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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 45ENEM 2020Caderno azul · 1º Dia

Viajo Curitiba das conferências positivistas, elas

são onze em Curitiba, há treze no mundo inteiro; do

tocador de realejo que não roda a manivela desde que

o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que

passam chispando no carro vermelho atrás do incêndio

que ninguém não viu, esta Curitiba e a do cachorro-quente

com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo.

Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidadão

misterioso morreu nos braços da Rosicler, quem foi?

quem não foi? foi o reizinho do Sião; da Ponte Preta da

estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo, esta

Curitiba viajo.

Curitiba sem pinheiro ou céu azul, pelo que vosmecê

é — província, cárcere, lar —, esta Curitiba, e não a outra

para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.

TREVISAN, D. Em busca de Curitiba perdida. Rio de Janeiro: Record, 1992.

A tematização de Curitiba é frequente na obra de Dalton

Trevisan. No fragmento, a relação do narrador com o

espaço urbano é caracterizada por um olhar

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Modernismo brasileiro / prosa de Dalton Trevisan; leitura de recursos expressivos e ponto de vista narrativo
  • ⚡ Nível: Médio — o vocabulário é acessível, mas o acerto depende de captar o tom crítico por trás das imagens da cidade.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Relação narrador × espaço urbano; H16/H18 (reconhecer efeitos de sentido e a visão de mundo em textos literários).
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que tipo de olhar o narrador lança sobre Curitiba no fragmento?"
  • Palavras-chave decisivas: relação do narrador com o espaço urbano, olhar, caracterizada por
  • Armadilha típica: confundir o tom crítico/irônico com pura melancolia (C) ou com ausência de afeto (A) — o texto termina justamente com "com amor eu viajo".
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o narrador constrói a cidade pela via da negação, recusando a imagem oficial e idealizada dela.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Ponto de vista narrativo: é a posição afetiva e ideológica de quem narra; aqui, um "eu" implicado que ama a cidade real, não a de vitrine.
  • Construção por negação: técnica em que o objeto é definido pelo que ele NÃO é ("Curitiba sem pinheiro ou céu azul", "não a outra para inglês ver"), desmontando o clichê.
  • Dalton Trevisan: o "Vampiro de Curitiba" retrata a cidade em seu avesso — o cotidiano prosaico, marginal e decadente, contra o cartão-postal turístico.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Curitiba sem pinheiro ou céu azul" → nega os símbolos-clichê (o pinheiro-araucária, o céu) que compõem o cartão-postal.
  • Evidência 2: "esta Curitiba, e não a outra para inglês ver" → rejeita explicitamente a versão idealizada/fachada da cidade, elegendo a real.
  • Síntese: o narrador percorre imagens prosaicas e decadentes (realejo parado, ponte "sem rio por baixo", cachorro-quente no Buraco do Tatu) para afirmar, por contraste, a cidade autêntica — um olhar que opera pela negatividade para desconstruir a representação habitual.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o mecanismo dominante

O texto é organizado por uma sequência de negações e de imagens do avesso: o realejo "que não roda a manivela", o incêndio "que ninguém não viu", a ponte "sem rio por baixo", a Curitiba "sem pinheiro ou céu azul". Cada elemento nega uma expectativa ou um símbolo consagrado.

Subpasso 4.2 — Ligar o mecanismo à intenção

Ao final, o narrador explicita a escolha: "esta Curitiba, e não a outra para inglês ver". Ou seja, ele desconstrói a representação turística/oficial para afirmar a cidade concreta. O olhar é marcado pela negatividade — mas negatividade produtiva, que serve para desmontar perspectivas habituais.

Subpasso 4.3 — Verificação

O afeto existe ("com amor eu viajo, viajo, viajo"), o que elimina leituras de frieza (A) ou de puro distanciamento (E). Não há constatação de "falta de identidade" (C): pelo contrário, a identidade real é reafirmada. O conjunto converge para a alternativa que fala em negatividade + desconstrução da representação: B.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) destituído de afetividade, que ironiza os costumes e as tradições da sociedade curitibana.

❌ Incorreta: há afeto explícito ("com amor eu viajo"); o olhar não é "destituído de afetividade", e o foco não é ironizar costumes, mas negar a imagem oficial da cidade.

B) marcado pela negatividade, que busca desconstruir perspectivas habituais de representação da cidade.

✅ Correta: a sucessão de negações ("sem pinheiro", "não roda a manivela", "não a outra para inglês ver") desmonta o cartão-postal e propõe a Curitiba real.

C) carregado de melancolia, que constata a falta de identidade cultural diante dos impactos da urbanização.

❌ Incorreta: o texto não trata de perda de identidade nem de impactos da urbanização; ao contrário, afirma uma identidade concreta e amada da cidade.

D) embevecido pela simplicidade do cenário, indiferente à descrição de elementos de reconhecido valor histórico.

❌ Incorreta: o narrador não é "indiferente" a elementos históricos — ele os cita e ressignifica (as conferências, a Ponte Preta), e o tom não é de embevecimento ingênuo.

E) distanciado dos elementos narrados, que recorre ao ponto de vista do viajante como expressão de estranhamento.

❌ Incorreta: o "viajo" indica adesão afetiva e envolvimento, não distanciamento; o narrador está implicado ("pelo que vosmecê é — província, cárcere, lar"), não estranho ao objeto.

🏆 Gabarito: B — o olhar do narrador é construído pela negatividade, negando símbolos e a versão oficial de Curitiba para desconstruir a representação habitual da cidade.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só B concilia os dois traços do texto — a estrutura de negação e a intenção de recusar a "Curitiba para inglês ver".
  • Padrão de cobrança: o ENEM adora perguntar sobre a "visão de mundo" ou o "olhar" do narrador; a resposta certa quase nunca é a mais óbvia/emocional.
  • Generalização: quando o texto se organiza por negações e contrastes, procure a alternativa que fale em desconstrução, ruptura ou crítica à imagem consagrada.
  • Dica de eliminação rápida: o verso final "com amor eu viajo" derruba de imediato A ("destituído de afetividade") e E ("distanciado") — sobram B e C, e C inventa um tema (falta de identidade) que o texto não sustenta.
  • Conexões: prosa modernista de segunda geração; regionalismo urbano; oposição entre cidade real e cidade-vitrine (também vista em crônicas de Rubem Braga e contos de Rubem Fonseca).

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