Mapa de questões · 2º dia
Questão 111 — ENEM 2010 PPLCaderno azul · 2º Dia
Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo. Tinha uma asa de frango no prato, e trincava-a com filosófica serenidade. Eu fiz-lhe ainda algumas objeções, mas tão frouxas, que ele não gastou muito tempo em destruí-las.
— Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executadas com o único fim de dar mate ao meu apetite.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliense, 1975.
A filosofia de Quincas Borba — a Humanitas — contém princípios que, conforme a explanação do personagem, consideram a cooperação entre as pessoas uma forma de
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Machado de Assis
- ⚡ Nível: Médio — o Humanitismo justifica o egoísmo.
- 🎯 Tema/Habilidade: A filosofia de Quincas Borba.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após a resolução completa
🔎 Passo 1 — O que a questão pede
- Comando: o que o sistema de Quincas Borba sustenta.
- Estrutura da questão: ele explica sua filosofia enquanto come uma asa de frango com serenidade.
- Armadilha antecipada: ler o sistema como defesa do bem coletivo. Ele justifica exatamente o oposto.
📚 Passo 2 — O conceito em jogo
O Humanitismo, sistema inventado por Quincas Borba, afirma que a guerra e a destruição do outro são movimentos naturais do princípio universal.
Sua fórmula célebre — ao vencedor, as batatas — converte a vitória do mais forte em lei natural.
A ironia machadiana está em que a filosofia serve, na prática, para justificar o interesse próprio como necessidade cósmica.
🧮 Passo 4 — O caminho até a resposta
Observe a cena: ele expõe o sistema enquanto se serve com serenidade.
Observe o conteúdo: a guerra e a destruição do outro como manifestações do princípio universal.
O sistema sustenta o atendimento a interesses pessoais — alternativa B.
🔍 Passo 5 — Análise das Alternativas
- A) ✗ Incorreta. O sistema justifica o interesse próprio, e não a luta pelo bem coletivo.
- B) ✓ Correta. O Humanitismo converte o interesse próprio e a vitória sobre o outro em lei natural.
- C) ✗ Incorreta. A filosofia naturaliza a desigualdade em vez de combatê-la.
- D) ✗ Incorreta. O sistema não busca minimizar diferenças entre os indivíduos.
- E) ✗ Incorreta. Não há proposta de vínculos sociais profundos na filosofia apresentada.
🏁 Passo 6 — O que levar dessa questão
Ao vencedor, as batatas. O sistema inteiro serve para justificar isso.
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