Mapa de questões · 1º dia
Questão 63 — ENEM 2020Caderno azul · 1º Dia
Desde o mundo antigo e sua filosofia, que o trabalho
tem sido compreendido como expressão de vida e
degradação, criação e infelicidade, atividade vital e
escravidão, felicidade social e servidão. Trabalho e
fadiga. Na Modernidade, sob o comando do mundo da
mercadoria e do dinheiro, a prevalência do negócio (negar
o ócio) veio sepultar o império do repouso, da folga e da
preguiça, criando uma ética positiva do trabalho.
ANTUNES, R. O século XX e a era da degradação do trabalho. In: SILVA, J. P. (Org.).
Por uma sociologia do século XX. São Paulo: Annablume, 2007 (adaptado).
O processo de ressignificação do trabalho nas sociedades
modernas teve início a partir do surgimento de uma nova
mentalidade, influenciada pela
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → sociologia do trabalho e as origens da ética do trabalho na Modernidade
- ⚡ Nível: Médio — exige associar a "ética positiva do trabalho" a um processo histórico-religioso específico, sem cair em armadilhas anacrônicas.
- 🎯 Tema/Habilidade: Ressignificação cultural do trabalho na transição para o mundo moderno (relação entre valores religiosos e ordem econômica).
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual nova mentalidade fez o trabalho deixar de ser visto como castigo e passar a ser valorizado positivamente nas sociedades modernas?"
- Palavras-chave decisivas: ressignificação do trabalho, sociedades modernas / Modernidade, nova mentalidade, ética positiva do trabalho
- Armadilha típica: confundir a origem cultural/valorativa do trabalho (o que a questão pede) com conquistas trabalhistas posteriores (sindicalismo, higienismo, luta das mulheres), que reagem às condições do trabalho, mas não criam a mentalidade de valorização dele.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar o movimento que, no início da Modernidade, transformou o trabalho em valor moral positivo e sinal de virtude.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ética do trabalho: conjunto de valores que atribui ao trabalho um sentido moral positivo — disciplina, dever e vocação —, em oposição à visão antiga do trabalho como fardo ou punição.
- Reforma Protestante (séc. XVI): movimento religioso liderado por Lutero e Calvino que, ao romper com o catolicismo, reconfigurou a relação entre fé e vida cotidiana, dignificando as atividades laborais mundanas.
- Ética protestante e "espírito do capitalismo" (Max Weber): tese clássica segundo a qual o ascetismo protestante — sobretudo calvinista — tratou o trabalho metódico e a poupança como sinais de graça divina, criando uma mentalidade favorável à acumulação e à disciplina do trabalho.
- Secularização: processo pelo qual valores antes religiosos passam a orientar a vida social e econômica de forma "mundana", como sugere o próprio enunciado ("mundo da mercadoria e do dinheiro").
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Na Modernidade, sob o comando do mundo da mercadoria e do dinheiro" → situa a mudança no início do mundo moderno, não na Antiguidade nem no século XX.
- Evidência 2: "a prevalência do negócio (negar o ócio) veio sepultar o império do repouso... criando uma ética positiva do trabalho" → o eixo é a criação de uma nova valoração moral do trabalho — trabalho como virtude e dever.
- Síntese: a questão pede a matriz cultural que produziu essa ética positiva; historicamente, é a Reforma Protestante que, ao valorizar o trabalho como vocação num mundo em secularização, funda essa mentalidade — exatamente a tese weberiana.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a virada de sentido
No mundo antigo e medieval predominava a ideia do trabalho como fadiga, castigo ou atividade inferior (o ócio contemplativo era mais valorizado). O enunciado marca a ruptura: na Modernidade surge uma "ética positiva do trabalho". Precisamos achar a origem dessa virada.
Subpasso 4.2 — Ligar à Reforma Protestante e a Weber
A Reforma Protestante (séc. XVI) compreendeu o trabalho como vocação (Beruf) e caminho de realização da fé no mundo secular. O calvinismo, ao ver o sucesso no trabalho e a disciplina como possíveis sinais de salvação, transformou o labor cotidiano em dever moral. Max Weber sistematizou isso em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo": foi esse ethos religioso, depois secularizado, que forneceu a mentalidade favorável ao trabalho metódico do mundo moderno da mercadoria.
Subpasso 4.3 — Verificação
A alternativa B afirma que a Reforma Protestante "expressou a importância das atividades laborais no mundo secularizado" — casa perfeitamente com "ética positiva do trabalho" + "mundo da mercadoria e do dinheiro" (secularização). Confirmado.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) reforma higienista, que combateu o caráter excessivo e insalubre do trabalho fabril.
❌ Incorreta: o higienismo (séc. XIX-XX) reage às condições insalubres do trabalho industrial; não cria a mentalidade de valorização moral do trabalho, que é anterior e é o que a questão pede.
B) Reforma Protestante, que expressou a importância das atividades laborais no mundo secularizado.
✅ Correta: a Reforma dignificou o trabalho como vocação e dever, fundando a "ética positiva do trabalho" moderna — precisamente a tese de Max Weber sobre ética protestante e espírito do capitalismo.
C) força do sindicalismo, que emergiu no esteio do anarquismo reivindicando direitos trabalhistas.
❌ Incorreta: o sindicalismo luta por direitos dentro de uma ordem de trabalho já valorizada; é consequência, não causa, da ressignificação. Além disso, é bem posterior (séc. XIX).
D) participação das mulheres em movimentos sociais, defendendo o direito ao trabalho.
❌ Incorreta: trata da inclusão de um grupo no mercado de trabalho, tema do séc. XIX-XX, e não da origem da mentalidade que tornou o trabalho um valor positivo na Modernidade.
E) visão do catolicismo, que, desde a Idade Média, defendia a dignidade do trabalho e do lucro.
❌ Incorreta: dupla imprecisão — o catolicismo medieval não exaltava o trabalho manual como virtude central (valorizava a vida contemplativa) e condenava o lucro/usura; foi justamente a ruptura protestante que reorientou esses valores.
🏆 Gabarito: B — a ressignificação positiva do trabalho na Modernidade nasce da mentalidade inaugurada pela Reforma Protestante, que dignificou o labor como vocação num mundo em processo de secularização.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a Reforma Protestante explica a criação da ética positiva do trabalho no início da Modernidade; as demais tratam de reações posteriores ou distorcem a posição da Igreja medieval.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente a relação Weber ↔ ética protestante ↔ espírito do capitalismo, muitas vezes via texto de sociologia do trabalho.
- Generalização: quando o comando pede a origem de uma mentalidade/valor na Modernidade e cita trabalho + capitalismo, pense em Weber e na Reforma Protestante.
- Dica de eliminação rápida: corte tudo que for do séc. XIX-XX (higienismo, sindicalismo, movimentos de mulheres) — são reações às condições do trabalho, não a origem de seu valor; e desconfie de "catolicismo defendendo o lucro", que contradiz a história.
- Conexões: secularização (Weber), disciplina e racionalização do trabalho, divisão social do trabalho (Durkheim) e alienação (Marx).
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.