Como Chutar no ENEM Sem Derrubar a Nota (o que a TRI Perdoa e o que Ela Pune)
Chutar no ENEM não tira ponto e questão em branco vale o mesmo que erro, então nunca deixe nada sem marcar. O que a TRI pune é o padrão: acertar difícil e errar fácil. Veja como eliminar alternativas, em que ordem fazer a prova e quando abandonar uma questão.

Toda semana alguém me pergunta a mesma coisa: "Renato, chutar no ENEM tira ponto?". A pergunta vem com medo, porque corre por aí a ideia de que a TRI "desconta" chute. Não desconta. Não existe ponto negativo no ENEM. Uma questão errada e uma questão em branco valem exatamente a mesma coisa: nada.
O que existe é outra coisa, mais sutil. A TRI não conta quantas você acertou. Ela olha quais você acertou e monta um retrato do que você sabe. Se o retrato faz sentido, a nota sobe. Se ele fica esquisito (acerto em questão que quase ninguém acertou junto com erro em questão que quase todo mundo acertou), ela desconfia e o acerto vale pouco.
Então a resposta tem duas partes. Chutar não tira ponto. Mas chutar por falta de tempo em questão fácil derruba a nota que você já tinha garantido. Este texto é sobre fazer a primeira parte sem cair na segunda.
Chutar no ENEM tira ponto?
Não. O ENEM não tem desconto por erro. Se você marca a letra errada, a questão vale zero. Se deixa em branco, vale zero também. Do ponto de vista da nota, branco e erro são idênticos, e por isso deixar em branco é jogar fora uma chance de 20% de acertar de graça.
O medo do chute vem de uma confusão sobre o que a TRI faz. Ela não soma acertos. Cada questão tem três parâmetros: dificuldade, discriminação (o quanto ela separa quem sabe de quem não sabe) e acerto casual, a chance de acertar sem saber. O modelo já espera que parte dos acertos nas difíceis seja chute. Ele nasceu para lidar com isso.
Se você quer entender o mecanismo inteiro, com os três parâmetros e a curva em "S" que transforma acertos em nota, eu já expliquei em como calcular a nota do ENEM pela TRI. Aqui vou ficar só na parte que muda o seu comportamento dentro da sala de prova.
O chute que a TRI perdoa e o que ela pune
Pensa em dois alunos com 22 acertos em Matemática.
O primeiro acertou as 20 questões mais fáceis da prova, mais duas medianas. Errou todas as difíceis. Para a TRI, esse padrão é limpo: ele domina o básico, ainda não chegou no avançado. A nota reflete isso e fica boa para 22 acertos.
O segundo acertou 14 fáceis, errou 6 fáceis, e acertou 8 espalhadas entre médias e difíceis. Mesmo número de acertos. Mas agora o modelo enxerga uma coisa estranha: quem erra questão de porcentagem simples não deveria acertar a de geometria espacial com três etapas. Os 8 acertos difíceis ficam com cara de sorte, e a estimativa de proficiência é puxada para baixo pelos 6 erros fáceis. Ele tira menos que o primeiro.
Repara no que causou o estrago. Não foi o chute nas difíceis. Foi o erro nas fáceis. Quem chuta uma difícil e acerta, dentro de um padrão coerente, ganha pouco, mas não perde nada. Quem deixa uma fácil escapar perde o que sustentava a nota inteira.
Por isso a estratégia de chute começa antes do chute: na ordem em que você faz a prova e no tempo que dá para cada questão.
Como eliminar alternativas no ENEM
Chute puro é 20%. Eliminando duas alternativas, 33%. Eliminando três, 50%. Estas são as técnicas que eu ensino, com exemplo de como aparecem na prova.
1. Desconfie dos absolutos. Alternativa com "sempre", "nunca", "apenas", "totalmente" costuma ser distrator, porque o ENEM gosta de nuance. Numa questão de Sociologia sobre indústria cultural, "a cultura de massa elimina completamente as manifestações regionais" cai pelo "completamente". A certa costuma dizer "tende a", "contribui para", "em parte".
2. Corte a alternativa que responde outra pergunta. É a armadilha mais comum de Humanas. O enunciado pergunta a causa da Revolta da Vacina e uma alternativa descreve a consequência (a resistência popular no Rio). A frase é verdadeira, mas não responde o que foi perguntado. Antes de julgar se é verdadeira, confira se responde o comando: causa, consequência, característica, crítica?
3. Use os pares opostos. Quando duas alternativas dizem o contrário uma da outra ("a pressão aumenta" e "a pressão diminui"), a certa costuma ser uma delas, porque o examinador monta o distrator invertendo a resposta. Não é lei, mas em questão que você não sabe, isso te leva de 20% para perto de 50%.
4. Em Natureza e Matemática, olhe unidade e ordem de grandeza. Antes de fazer conta, elimine o absurdo. Um carro a 30 m/s está a 108 km/h, plausível; 3.000 m/s é velocidade de bala, sai. O enunciado pede km e a alternativa está em metros? Sai. Porcentagem "da população" acima de 100%? Sai. Em Matemática básica, só a estimativa já costuma deixar duas alternativas de pé.
5. Em Humanas e Linguagens, prefira a mais abrangente. Quando sobram duas plausíveis, a certa costuma ser a que relaciona dois elementos (texto e contexto, causa e efeito) em vez da que só descreve um. Cuidado: mais abrangente não é mais longa. É a que conecta mais coisas do enunciado.
6. Volte ao texto-base. Toda alternativa certa de interpretação tem um trecho que a sustenta. Se você não consegue apontar o trecho, é distrator que "parece verdade no mundo" mas não está no texto. É a técnica que mais salva em Linguagens, onde a maioria dos erros vem de responder pelo que você acha, não pelo que o texto diz.
Eliminação em 6 passos
- Absolutos (sempre, nunca, apenas) quase sempre são distrator
- A alternativa responde o que foi perguntado, ou outra pergunta?
- Duas alternativas opostas: a certa costuma ser uma delas
- Natureza e Matemática: unidade e ordem de grandeza antes da conta
- Humanas e Linguagens: a que relaciona mais elementos do enunciado
- Interpretação: se não acha o trecho que sustenta, é distrator
Em que ordem fazer a prova do ENEM
A ordem certa não é a do caderno. É a da sua nota: fácil primeiro, difícil por último. Eu explico no vídeo lá em cima. A TRI paga mais pela coerência das fáceis e médias do que por um acerto isolado na difícil, então a prova tem que ser feita em passadas.
- Primeira passada: só o que você sabe. Se em um minuto você já sabe o caminho, resolve. Se travou, marca no caderno (círculo para média, X para difícil) e vai para a próxima. Aqui você garante a base da nota.
- Segunda passada: as marcadas com círculo. Volte nas médias, aquelas em que você sabe o assunto mas a conta é longa ou o texto é grande. Agora você tem tempo e cabeça limpa.
- Terceira passada: eliminação e chute. As marcadas com X. Elimine, chute entre o que sobrou e siga. No máximo dois minutos em cada; o retorno é baixo.
- Cartão-resposta em blocos, não no fim. Transfira as respostas a cada 15 ou 20 questões. Cartão preenchido na última meia hora, com a mão tremendo, é onde a fácil vira erro por marcação trocada.
No primeiro dia tem a redação. Reserve pelo menos 1 hora para ela e decida antes da prova em que momento vai escrever; ela sozinha é um quinto da sua média e não pode ficar para os últimos 40 minutos. Para o segundo dia, Natureza e Matemática, tenho um vídeo específico: como se sair bem no segundo dia do ENEM.
Quando abandonar uma questão
A conta que todo mundo deveria fazer antes de entrar na sala:
Esses 3 minutos são a média, não o limite. Fácil leva 1 minuto e sobra tempo para a difícil. O problema é a difícil que come 10, 12 minutos: cada uma rouba o tempo de três ou quatro fáceis, que é exatamente o que a TRI mais valoriza.
Minha regra: se depois de 1 minuto de leitura você não sabe por onde começar, marca com X e sai. Se começou e passou de 4 minutos sem convergir, anota na margem o que já eliminou e sai. A questão vai estar lá na terceira passada. Abandonar não é desistir; é adiar para a hora certa.
Faça o teste na calculadora de nota do ENEM.
Qual a melhor letra para chutar no ENEM?
Não existe. O INEP distribui os gabaritos de forma equilibrada entre A, B, C, D e E. Em um ano uma letra aparece um pouco mais que as outras, no ano seguinte é outra, e você não tem como saber qual antes de abrir a prova. Quem te vende "chuta tudo na letra C" está te vendendo um sorteio com nome bonito.
Então "chutar tudo na mesma letra" não é estratégia. É recurso de emergência para os últimos minutos, quando ainda há questões sem marcar e não dá nem para ler. Aí, marcar todas na mesma letra é melhor que deixar em branco, só isso. Se você fez a prova em passadas, essa situação não deveria acontecer.
A melhor "letra" é a que sobra depois da eliminação. Chute com duas alternativas de pé vale muito mais que qualquer superstição sobre gabarito.
Treine o chute antes do dia da prova
Tudo isso é técnica, e técnica se treina. Faça prova cronometrada em passadas, marque as questões que chutou e confira no gabarito: os chutes com eliminação estão acertando mais que os no escuro? As fáceis estão saindo na primeira passada?
Comece pelas provas oficiais. As questões do ENEM 2025 estão comentadas aqui no blog, e os simulados servem para treinar no formato e no tempo real. Se você já está na reta final, esse treino cabe dentro do cronograma de 2 meses para o ENEM, que reserva o sábado para simulado.
Conheça a Premonição ENEM.
Perguntas frequentes
Chutar no ENEM tira ponto?
Não. O ENEM não tem penalidade por erro: questão errada e questão em branco valem zero do mesmo jeito. O que a TRI faz é avaliar a coerência do seu padrão de respostas, e acertar difíceis enquanto erra fáceis faz aqueles acertos valerem pouco. Mas nenhum chute subtrai ponto.
Qual a melhor letra para chutar no ENEM?
Nenhuma. O INEP distribui as respostas de forma equilibrada entre as cinco letras, e a letra mais frequente muda de ano para ano. Chutar tudo na mesma letra só vale como recurso de emergência nos últimos minutos. Sempre que der, elimine alternativas antes de chutar: com duas de pé você tem 50% de chance, contra 20% do chute cego.
É melhor deixar em branco ou chutar?
Chutar, sempre. Em branco vale zero garantido; o chute tem pelo menos 20% de chance de acerto, e mais que isso se você eliminou alternativas. A TRI já considera a probabilidade de acerto casual em cada item, então um chute certo em questão difícil não "estraga" a nota. Não existe cenário em que deixar em branco seja melhor.
Chutar muitas questões difíceis pode derrubar a nota?
O chute nas difíceis em si não derruba. O que derruba é o que vem junto: gastar tempo demais nelas e errar as fáceis por pressa ou marcação trocada. Se você garantiu as fáceis e médias, os chutes nas difíceis pesam pouco. Se sacrificou as fáceis para tentar as difíceis, a nota cai, e a culpa não foi do chute.
Quanto tempo devo gastar em cada questão do ENEM?
Cerca de 3 minutos no primeiro dia (5h30 para 90 questões, reservando 1 hora para a redação) e cerca de 3 minutos e 20 segundos no segundo dia (5h para 90 questões). Isso é a média: as fáceis levam menos e sobra tempo para as difíceis. Se uma questão passar de 4 minutos sem sair, marque, siga e volte depois.
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