amor (eros) como carência em Platão; competência de leitura e interpretação de textos filosóficos-fonte
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que ideia filosófica sobre o amor o mito dos andróginos, narrado por Platão em O Banquete, está ilustrando por meio de uma alegoria?"
  • Palavras-chave decisivas: alegoria, explicita, metades buscam reunir-se
  • Armadilha típica: confundir o desejo de reunião das metades com busca por prazer (opção B) ou com a teoria platônica das Ideias/mundo inteligível (opção C), temas de outros mitos de Platão que não aparecem neste trecho específico
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de extrair, por trás da narrativa fantástica, a tese filosófica de que o desejo amoroso nasce de uma incompletude do ser humano

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • O Banquete (Symposium): diálogo de Platão estruturado como uma sequência de discursos em homenagem ao deus Eros, cada um oferecendo uma definição diferente do amor
  • Mito do andrógino (discurso de Aristófanes): narrativa segundo a qual os seres humanos primordiais eram duplos e autossuficientes; por punição divina, foram cortados ao meio e, desde então, cada metade busca reencontrar a outra
  • Eros como falta (carência): tese desenvolvida também no discurso de Diotima (relatado por Sócrates): Eros é filho de Poros (recurso) e Penia (pobreza), e por isso deseja sempre o que não possui — não se deseja aquilo que já se tem
  • Alegoria filosófica: recurso narrativo que Platão usa em vários diálogos (mito da caverna, mito de Er, carro alado do Fedro) para expor, de forma acessível, um conceito abstrato

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "os andróginos tentaram escalar o céu para combater os deuses" → mostra a autossuficiência e a hybris da condição original, completa e poderosa, que motiva o castigo
  • Evidência 2: "dividem-nos em dois... até hoje as metades separadas buscam reunir-se" → mostra que a divisão instaura uma ausência permanente; o movimento de "buscar reunir-se" é a própria definição alegórica do desejo
  • Síntese: a alegoria não descreve o amor como posse de algo que já se tem (prazer, saber, autoconhecimento), mas como o movimento de quem foi privado de algo e por isso deseja recuperá-lo — o amor nasce exatamente do que falta

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Situar o discurso dentro de O Banquete

O trecho reproduz o discurso de Aristófanes, um dos convidados que, no banquete em homenagem a Eros, propõe uma explicação mítica e um tanto cômica para a origem do amor. Antes da punição, os seres humanos eram andróginos: tinham dois rostos, quatro braços e quatro pernas, formando um todo fisicamente completo. Essa completude gerava força e ousadia excessivas, levando-os a desafiar os deuses — daí a punição de Zeus.

Subpasso 4.2 — Interpretar o efeito da divisão: a falta como origem do eros

Ao dividir cada andrógino ao meio ("como pegássemos um ovo cozido... e dividíssemos ao meio"), Zeus não elimina o desejo de completude — ao contrário, cria-o. Antes da separação não havia "falta" a ser preenchida, porque o ser era íntegro. Depois da separação, cada metade passa a ter saudade da outra e a buscá-la ativamente ("abraçando-se, enlaçando-se um ao outro, desejando formar um único ser"). Esse movimento de busca é, na leitura platônica, a própria estrutura do eros: amar é desejar aquilo que não se tem. A mesma ideia reaparece, de forma mais conceitual, no discurso de Diotima no mesmo diálogo — Eros não é um deus perfeito e autossuficiente, mas um intermediário entre a posse e a carência, sempre em busca do que lhe falta.

Subpasso 4.3 — Verificação

Voltando ao comando: a alegoria deve explicitar algo sobre o amor. Testando contra as alternativas, apenas a ideia de que o amor decorre de uma falta constitutiva do ser humano é compatível com o enredo — não há, no trecho, menção a prazer contínuo, a um mundo inteligível transcendente ou a autoconhecimento; há apenas a busca de uma metade perdida, ou seja, a falta movendo o desejo. Isso confirma a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) bem supremo como fim do homem.

❌ Incorreta: essa formulação remete à ética teleológica (o "bem supremo" ou a felicidade como fim último da ação humana), tema mais próximo de Aristóteles do que do mito narrado. O trecho não fala de um bem final a ser alcançado pela virtude, mas de uma busca de reunificação motivada por uma perda.

B) prazer perene como fundamento da felicidade.

❌ Incorreta: o mito não trata de hedoné (prazer) como base da felicidade humana. O que move as metades separadas é a saudade e o desejo de completude, não a busca por prazer contínuo — confundir os dois é a armadilha mais comum da questão.

C) ideal inteligível como transcendência desejada.

❌ Incorreta: "ideal inteligível" remete à teoria das Ideias/Formas platônicas, tema explorado em outros mitos (como o da caverna ou o carro alado do Fedro). No discurso de Aristófanes não há menção a um mundo inteligível transcendente: o objeto do desejo é concreto e humano — a própria metade perdida, não uma Ideia abstrata.

D) amor como falta constituinte do ser humano.

✅ Correta: o mito narra exatamente a origem do eros a partir de uma divisão que cria uma carência permanente. "Buscar reunir-se" é a metáfora perfeita para a tese platônica de que o amor nasce da falta — deseja-se o que não se tem, e por isso o ser humano é estruturalmente incompleto, movido pelo desejo de se completar.

E) autoconhecimento como caminho da verdade.

❌ Incorreta: o autoconhecimento ("conhece-te a ti mesmo") é tema socrático de outros diálogos platônicos, mas não é o que a alegoria do andrógino ilustra. O movimento descrito no texto é voltado para o outro (a metade separada), não para um mergulho introspectivo em si mesmo.

🏆 Gabarito: D — a alegoria do andrógino explicita que o amor humano nasce de uma falta constitutiva: a divisão do ser original cria uma carência permanente que move o desejo de reunião com a metade perdida.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa compatível com o enredo do mito, pois só ela identifica o núcleo da alegoria — o amor como resposta a uma falta, e não como posse de prazer, saber transcendente ou autoconhecimento.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa mitos filosóficos gregos (mito da caverna, mito de Er, carro alado, mito do andrógino) exigindo que o estudante extraia a tese filosófica escondida na narrativa, e não apenas reconheça a história em si.
  • Generalização: em questões sobre alegorias filosóficas, ignore os detalhes fantásticos (deuses, punições, transformações) e pergunte-se "que conceito abstrato essa história está tentando explicar?" — geralmente é essa tradução conceitual que a alternativa correta expressa.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa que mencione elementos ausentes do trecho — "prazer" (B) e "autoconhecimento" (E) não aparecem na narrativa; "ideal inteligível" (C) pressupõe um vocabulário metafísico (Ideias, transcendência) que também não está no texto. Sobra a alternativa que fala em falta/carência, coerente com "buscar reunir-se".
  • Conexões: discurso de Diotima sobre Eros como filho de Poros e Penia (mesmo diálogo); mito da caverna (relação entre conhecimento e realidade); ética aristotélica da felicidade como fim último — útil para diferenciar de A.

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