Mapa de questões · 1º dia
Questão 22 — ENEM 2024Caderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Capítulo 4, versículo 3
Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição Na queda ou na ascensão, minha atitude vai além E tem disposição pro mal e pro bem Talvez eu seja um sádico ou um anjo, um mágico Ou juiz, ou réu, o bandido do céu Malandro ou otário, quase sanguinário Franco atirador se for necessário Revolucionário, insano, ou marginal Antigo e moderno, imortal Fronteira do céu com o inferno Astral imprevisível, como um ataque cardíaco do verso.
RACIONAIS MCs. Sobrevivendo ao inferno. São Paulo: Cosa Nostra, 1997 (fragmento).
TEXTO II
Pode-se dizer que as várias experiências narradas nos discos do Racionais tratam no fundo de um só tema: a violência que estrutura a nossa sociedade. O grupo canta a violência que estrutura as relações entre os familiares, os amigos, o homem e a mulher, o traficante e o viciado. Canta a violência do crime. A violência causada por inveja ou por vaidade. Também canta que a relação entre as classes sociais é sempre violenta: o racismo, a miséria, os baixos salários, a concentração de renda, a esmola, a publicidade, o alcoolismo, o jornalismo, o poder policial, a justiça, o sistema penitenciário, o governo existem por meio da violência.
GARCIA, W. Ouvindo Racionais MCs. Teresa: revista de literatura brasileira, n. 5, 2004 (adaptado).
Na letra da canção, a tematização da violência mencionada no Texto II manifesta-se
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → relação entre dois textos; metalinguagem e função poética no rap
- ⚡ Nível: Difícil — quatro alternativas descrevem algo que de fato está na letra, e a diferença entre elas é o modo como a violência aparece
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificar de que forma a violência tematizada em um texto teórico se manifesta na letra de rap
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
Comando reformulado: "Na letra dos Racionais, por qual recurso a violência de que fala o Texto II aparece?"
Palavras-chave decisivas: a tematização da violência mencionada no Texto II manifesta-se
Armadilha típica: apontar simplesmente os termos bélicos. Tiro, munição e franco atirador estão lá — mas todos vêm colados a "minha palavra", e é isso que muda a resposta.
O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato perceba que o eu lírico está falando do próprio discurso, e que é a palavra dele que é apresentada como arma.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
Metalinguagem: uso da linguagem para falar da própria linguagem. Em rap, aparece quando o enunciador define o que a sua palavra, o seu verso ou o seu rap são capazes de fazer.
Violência simbólica e violência representada: um texto pode descrever cenas violentas ou pode assumir a violência como qualidade do próprio dizer. O Texto II fala de uma violência que estrutura a sociedade; o Texto I responde tomando a palavra como arma dentro dessa estrutura.
Vocabulário decisivo do fragmento: "minha palavra vale um tiro", "eu tenho muita munição", "franco atirador se for necessário", "como um ataque cardíaco do verso" — em todas as ocorrências, o termo bélico qualifica o dizer.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
Evidência 1: "Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição" → o verso de abertura já equivale palavra a disparo e repertório verbal a munição. A arma é o discurso.
Evidência 2: "Franco atirador se for necessário" → a imagem se mantém no campo bélico, mas continua descrevendo uma postura de quem fala, dentro da mesma enumeração de identidades do enunciador.
Evidência 3: "Astral imprevisível, como um ataque cardíaco do verso" → o fecho nomeia explicitamente o verso. O efeito violento é atribuído ao próprio texto que está sendo cantado.
Evidência 4 (Texto II): "a violência que estrutura a nossa sociedade [...] a publicidade, o alcoolismo, o jornalismo, o poder policial" → o crítico inclui os discursos entre os lugares em que a violência opera, o que autoriza ler a palavra como campo de disputa.
Síntese: a letra não narra cenas de violência: ela declara que a palavra do enunciador é uma arma. A violência entra pela via da linguagem falando de si mesma.
Passo 4 — Resolução Passo a Passo
4.1 — Ver a quem os termos bélicos se referem
Tiro e munição não descrevem um confronto: qualificam "minha palavra". Sem esse sintagma, a leitura bélica ficaria solta; com ele, ela vira definição do próprio discurso.
4.2 — Confirmar no fecho
"Ataque cardíaco do verso" fecha o fragmento voltando ao mesmo lugar: o verso é o agente do impacto. A letra começa e termina falando do poder da própria fala.
4.3 — Nomear o procedimento
Falar da própria palavra, dentro do texto, é metalinguagem. E a palavra é apresentada como instrumento de enfrentamento: combate e insubordinação.
4.4 — Verificação
A leitura tem de explicar por que o fragmento é uma lista de definições do eu ("talvez eu seja...") e não uma narrativa. Explica: é um texto sobre o que aquele dizer é. Gabarito: C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) como metáfora da desigualdade, que associa a ideia de justiça a valores históricos negativos.
❌ Incorreta: "juiz, ou réu" aparece na enumeração, mas como mais um par de identidades possíveis do enunciador, e não como construção de uma metáfora sobre desigualdade. O fragmento não desenvolve a ideia de justiça.
B) na referência a termos bélicos, que sinaliza uma crítica social à opressão da população das periferias.
❌ Incorreta: é o distrator mais forte: tiro, munição e franco atirador estão de fato no texto. Mas a alternativa para na constatação do vocabulário e ignora a quem ele se aplica — todos qualificam "minha palavra". Além disso, a periferia não é mencionada no fragmento.
C) como procedimento metalinguístico, que concebe a palavra como uma forma de combate e insubordinação.
✅ Correta: o fragmento abre com "Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição" e fecha com "um ataque cardíaco do verso": os dois extremos falam do próprio dizer. A violência aparece como atributo do discurso, o que caracteriza a metalinguagem e converte a palavra em arma.
D) nas definições ambíguas do enunciador, que inverte e relativiza as representações da maldade e da bondade.
❌ Incorreta: "sádico ou um anjo", "bandido do céu" e "fronteira do céu com o inferno" realmente montam pares ambíguos. Mas essa ambiguidade caracteriza o sujeito, e não a violência tematizada no Texto II — que é social e estrutural, não moral.
E) na menção à imortalidade, que sugere a possibilidade de resistência para além da dicotomia entre vida e morte.
❌ Incorreta: "Antigo e moderno, imortal" é um item isolado da enumeração, sem desenvolvimento. Nada no fragmento constrói uma oposição entre vida e morte nem propõe a imortalidade como forma de resistir.
🏆 Gabarito: C — os termos bélicos da letra qualificam sempre "minha palavra" e "o verso", o que faz da linguagem o objeto do próprio texto e converte o dizer em arma.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só C explica por que o fragmento começa e termina falando da palavra e do verso; B fica no vocabulário e D descreve o sujeito, não a violência.
- Padrão de cobrança: os Racionais MCs são presença recorrente em linguagens, e o item costuma vir com um texto teórico ao lado. A pergunta é como o conceito do Texto II aparece no Texto I.
- A regra geral que se leva: ao ver termos de um campo semântico forte, pergunte a que substantivo eles se ligam. Se se ligam à própria linguagem, a resposta é metalinguagem.
- Eliminação em 30 segundos: sublinhe "minha palavra" e "do verso". Com esses dois sintagmas marcados, as alternativas que falam de periferia, justiça ou imortalidade perdem apoio.
- Temas que vêm junto: funções da linguagem (metalinguística e poética), rap como gênero literário e violência como tema em linguagens.
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