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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 34ENEM 2020Caderno azul · 1º Dia

A vida às vezes é como um jogo brincado na rua:

estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente

e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um

mais velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na

hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente

— nunca ninguém nos avisou que aquele era mesmo o

último Carnaval da Vitória. O Carnaval também chegava

sempre de repente. Nós, as crianças, vivíamos num tempo

fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de

verdade. [...] O “dia da véspera do Carnaval”, como dizia

a avó Nhé, era dia de confusão com roupas e pinturas a

serem preparadas, sonhadas e inventadas. Mas quando

acontecia era um dia rápido, porque os dias mágicos

passam depressa deixando marcas fundas na nossa

memória, que alguns chamam também de coração.

ONDJAKI. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.

As significações afetivas engendradas no fragmento

pressupõem o reconhecimento da

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → foco narrativo e construção da voz do narrador
  • ⚡ Nível: Médio — a interpretação é acessível, mas as alternativas usam metalinguagem literária que confunde o candidato apressado.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento do ponto de vista narrativo e dos efeitos afetivos que ele produz (H15/H16 — relacionar recursos de linguagem aos sentidos do texto).
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que reconhecimento textual é a base (o pressuposto) das emoções despertadas pelo fragmento?"
  • Palavras-chave decisivas: significações afetivas, engendradas (geradas), pressupõem o reconhecimento.
  • Armadilha típica: confundir a causa do afeto (quem narra, e de que lugar) com consequências ou temas do texto (a memória, o tempo, a infância como assunto). A questão pergunta pela origem estruturante da emoção, não pelo tema.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a carga emotiva nasce do modo como o texto é enunciado — de uma voz que enxerga o mundo com olhos de criança.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Foco/voz narrativa: é a instância que conta a história e o ponto de vista de onde ela é contada. A escolha desse "lugar de fala" molda o tom afetivo de tudo o que é narrado.
  • Perspectiva infantil: quando o adulto que escreve recupera e assume a lógica, o vocabulário e a percepção de mundo da criança que foi. Gera ternura, encantamento e um olhar mágico sobre o cotidiano.
  • Efeito afetivo (pathos): emoção provocada no leitor. Aqui ela decorre diretamente da inocência e do espanto com que a voz narrativa vê a vida, o Carnaval e o tempo.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "A vida às vezes é como um jogo brincado na rua" → o parâmetro para compreender a existência é a brincadeira: a criança é a medida do mundo.
  • Evidência 2: "Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo" → o pronome "nós" inclui o narrador entre as crianças; ele fala de dentro dessa experiência, não de fora.
  • Síntese: os detalhes ternos — a avó Nhé, o "dia da véspera do Carnaval", as roupas "sonhadas e inventadas", os "dias mágicos" — só comovem porque são filtrados por um olhar que ainda pertence (ou volta a pertencer) à infância. A emoção está ancorada nesse ponto de vista.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar de onde parte a emoção

O texto trata da fugacidade da vida ("acontece muito de repente") e da força da memória ("marcas fundas... que alguns chamam também de coração"). Mas nada disso comoveria se fosse relatado por um observador neutro. O que enternece é o jeito de ver: comparar a morte/o fim a um adulto que interrompe a brincadeira e chama para jantar é uma metáfora tipicamente infantil.

Subpasso 4.2 — Confirmar a assunção da voz da criança

O narrador se coloca dentro do grupo ("Nós, as crianças, vivíamos"), reproduz expressões da própria infância ("o dia da véspera do Carnaval", "avó Nhé") e adota a percepção mágica de quem não conhece "os calendários de verdade". Ou seja, a voz narrativa assume a perspectiva infantil — e é justamente isso que engendra as significações afetivas.

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando a alternativa A: as emoções pressupõem o reconhecimento de que o texto é dito por uma voz que vê o mundo como criança? Sim — retire esse olhar e o encanto desaparece. A relação de causa (perspectiva infantil → afeto) é exatamente a que o comando pede. Confirma-se A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) perspectiva infantil assumida pela voz narrativa.

✅ Correta: a ternura e o encantamento nascem do ponto de vista da criança que o narrador assume ("Nós, as crianças..."; a vida como brincadeira; o tempo "fora do tempo"). É a perspectiva que gera o afeto.

B) suspensão da linearidade temporal da narração.

❌ Incorreta: embora haja um "tempo fora do tempo", o texto não rompe a cronologia com saltos ou embaralhamento narrativo (não há técnica como o fluxo de consciência estruturando quebras). Além disso, mesmo que houvesse, não seria isso que produz o afeto — o comando pede a causa emotiva, e ela é o olhar infantil.

C) tentativa de materializar lembranças da infância.

❌ Incorreta: "materializar" (tornar concreto, palpável) não descreve o procedimento; o texto evoca e sente as lembranças, não busca dar-lhes forma material. O afeto vem do modo de ver, não de uma concretização de memórias.

D) incidência da memória sobre as imagens narradas.

❌ Incorreta: a memória é o tema/assunto do fragmento, não o pressuposto do afeto. Confundir o que o texto fala (memória) com o que o comove (a voz infantil) é a armadilha central da questão.

E) alternância entre impressões subjetivas e relatos factuais.

❌ Incorreta: não há oscilação entre subjetivo e factual — o texto é homogeneamente subjetivo e lírico, sustentado o tempo todo pelo olhar da criança. Não existe polo factual com que alternar.

🏆 Gabarito: A — as significações afetivas do fragmento pressupõem reconhecer que a voz narrativa adota a perspectiva infantil, e é esse olhar de criança que carrega tudo de ternura, magia e emoção.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só A aponta a causa do efeito afetivo (o ponto de vista infantil assumido pelo narrador). As demais confundem tema (memória), técnica inexistente (quebra temporal, alternância) ou verbo impróprio (materializar).
  • Padrão de cobrança: o ENEM adora perguntar pela relação entre um recurso de linguagem (aqui, o foco narrativo) e o efeito de sentido que ele produz — não pelo tema do texto.
  • Generalização: quando o comando falar em "efeito", "afetividade" ou "tom" de um texto literário, procure o como se conta (voz, ponto de vista, escolhas lexicais), não o o quê se conta.
  • Dica de eliminação rápida: corte de imediato a alternativa que apenas nomeia o assunto (D, "memória") e as que exigem uma técnica ausente no trecho (B, quebra temporal; E, alternância factual). Sobra o par afeto ⇄ olhar de criança.
  • Conexões: literatura de memória e infância (Manuel Bandeira, Graciliano Ramos em Infância); noção de foco narrativo em 1ª pessoa; lirismo na prosa memorialística de língua portuguesa (Ondjaki, autor angolano).

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