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Questão 44ENEM 2021Caderno azul · 1º Dia

Naquele tempo, Itaguaí, que, como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia; ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; — ou por meio de matraca.

Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, — um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e alias nunca domesticara um só desses bichos; mas tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regímen mereciam o desprezo do nosso século,

ASSIM.M O atieniata. Disponivel em www dominigubico gov br

O fragmento faz uma referência irônica a forma. de divulgação e circulação de informações em uma localidade sem imprensa.

Ao destacar a confiança da população no sistema da matraca, o narrador associa esse recurso à disseminação de

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Resolução

Ficha da Questão

  • Matérias: Literatura → Machado de Assis; ironia; circulação de informação (a "matraca")
  • Nível: Médio
  • Gabarito: D

Passo 1 — Leitura

  • Comando: "o narrador associa esse recurso à disseminação de…"
  • Palavras-chave: tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema; nunca domesticara um só desses bichos.

Passo 2 — Conceitos

  • Ironia machadiana: o narrador mostra como a confiança cega no sistema da matraca fazia o público acreditar em algo falso.
  • Informação não fidedigna: notícia sem comprovação que circula e ganha credibilidade pela autoridade do meio.

Passo 3 — Decodificação

  • Evidência 1: o vereador "nunca domesticara um só desses bichos", mas as pessoas "afirmavam ter visto cascavéis dançando" → informação falsa.
  • Evidência 2: "afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema" → o meio dá credibilidade a algo não verdadeiro.
  • Síntese: a matraca dissemina informações não fidedignas acreditadas por confiança no veículo.

Passo 4 — Resolução

O fragmento ironiza um sistema de divulgação que, por gozar de "absoluta confiança", fazia circular como verdade aquilo que era "perfeitamente falso". O narrador associa a matraca à disseminação de informações não fidedignasD.

Passo 5 — Análise

A) campanhas políticas. ❌ A matraca anunciava de tudo (remédios, terras, sonetos), não campanhas políticas em si.

B) anúncios publicitários. ❌ Embora houvesse anúncios, o destaque irônico é sobre a falsidade aceita, não a publicidade.

C) notícias de apelo popular. ❌ O foco não é apelo popular, e sim a falsidade crida por confiança no meio.

D) informações não fidedignas. ✅ "Afirmação perfeitamente falsa … só devida à absoluta confiança no sistema" = informação não fidedigna.

E) serviços de utilidade pública. ❌ Não é o eixo: a ironia recai sobre a credibilidade dada ao falso.

Gabarito: D

Passo 6 — Dica

  • Padrão: texto que ironiza confiança cega em um meio de divulgação → disseminação de informação falsa.
  • Dica rápida: "falsa, mas crida por confiança no sistema" = informação não fidedigna (fake news avant la lettre).
  • Conexões: Machado de Assis; ironia; circulação da informação; desinformação.

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