Mapa de questões · 1º dia
Questão 52 — ENEM 2020Caderno azul · 1º Dia
Dois grandes eventos históricos tornaram possível
um caso como o de Menocchio: a invenção da imprensa
e a Reforma. A imprensa lhe permitiu confrontar os
livros com a tradição oral em que havia crescido e lhe
forneceu as palavras para organizar o amontoado de
ideias e fantasias que nele conviviam. A Reforma lhe
deu audácia para comunicar o que pensava ao padre do
vilarejo, conterrâneos, inquisidores — mesmo não tendo
conseguido dizer tudo diante do papa, dos cardeais e dos
príncipes, como queria.
GINZBURG, C. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido
pela Inquisição. São Paulo: Cia. das Letras, 2006.
Os acontecimentos históricos citados ajudaram esse
indivíduo, no século XVI, a repensar a visão católica do
mundo ao possibilitarem a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Reforma Protestante e transformações culturais do século XVI
- ⚡ Nível: Fácil — o próprio texto entrega as duas causas (imprensa + Reforma) e pede só a consequência lógica.
- 🎯 Tema/Habilidade: Impactos da imprensa e da Reforma sobre a leitura da Bíblia (Competência de História Cultural — relacionar tecnologia, religião e mentalidades).
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A imprensa e a Reforma ajudaram Menocchio a repensar o catolicismo ao possibilitarem o quê?"
- Palavras-chave decisivas: imprensa, Reforma, repensar a visão católica
- Armadilha típica: escolher alternativas que soam "religiosas" ou "modernas" (educação secular, barroco, correção de heresias) sem verificar se decorrem diretamente da imprensa somada à Reforma.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o resultado combinado dos dois eventos foi permitir que um homem comum lesse e interpretasse sozinho as Escrituras.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Imprensa (Gutenberg, c. 1450): barateou e multiplicou os livros, sobretudo a Bíblia, colocando o texto sagrado nas mãos de leigos que antes dependiam da mediação oral do clero.
- Reforma Protestante (Lutero, 1517): defendeu o livre exame das Escrituras e a tradução da Bíblia para as línguas vernáculas, negando o monopólio interpretativo da Igreja de Roma.
- Menocchio: moleiro friulano do século XVI, protagonista do livro de Ginzburg, julgado pela Inquisição por criar sua própria cosmovisão a partir das leituras que fazia — exemplo vivo do leitor autônomo.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A imprensa lhe permitiu confrontar os livros com a tradição oral" → o acesso ao texto escrito o libertou da versão transmitida apenas pelo clero.
- Evidência 2: "A Reforma lhe deu audácia para comunicar o que pensava ao padre... inquisidores" → a Reforma legitimou a ideia de que um leigo podia pensar e opinar sobre matéria religiosa.
- Síntese: livro na mão (imprensa) + coragem para interpretar por conta própria (Reforma) = leitura pessoal e independente da Bíblia, sem a tutela da Igreja.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o efeito comum aos dois eventos
A pergunta pede o que a imprensa e a Reforma, juntas, possibilitaram. A imprensa fornece o meio material (o livro acessível); a Reforma fornece a autorização mental (posso interpretar sozinho). O ponto de encontro dos dois é claríssimo: o indivíduo lendo e interpretando os textos sagrados por si mesmo.
Subpasso 4.2 — Traduzir para "repensar a visão católica"
O catolicismo do século XVI reservava à hierarquia eclesiástica o direito de interpretar a Bíblia (magistério). "Repensar" essa visão significa exatamente romper esse monopólio: passar a fazer a interpretação autônoma dos textos bíblicos. É isso que torna Menocchio perigoso aos olhos da Inquisição.
Subpasso 4.3 — Verificação
A alternativa que reúne "imprensa" (texto na mão) + "Reforma" (livre exame) + "repensar o catolicismo" é a que fala em interpretar as Escrituras de forma independente. Isso corresponde à letra D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) consulta pública das bibliotecas reais.
❌ Incorreta: a imprensa democratizou o livro pessoal, não o acesso a acervos de reis; bibliotecas reais eram restritas e não têm ligação com a Reforma nem com Menocchio.
B) sofisticação barroca do ritual litúrgico.
❌ Incorreta: o Barroco litúrgico foi resposta católica (Contrarreforma) e valoriza o ritual mediado pelo clero — o oposto de um leigo repensando o catolicismo por conta própria.
C) aceitação popular da educação secular.
❌ Incorreta: a questão trata de leitura religiosa das Escrituras, não de ensino laico; a Reforma reforçava a leitura da Bíblia, não uma educação apartada da religião.
D) interpretação autônoma dos textos bíblicos.
✅ Correta: sintetiza com precisão o efeito conjunto — a imprensa deu o livro e a Reforma deu a legitimidade para o indivíduo ler e interpretar a Bíblia sozinho, sem a mediação obrigatória da Igreja.
E) correção doutrinária das heresias medievais.
❌ Incorreta: "corrigir heresias" é justamente o papel da Inquisição que perseguia Menocchio; ele não corrige heresias, ele passa a produzir interpretações próprias consideradas heréticas.
🏆 Gabarito: D — Imprensa (acesso ao texto) somada à Reforma (livre exame) permitiu que um homem comum interpretasse a Bíblia de forma autônoma, desafiando o monopólio interpretativo católico.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a letra D combina os dois eventos citados e explica por que o catolicismo é "repensado" — pela leitura independente das Escrituras.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora associar a imprensa e a Reforma à circulação de ideias e à quebra do monopólio do conhecimento religioso.
- Generalização: quando o enunciado nomeia duas causas, a resposta deve ser o efeito comum a ambas — descarte tudo que se liga a só uma delas ou a nenhuma.
- Dica de eliminação rápida: corte de imediato o que remete à Contrarreforma/Igreja (B e E) e o que foge do tema religioso (A e C); sobra D.
- Conexões: Humanismo renascentista, traduções vernáculas da Bíblia e a cultura popular estudada pela micro-história de Carlo Ginzburg.
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